Os primeiros aprendizados
Então, assim, e a minha atuação foi um vexame no início, sabe, porque na igreja, por exemplo, quando a gente discutiu a questão do lixo, eu vim com aquela ideia do interior de Minas Gerais, né. Você faz o… coloca o lixo no plástico, separa as coisas, e o pessoal, primeira frase que eu falei, o pessoal dava gargalhada, não esqueço. Eles tinham muita liberdade, o pessoal [risos] falava muito na cara, eu também não tava acostumada com isso, então eles riam muito e falavam: Aqui não tem coleta, aqui não tem lugar pra colocar, aqui a gente se não colocar na rua fica dentro de casa, vai dar bicho, varejeira, não sei o que. Então os moradores tanto me acolheram na ausência do meu marido, como me ensinaram a realidade, sabe. Então eu não era de muito escutar não, porque eu achava que eu sabia mais. Eu tive que aprender a ficar calada, eu ouvi na marra. Foi a primeira lição que a Cidade de Deis me deu. Você que chegou agora, estrangeira, tem que ouvir primeiro. Não dá pra falar porque você não sabe da nossa realidade. Então foi esse um grande aprendizado. Quando meu marido morreu eu tive que fazer o inventário. Procurei a justiça gratuita e fui fazer o inventário da minha casa, e aí eu descobri que a minha casa não existia. Os moradores da Praia do Pinto foram alocados numa quadra que era pra ter equipamento comunitário. E nesse lugar eles construíram, a toque de caixa, o terreno era do município, a casa era da CEHAB e ninguém era dono de nada. Era tudo no nome de CEHAB. Então eu fui fazer inventário, o inventário está lá até hoje, já tem… eu fiquei viúva em 76. Eu passei a minha casa pra outro morador quando saí de lá, não tem escritura, tá no nome da CEHAB, o terreno é da prefeitura, e essa é uma situação de vulnerabilidade de mais 23 quadras na Cidade de Deus, entendeu? Que não tem e, se tiver, qualquer tipo de remoção as pessoas podem lutar, porque luta, na Cidade de Deus o pessoal é valente, mas se for buscar na justiça um direito é por usucapião, porque o que está na documentação não aceita nosso direito. Então outro aprendizado foi esse. Por causa disso eu consegui convencer os moradores da quadra a buscar outras quadras que estavam na mesma situação e buscar o Conselho de Moradores da Cidade de Deus. Aí eu saio do campo da Igreja e vou para o campo do movimento comunitário pra resolver um problema que era de quadra. E assim que começa meu envolvimento nas outras lutas.
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