domingo, 21 de agosto de 2022

MUDANÇAS CLIMÁTICAS: PRESSÃO CONSTANTE NO CAMPO

 Mudanças climáticas: pressão constante no campo

“Agora a gente tem medo de plantar, medo de perder tudo”, desabafa dona Maria, que cultiva hortaliças em um terreno de 3 mil metros quadrados. O clima de apreensão é total entre os produtores de Jundiapeba — e não há época do ano em que estejam imunes ao novo regime climático.


O plantio e a colheita das hortaliças ocorrem geralmente quatro vezes ao ano, seja na mesma área, seja em sistema rotativo. São vários os fatores que influenciam a tomada de decisão sobre qual será a cultura que receberá mais investimento a cada ciclo.


Tipos de alface e folhas em geral têm predominância no campo devido à facilidade com a qual são distribuídos para intermediários, mercados e feiras na capital. Especialmente durante o verão e toda a época de calor, quando o consumo de saladas aumenta. A mesma lógica se aplica a raízes, como cenoura e beterraba, cujo pico de demanda se dá no calor. No entanto, todas elas são culturas mais bem adaptadas a temperaturas amenas e a chuvas moderadas.


Fellipe Abreu/Agência Pública


Fellipe Abreu/Agência Pública


Alterações no tempo interferem no ciclo das plantações e geram clima de apreensão entre agricultores

O ciclo das hortaliças tem, portanto, seu ápice no meio do ano — é o momento em que estão mais bonitas e rendem mais. A procura cai, mas a produtividade compensa e garante a manutenção da renda familiar e de reinvestimento dos agricultores.


A intensificação dos eventos climáticos extremos compromete o planejamento produtivo e qualquer chance de previsibilidade para o negócio. O relatório “Mudanças climáticas e eventos extremos no Brasil”, produzido pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), informa que há aproximadamente duas décadas a temperatura média no estado de São Paulo durante o mês de setembro (quando há baixa incidência de chuvas) chegou a ficar mais de 4°C acima da média histórica — gerando prejuízos que podem chegar à casa dos centenas de milhões de dólares nas produções agrícola e pecuária.


O outro extremo também assusta os agricultores. Quando ocorrem ondas de frio intenso, sobretudo se acompanhadas de geada, no outono e inverno, hortaliças folhosas incorrem em perda total. A primavera e o verão, quando as temperaturas sobem, são também a época das grandes chuvas e enchentes — novamente, com risco de zerar a produção. “O problema não é um evento extremo específico, mas esse ciclo de chuvas intensas seguidas de período mais seco. Eles [os produtores] não têm tempo para se recuperar de uma perda”, explica a pesquisadora Manuela Santos. De acordo com o Instituto Florestal, a frequência de chuvas intensas na região metropolitana de São Paulo é três vezes maior que no resto do estado.


Fellipe Abreu/Agência Pública

Época das grandes chuvas e enchentes tem risco de zerar a produção agrícola

Ainda em 2007, quando os impactos das mudanças climáticas eram menos evidentes na região, o cientista americano Robert De La Peña e a cientista britânica Jacqueline Hughes publicaram o paper “Improving vegetable productivity in a variable and changing climate”, em que já indicavam que “fenômenos como dias e noites quentes, ocorrência de geadas, secas intensas e duradouras, chuvas intensas, vendavais, entre outros, devem tornar-se mais comuns”. Quando projetam as condições climatológicas para o Brasil em 2100, concluem que a “futura produção de alface deve sofrer grande prejuízo”.


A lista de potenciais danos aos cultivos apontada no artigo é extensa: formação de plântulas (fase embrionária das hortaliças) anormais, morte das sementes, perda de uniformidade nos estandes de lavoura (o que leva à baixa produtividade), queima das bordas das folhas (esta em decorrência da deficiência de cálcio e boro, impossibilitando o consumo), florescimento precoce, acúmulo de látex e produção de folhas amargas, entre outros.

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