quinta-feira, 25 de junho de 2026

 

Lideranças denunciam intolerância religiosa após fala de vereador na Câmara de Natal

24 de junho de 2026
4min
Lideranças denunciam intolerância religiosa após fala de vereador na Câmara de Natal
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Uma fala do vereador Subtenente Eliabe (PL) durante sessão da Câmara Municipal de Natal provocou reação de lideranças religiosas, movimentos sociais e parlamentares ligados à defesa da liberdade religiosa. O episódio, ocorrido no último dia 11, é apontado por representantes dos povos tradicionais de matriz africana como um caso de intolerância religiosa e racismo religioso.

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Durante discurso no plenário, ao criticar setores da oposição, o parlamentar mencionou entidades cultuadas em religiões afro-brasileiras. “Essa turma que pede as divindades aí, até o Exu Caveira, Zé Pilintra, o que eles entendem aí, para que a coisa dê errada”, afirmou. A declaração repercutiu entre praticantes de Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada, que consideraram a associação ofensiva e discriminatória.

Babá Cláudio Oliveira, sacerdote de Candomblé, responsável pela Ilê Axé Olorum Malê, na Zona Norte de Natal, e representante da Federação de Umbanda, Candomblé e Jurema do Rio Grande do Norte (Fejuc-RN), afirma que a fala reforça preconceitos historicamente direcionados às religiões de matriz africana. Segundo ele, a comunidade foi surpreendida pela circulação do vídeo nas redes sociais e decidiu reagir de forma organizada.

“Durante todos esses anos, nunca teve uma fala tão pesada e tão racista quanto foi agora do vereador Eliabe”, afirmou. “Foi uma fala extremamente racista e preconceituosa, onde nós, povos tradicionais de matriz africana, ficamos extremamente revoltados.”

De acordo com Babá Cláudio, lideranças religiosas, entidades representativas e integrantes do movimento negro elaboraram uma carta aberta à sociedade e iniciaram uma série de medidas para cobrar responsabilização pelo ocorrido. O grupo registrou um boletim de ocorrência e prepara uma representação junto ao Ministério Público.

“Ele precisa aprender que liberdade de expressão não dá o direito de ser racista e colocar aquilo que vem à cabeça”, declarou em entrevista à Agência Saiba Mais. “A intolerância e o preconceito dão voz ao racista e ao discriminador. Por isso entendemos que esse episódio não pode passar sem resposta.”

Para o líder religioso, a controvérsia vai além de uma divergência política e evidencia um problema estrutural enfrentado por comunidades tradicionais de matriz africana. Segundo ele, ataques dessa natureza atingem não apenas a dimensão religiosa, mas também aspectos raciais e culturais historicamente associados às populações negras e indígenas.

“Nós sofremos diariamente perseguição pelo fato de sermos povos tradicionais de matriz africana. Nunca foi só uma questão religiosa. É uma tradição de negro, de preto e de indígena, e a gente não aceita esse tipo de postura”, disse. “É criminoso e nós iremos tomar as providências cabais para que atos como esse não se repitam.”

O caso também repercutiu entre parlamentares. A deputada estadual Divaneide Basílio informou ter recebido a denúncia das mãos de Babá Cláudio e defendeu a apuração do episódio. Em publicação nas redes sociais, afirmou que “racismo e intolerância religiosa não são liberdade de expressão” e classificou o caso como grave.

A vereadora Brisa Bracchi também se manifestou. Segundo ela, discursos dessa natureza não podem ser normalizados em espaços institucionais. “É inadmissível que um parlamentar ainda tenha esse tipo de fala em qualquer plenário que seja sem sofrer as devidas consequências”, escreveu.

A Constituição Federal garante a liberdade de consciência e de crença e assegura o livre exercício dos cultos religiosos. Além disso, a Lei nº 7.716/1989 estabelece punições para práticas de discriminação ou preconceito motivadas por religião. Nos últimos anos, o debate sobre racismo religioso tem ganhado destaque no país, especialmente em casos envolvendo ataques a religiões de matriz africana.

Os representantes dos povos de terreiro afirmam que continuarão acompanhando o caso e cobrando providências dos órgãos competentes.

A equipe de reportagem não obteve resposta da equipe do vereador até o fechamento dessa matéria.

 

Após "ação simbólica", moradores de Comuna seguem em surto de bicho de pé

13 de junho de 2025
6min
Após
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Moradores da Comuna Produtiva Maria de Fátima, no bairro Malvinas, em Extremoz (RN), denunciam que a situação de infestação por bicho de pé, abandono institucional e insegurança alimentar continua sem qualquer resolução efetiva. Mesmo após uma ação realizada pela Prefeitura no último dia 17 de maio, que, segundo relatos da coordenação local, teve caráter paliativo e ocorreu fora do território da ocupação, o cenário segue de desassistência total, com agravamento dos problemas sanitários e sociais.

“A realidade do povo é agora. É de agora, não é do dia 17”, destaca Sérgio Luiz, militante do MST e integrante da coordenação da comuna. Ele contesta o uso político das imagens feitas naquele dia pela gestão municipal: “Aquelas fotos bonitas foram feitas só pra dizer que fizeram alguma coisa. Apareceram só pra tirar foto. Depois sumiram”.

Ação limitada e fora do território

A única ação promovida pela Prefeitura ocorreu na comunidade Alto da Bela Vista, localizada a cerca de um quilômetro da comuna. De acordo com Sérgio, a justificativa repassada informalmente a alguns moradores foi de que não era possível realizar a atividade dentro da Comuna Maria de Fátima por se tratar de área não desapropriada e por não haver piso adequado para montagem de estruturas móveis.

A ação "Aqui Tem Cuidado" foi promovida pela Secretaria Municipal de Extremoz no último dia 17 de maio. Foto: Cedida

"Fizeram a gente sair do nosso território pra receber um atendimento mínimo. Disseram que não dava pra fazer lá, e levaram a população pra outro canto. Lá ofereceram só pequenas cirurgias, pouca coisa. Acho que estavam com nojo da gente", relata o coordenador, que também afirma que a ação não foi articulada com as lideranças da ocupação, e teria tido o objetivo de enfraquecer o movimento e desmobilizar os moradores.

“Fizeram um cadastro, prometeram cesta básica, limpeza da área com caçamba, um retorno pra dedetização. Nada foi cumprido. Não voltaram. Não deram resposta nem pra gente que está à frente da situação. Só mesmo a campanha de um sábado e mais nada. Queriam calar o povo”, completa.

Infestação e uso de remédios veterinários

A comuna, que existe há um ano e sete meses, é uma ocupação organizada por famílias sem teto, em torno da produção agroecológica e da luta pela terra. Ainda assim, não recebe nenhum tipo de assistência regular da Prefeitura de Extremoz. Crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade são os mais afetados pela infestação do parasita, e muitos moradores têm recorrido a remédios veterinários, como "espirro de onça" e pomadas para bicheira animal, como forma desesperada de tentar conter a infecção.

Sem dedetização, sem atendimento médico, sem saneamento básico e em moradias improvisadas — muitas delas em barracas sob calor extremo — a população resiste com o que tem. “Prometeram limpar os lixões. Como é uma comuna produtiva, não podemos colocar fogo nos resíduos, tem que haver coleta. Nem isso foi feito. Estamos aguardando até hoje”, relata Sérgio.

Abandono, silêncio e tática de invisibilização

A comunidade também afirma que, desde o início do surto, tem buscado contato direto com representantes da Prefeitura, inclusive com assessores da prefeita Jussara Sales (PSD), mas nada foi encaminhado de fato. Segundo os relatos, o único órgão a comparecer brevemente foi o CRAS, apenas para fazer um cadastro inicial, que não teve desdobramentos práticos.

"Até o povo do CRAS sumiu. Diziam que iam voltar. Nada foi feito na comuna. Nada mesmo", reforça Sérgio.

Diante da falta de resposta, os moradores veem a postura do poder público como uma estratégia para enfraquecer o movimento de luta por moradia. A remoção dos atendimentos para fora do território e a ausência de continuidade das promessas feitas são encaradas pela comunidade como táticas de esvaziamento simbólico e institucional da ocupação.

O que é bicho de pé e os riscos

O Tunga penetrans, popularmente conhecido como bicho de pé, é um parasita que penetra a pele humana, provocando coceira intensa, inflamações, dor e lesões. Quando não tratado, pode gerar infecções secundárias, dificuldade de locomoção, risco de tétano e infecções generalizadas, especialmente em pessoas com saúde fragilizada.

A infestação está associada a condições de extrema pobreza, solo seco, falta de calçado e ausência de saneamento básico, como é o caso da Comuna Maria de Fátima.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Extremoz solicitando esclarecimentos sobre a ausência de continuidade das ações prometidas, mas novamente não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

 

O falso escândalo contra Fátima: quando faltam argumentos

7 de junho de 2026
4min
O falso escândalo contra Fátima: quando faltam argumentos
Pingo da Mei Dia, em Mossoró | Foto: Joana Lima
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Há algo de profundamente empobrecedor na forma como parte da oposição à governadora Fátima Bezerra tem escolhido fazer política no Rio Grande do Norte. Não se trata de divergências programáticas, de debates sobre modelos de desenvolvimento ou de confrontos legítimos em torno de prioridades administrativas. Trata-se, cada vez mais, da tentativa de reduzir a disputa política à intriga, ao factoide e à desqualificação pessoal.

O episódio ocorrido durante o Pingo da Mei Dia, em Mossoró, é ilustrativo. Enquanto o Governo do Estado mobilizava uma das maiores operações de segurança pública da história do Mossoró Cidade Junina, com quase sete mil agentes das diversas forças de segurança, investimento de R$ 2,4 milhões, reforço no atendimento às mulheres, ampliação dos plantões da Polícia Civil, atuação da Patrulha Maria da Penha e uma série de ações concretas para garantir a tranquilidade do evento, parte do debate público foi desviada para uma acusação de suposta “invasão” de camarote por integrantes da equipe da governadora.

A resposta oficial foi clara: não houve invasão. Houve uma passagem autorizada para que a equipe chegasse ao local onde a governadora era aguardada por profissionais da imprensa para entrevistas previamente agendadas. Mas, mesmo diante do esclarecimento, a polêmica artificial já havia cumprido seu papel: deslocar a atenção dos fatos para o ruído.

E aqui está o problema central.

Quando a política abandona o terreno das realizações e passa a operar exclusivamente na lógica da escaramuça permanente, perde a democracia. Perde o debate público. Perde a população.

É legítimo criticar qualquer governo. É necessário. A crítica é parte essencial da vida democrática. O que não fortalece a democracia é a substituição da crítica pela fabricação de narrativas destinadas apenas a produzir desgaste político.

O mais curioso é que esse tipo de comportamento costuma aparecer justamente quando os fatos se mostram mais difíceis de contestar. Afinal, como transformar em escândalo a mobilização de milhares de agentes de segurança para proteger uma festa popular? Como atacar a criação de um plantão especializado para atendimento às mulheres? Como desqualificar investimentos em estrutura policial, em prevenção à violência e em políticas públicas que impactam diretamente a vida das pessoas?

Quando não se consegue disputar os resultados, disputa-se a versão dos acontecimentos.

No caso de Fátima Bezerra, há ainda um componente que não pode ser ignorado. Ao longo de décadas de vida pública, a governadora foi alvo de ataques que frequentemente ultrapassaram os limites da divergência política. Não é coincidência que uma das mulheres que alcançou o mais alto posto da política potiguar tenha sido submetida, repetidas vezes, a um escrutínio mais agressivo, mais personalista e mais carregado de hostilidade do que aquele normalmente direcionado a muitos homens que ocuparam posições semelhantes.

Isso não significa que toda crítica seja machista. Seria uma simplificação tão inadequada quanto qualquer outra. Significa apenas reconhecer que existe uma longa tradição de tratamento desigual às mulheres na política brasileira e que esse contexto não desaparece quando uma mulher chega ao governo.

Por isso, episódios como o de Mossoró merecem reflexão. Não porque representem uma grande crise institucional. Ao contrário. Merecem reflexão justamente por sua pequenez.

Enquanto uma governadora percorre um evento popular sendo recebida pela população, anuncia investimentos, entrega resultados e apresenta ações concretas do Estado, parte dos seus adversários parece concentrada em transformar deslocamentos de equipe em escândalos e rotinas administrativas em teorias conspiratórias.

O Rio Grande do Norte enfrenta desafios reais demais para que sua política seja reduzida a isso.

A população tem o direito de exigir debates sobre segurança, educação, saúde, emprego, desenvolvimento regional, infraestrutura e combate às desigualdades. Tem o direito de cobrar resultados e de avaliar governos com rigor.

Mas também tem o direito de esperar um mínimo de seriedade de quem pretende fazer oposição.

Porque oposição não é sinônimo de hostilidade permanente. Oposição não é fabricação de factoides. Oposição não é transformar qualquer gesto em escândalo.

Oposição, numa democracia madura, é apresentar alternativas.

E talvez seja exatamente essa ausência de alternativas que explique por que, tantas vezes, a política acaba sendo substituída pela intriga.