A alegria da vida comunitária
Ó, eu fiquei viúva aos 23 anos, né. Fiquei viúva com 23 anos e eu vivi o processo de passagem das gerências independentes do tráfico. A história do tráfico tem uma marca muito importante na identidade da Cidade de Deus, né. A resistência dos moradores e a ingerência do tráfico e a inoperância dos serviços públicos marca a identidade porque eu vivi esse processo das gerências, que tavam divididas e disputavam, pro início da Falange Vermelha, que é antes do Comando Vermelho. A unificação. Então, por exemplo, eu vivi na Cidade de Deus porque tava na igreja e podia circular, porque a igreja, a capoeira, as religiões, podiam circular, mas os moradores, os jovens de um lugar não podiam ir no baile de outro lugar. Não podia, era proibido, e os pais não deixavam. Então eu vivi esse momento, que era um momento de muito medo, né, tinha uma coisa também na Cidade de Deus que fazia muito medo, que eu passei muito medo, né, logo que eu fiquei viúva, que era a tal da Mão Branca, que era uma força de polícia vinculada à Ditadura Militar. E aí o pessoal chamava de Mão Branca, que matava nas comunidades. Então eu passei por esse medo, passei pela alegria de ter samba na rua, sabe, de sexta-feira ficar num bar, junto com outras pessoas, observando o samba, conheci de perto muito traficante que fazia sucesso, bonito, conheci o Valzinho de perto, e tal. Assim, que tinha essa convivência na comunidade porque nessa época o pessoal que comandava o tráfico era criado na área, todo mundo conhecia a mãe, a família, eles iam no baile, sabe, todo mundo tinha aquela reverência, né. Eu também tava lá. Ia lá, gostava de mocotó [risos] gosto dessas coisas, então participava. Tinha teatro na Cidade e participava. Tinha discussão do Movimento Negro com o pessoal do Agbara Dudu, lá de Madureira, que ia fazer show e depois debate político, eu também participava. Então esse início da minha mocidade ainda, mas já viúva, né, então…, mas eu trabalhava na Tijuca, sabe, eu trabalhava no Colégio Marista São José, então era uma realidade de um dualismo muito grande, sabe? Na Cidade de Deus eu vivia, tinha alegria de viver, encontrava com pessoas maravilhosas. Sabe quantos afilhados eu tenho na Cidade de Deus, por causa da religião? Eu tenho 28 afilhados de crisma e de batismo e tenho 16 de casamento. Então eu tenho muita comadre, muito compadre, porque a minha militância, ela vem de uma convivência assim, de bater papo, de saber das pessoas, sabe, de tomar cafezinho, de ir, de fazer comida boa na minha casa e os vizinhos virem comer. Tinha uma macarronada que eu fazia às vezes, uma vez por mês, que era um negócio assim, era uma mistureba, o pessoal adorava. Os meus vizinhos iam todos para a minha casa [risos] pra gente comer junto. Na festa junina a gente fazia festa junina junto, sabe, eu tinha essa vida social.
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