segunda-feira, 22 de agosto de 2022

UMA CIDADE QUE RESPIRA OVO

 Uma cidade que respira ovo

Autoproclamada a “Capital do Ovo”, a cidade de Bastos ostenta a peculiar relação de pouco mais de 500 galinhas para cada ser humano vivo dentro do município. São pouco mais de 20 mil habitantes (humanos) e 11,3 milhões de galinhas, espalhadas por aproximadamente 60 granjas. 


Se todas as galinhas de Bastos fossem colocadas lado a lado em uma única linha reta, seria possível percorrer os cerca de 2 mil quilômetros que separam a cidade da capital de Pernambuco, Recife. Tal marca reflete em números de produção igualmente superlativos: 3,2 bilhões de ovos por ano, o equivalente a 9 milhões por dia, ou, 6,2 mil por minuto. 


Daniel Tozzi Mendes/Agência Pública


Daniel Tozzi Mendes/Agência Pública


Referências ao alimento estão espalhadas por toda a cidade

Quem se aproxima do município pela principal via de acesso, a rodovia SP-457, percebe aos poucos a concentração de galpões de granjas na beira da estrada e o forte cheiro de ração e esterco de galinha. Quanto mais próximo das granjas, maior a quantidade de moscas circulando. 


Ao caminhar por Bastos, também chama atenção a presença de silos (enormes estruturas em formato cilíndrico, responsáveis pela armazenagem dos grãos que dão origem à ração das galinhas) espalhados pela cidade. Alguns desses silos estão instalados dentro da área urbana do município, contrastando com o mosaico de casas e comércios. “É o jeito para alimentar essa quantidade toda de galinhas”, comenta o cliente de um salão de beleza que funciona na frente de um desses silos, no centro de Bastos, enquanto a reportagem da Pública percorria as ruas da cidade. Quando a estrutura está sendo abastecida com os grãos, o barulho é tão grande que qualquer conversa próxima ao silo fica impossível. 


Guilherme Nascimento/Agência Pública

Silo ao lado de salão de beleza, no centro de Bastos; estrutura armazena grãos que dão origem à ração das galinhas

Peculiaridades do gênero à parte, Bastos mantém o aspecto pacato de cidade do interior paulista. A alcunha de “terra do ovo” é motivo de orgulho entre a população e, por toda a cidade, existem referências ao alimento, que vão da “Praça do Ovo”, ponto turístico de Bastos, à decoração personalizada de alguns postes de luz, ladrilhos de calçada e placas com o nome de ruas. “Aqui todo mundo tem orgulho de falar que mora na Capital do Ovo”, afirma Breno Erick dos Santos, servidor da secretaria de Cultura de Bastos, nascido e criado no município. 



Assim como um brasileiro que vai ao exterior e presenteia estrangeiros com itens que fazem referência ao samba ou ao futebol, de acordo com Breno, é comum que a população bastense presenteie “forasteiros” com ovos. “É nosso principal traço cultural e símbolo da cidade. Se estamos em uma agenda com autoridades de outras regiões, por exemplo, fazemos questão de entregar ovos de presente”, conta. 


Além de um dia a dia quase que inteiramente voltado para a produção de ovos, outro aspecto marcante da cidade é o forte laço com o Japão e a cultura do país asiático. Bastos foi fundada em 1928 por imigrantes japoneses, e o impulsionamento da indústria do ovo no município está ligado à chegada da população nipônica, que deu início à criação de galinhas na região na década de 1950.  


Ainda hoje, a grande maioria das granjas de Bastos pertence a famílias japonesas, que mantiveram os negócios funcionando com o passar das gerações. Não à toa, a presença de descendentes de japoneses na cidade é significativa. No censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, por exemplo, pouco mais de 11,3% da população do município se autodeclarou “amarela”, o que faz de Bastos a cidade do estado de São Paulo com a maior concentração dessa etnia, e a terceira maior em todo o Brasil. 


Daniel Tozzi Mendes/Agência Pública

Bastos foi fundada em 1928 por imigrantes japoneses; o laço com o Japão fica claro na arquitetura da cidade

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