segunda-feira, 22 de agosto de 2022

GALINHAS FELIZES?

 Galinhas felizes?

Em alguns supermercados do país já é possível encontrar há alguns anos caixas de ovos com o selo “galinhas felizes” ou “galinhas livres”. Trata-se de um tipo alternativo de sistema de produção, em que as aves ficam soltas no galpão. Continua sendo um sistema de confinamento, com alimentação e luminosidade controladas, mas com maior espaço físico para que os animais expressem seu comportamento natural. Por propor uma criação fora das gaiolas, esse modelo é conhecido como “cage free”. 


Trata-se de um apelo global quando o assunto é bem-estar animal. Na Europa e no Canadá, por exemplo, o sistema de produção de aves poedeiras confinadas em gaiolas já está proibido. Em outros países, como nos Estados Unidos, Austrália e Índia, a proibição está em discussão. 


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“Em termos de bem-estar animal, esse é o modelo ideal”, afirma Patrycia Sato, diretora técnica da ONG Alianima, entidade de proteção ambiental e animal. De acordo com Patrycia, dentro da gaiola cada galinha tem um espaço um pouco menor que uma folha de papel sulfite A4 para viver toda a vida produtiva, de cerca de dois anos. “Para além desse desconforto físico, existem outros problemas, porque as galinhas não conseguem nem abrir as asas, ciscar no chão e expressar seus comportamentos naturais.” 


Mesmo que o principal motor por trás da evolução do sistema “cage free” seja o bem-estar animal, esse tipo de galpão também seria mais vantajoso do ponto de vista climático. “Um galpão sem gaiolas é muito mais fácil caso precise ser climatizado, porque ele já é fechado. E a quantidade de aves por metro quadrado é menor do que no sistema tradicional com gaiolas, uma variável importante nos episódios de onda de calor”, explica o pesquisador Daniel Lamarca. 


No Brasil, ainda não há uma normativa federal que determine o fim ou limite o sistema de criação de aves em gaiolas, embora a discussão já apareça na sociedade civil e no âmbito político, ainda que timidamente. Em março de 2022, o deputado estadual Carlos Giannazi (Psol/SP) propôs na Assembleia Legislativa de São Paulo o Projeto de Lei (PL)138/2022, que pretende dar prioridade para a aquisição de ovos de produtores que utilizem o sistema de criação de aves “cage free” em processos licitatórios promovidos pelo Estado. 


O movimento é visto com apreensão pelos granjeiros, caso a transição dos modelos seja imposta por meio de lei. “Nós aprendemos a criar galinhas em gaiola. A criação solta exige manejos e cuidados totalmente diferentes. É como se tivesse que aprender do zero, ou estamos condenados a perder tudo”, comenta o produtor Sérgio Kakimoto, que enxerga como principal vulnerabilidade do novo sistema o controle sanitário das galinhas. “Vacinar e cuidar das galinhas doentes é muito mais fácil dentro das gaiolas”, diz.  Além de tornarem o manejo sanitário mais difícil, as galinhas soltas exigem uma reestruturação na rotina e estrutura das granjas, mais mão de obra e, em muitos casos, tendem a gerar queda na produtividade das aves. 


Se não por força de lei, é a força do mercado que pode obrigar alguns granjeiros a alterar seus sistemas de produção. Com o aumento das discussões de bem-estar animal, empresas que integram a cadeia produtiva, como supermercados e redes de fast-food, têm começado a se comprometer publicamente com o assunto. Na Alianima, uma das frentes de trabalho tenta fazer justamente essa ponte, de forma a incentivar a transição dos modelos de confinamento das aves no Brasil. 


“A indústria não vai fazer isso por conta própria. A estratégia é fazer com que varejistas e restaurantes se comprometam publicamente a falar que só vão utilizar ovos que venham de sistemas livres de gaiolas”, afirma Patrycia. A tentativa de diálogo da ONG é com os grandes distribuidores de alimentos, que, por terem contato direto com os consumidores e maiores margens de lucro, são as partes com maior capacidade para absorver essas transformações. “É muito injusto que toda essa pressão, que requer investimento, recaia em cima do produtor, que é quem tem menos poder aquisitivo para fazer essa mudança. Não queremos que essa transformação em prol dos animais seja ruim socialmente”, diz a diretora da Alianima.



“Em um sistema tradicional de gaiolas, a possibilidade de automação é muito grande. Precisando de uma quantidade muito reduzida de funcionários dentro da granja, o preço do ovo consegue ficar mais barato. Para cada funcionário em um sistema tradicional, você vai precisar de cinco a seis funcionários nesses sistemas alternativos. Você precisa de mais mão de obra, o custo de produção aumenta, e isso é incorporado no preço do ovo, que vai ser repassado na hora de comercializar”, destaca o pesquisador Daniel Lamarca. 


Cristina Nagano, do Sindicato Rural de Bastos, diz que a pressão econômica e comercial para que essa transição aconteça já está posta, mas que ela vem do “topo da pirâmide”, e não dos principais consumidores de ovos no Brasil, a classe C e D. Por isso, na visão da avicultora, parece uma discussão afastada da realidade socioeconômica do país hoje. “O que vai acontecer é o que aconteceu na Europa: quando houve essa migração de sistema, houve aumento do preço do ovo. É muito mais caro produzir galinhas livres de gaiola. A prova disso é que hoje a caixa de ovo (com 30 dúzias) no Brasil, na média, custa R$ 140 reais. A caixa de ovo caipira, dessa mesma quantidade, deve custar R$ 250. Como a base da população vai conseguir consumir nesse preço?”, questiona. 


Toda a discussão sobre mudança de sistema de criação ainda acontece em meio a outro problema: o preço de grãos, como soja e milho, e que compõem até 70% dos custos de produção dos granjeiros, está bastante inflado no mercado internacional desde o início da pandemia. A situação foi agravada com a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos principais produtores mundiais de commodities agrícolas, o que fez com que as sacas produzidas no Brasil fossem cada vez mais destinadas à exportação. 


Assim, os ganhos com a venda de ovos, segundo os granjeiros, não estão compensando os gastos com a alimentação das galinhas. Numa tentativa de evitar prejuízo, granjeiros não apenas de Bastos, mas em boa parte das regiões produtoras no país, têm reduzido a quantidade de galinhas poedeiras. O número de aves produzindo ovos no país, que ultrapassou os 124 milhões no início de 2020, caiu para 114 milhões em 2021 e deve diminuir ainda mais, chegando a cerca de 92 milhões no fim de 2022, de acordo com a expectativa dos produtores.


O consumo, contudo, parece longe de diminuir, o que tende a aumentar ainda mais o preço do ovo, que já acumula altas nos últimos meses por causa dos elevados custos de produção. O preço médio de uma caixa com 30 dúzias de ovos brancos, quantidade-padrão vendida pelos produtores de Bastos, por exemplo, saiu de R$ 105 em março de 2020, início da pandemia, para R$ 144 em julho de 2022. Alta de mais de 37%. 


“Já temos o problema da onda de calor que exige cuidados por parte dos produtores e, consequentemente, mais custos. Da mesma forma, mudar o sistema de produção para fora das gaiolas também contribui para o aumento do preço do ovo, o que prejudica as classes econômicas mais baixas. É complexo”, resume Daniel Lamarca.   Nossa cobertura eleitoral é financiada por leitores como você. Ajude doando mensalmente ou faça um pix para contato@apublica.org. 


Essa reportagem é resultado das Microbolsas Alimentação e Mudanças Climáticas realizada pela Agência Pública, Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e a Cátedra Josué de Castro. A 14ª edição do concurso selecionou jornalistas para investigar os diferentes aspectos desse tema no Brasil.


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Luíza Lanza

 lmlanza@yahoo.com

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Daniel Tozzi Mendes

 danieltozzi15@gmail.com

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