sábado, 4 de julho de 2026

 

Depois de séculos olhando para o céu, o sertão potiguar vê a água chegar pelo chão

3 de julho de 2026
7min
Depois de séculos olhando para o céu, o sertão potiguar vê a água chegar pelo chão
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Por décadas, a esperança do sertanejo chegava com as primeiras nuvens carregadas no horizonte. Agora, ela veio por outro caminho: correu pelos canais do Ramal do Apodi e cruzou a divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Pela primeira vez, as águas da transposição do Rio São Francisco entraram oficialmente em território potiguar, transformando uma obra de engenharia em um acontecimento histórico para uma região que aprendeu a conviver com a seca.

A chegada das águas foi acompanhada nesta sexta-feira (3) pela governadora Fátima Bezerra em Major Sales, no Alto Oeste, apenas um dia após a inauguração do Túnel Major Sales pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se a cerimônia da quinta-feira marcou a entrega de uma das principais estruturas do Ramal do Apodi, a sexta-feira simbolizou aquilo que a população aguardava havia gerações: ver a água correr.

Ao som da sanfona e apresentação do grupo Os Caboclos de Major Sales, os moradores acompanharam a passagem das águas pelo canal. Muitos cresceram vendo açudes secarem, convivendo com o abastecimento irregular e dependendo de carros-pipa para garantir o consumo humano. A cena despertou emoção entre famílias que enxergam na transposição a possibilidade de um futuro diferente para o sertão.

“Isso aqui representa desenvolvimento para o nosso povo. Mas eu enfatizaria que é, sobretudo, uma reparação do ponto de vista histórico pelo que significa o projeto da transposição das águas do São Francisco para o semiárido nordestino. É uma passagem. As águas saem da Paraíba, depois de terem passado por Pernambuco e pelo Ceará, e agora adentram o Rio Grande do Norte, deixando para trás um passado de escassez, da seca braba, e trazendo para o sertão esperança e dignidade. Dignidade porque água é vida. É água para beber e para promover o desenvolvimento.”

Emocionada, a governadora relacionou a chegada da água à própria experiência de quem cresceu convivendo com a seca.

“Para uma geração de nordestinos como eu, que conheceu a seca de perto, ver hoje as águas do São Francisco adentrando o nosso estado é uma felicidade imensa. Renova a nossa esperança de seguir construindo um Rio Grande do Norte e um Nordeste cada vez mais fortes, sustentáveis, inclusivos, prósperos e justos.”

Fátima destacou que a chegada das águas completa um ciclo iniciado com outro eixo da transposição e passa a integrar todas as regiões do estado ao sistema de segurança hídrica.

“Este é um momento emblemático porque estamos falando do Eixo Norte, do projeto de integração das águas do São Francisco. A primeira etapa contemplou a bacia do Piranhas-Açu. Agora, com a integração da bacia Apodi-Mossoró, o Rio Grande do Norte passa a ser contemplado como um todo. Todas as regiões e todos os municípios do estado passam a fazer parte desse grande projeto de segurança hídrica.”

A governadora também relembrou sua atuação política desde o início da transposição e atribuiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a decisão de transformar um projeto histórico em realidade.

“Acompanhei essa luta desde o início, quando era deputada federal, em 2007. O presidente Lula teve coragem política e sensibilidade humana para enfrentar um desafio enorme e tirar esse projeto do papel. A presidenta Dilma deu continuidade à obra mesmo enfrentando todas as dificuldades do segundo mandato, garantindo os recursos necessários para que ela não fosse abandonada.”

Ela recordou ainda o período em que presidiu a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado, destacando a mobilização para garantir a retomada das obras após paralisações.

“Em 2015 e 2016, quando presidi a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado, a segurança hídrica do Nordeste foi a principal pauta. Mobilizamos o Parlamento, movimentos sociais, setores produtivos e a sociedade para defender a retomada das obras, que chegaram a ser paralisadas por decisão judicial.”

Para Fátima, a conclusão da transposição só foi possível com a retomada do projeto pelo terceiro governo Lula.

“Os governos Lula e Dilma deixaram a obra praticamente concluída. Depois vieram outros governos, e todos acompanharam o que aconteceu. Quando Lula voltou à Presidência, eu dizia a ele que o destino e a vontade do povo fizeram com que retornasse também para concluir essa obra. A transposição foi incluída entre as prioridades do novo PAC e hoje aquilo que parecia um sonho impossível tornou-se realidade: as águas do Velho Chico beneficiando o semiárido do Rio Grande do Norte.”

A água chega antes da conclusão da obra

Embora o Ramal do Apodi ainda tenha etapas a serem concluídas para operar plenamente, a entrada da água no território potiguar representa um dos momentos mais emblemáticos de toda a execução da transposição. É quando uma infraestrutura construída ao longo de anos deixa de ser apenas concreto, canais e túneis para cumprir sua finalidade.

Quando estiver totalmente concluído, o ramal deverá beneficiar aproximadamente 750 mil pessoas em 54 municípios do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, ampliando a segurança hídrica para abastecimento humano e atividades produtivas.

Especialistas apontam que a chegada das águas tende a reduzir a vulnerabilidade dos municípios às estiagens prolongadas, fortalecer a agricultura familiar, ampliar a oferta de água para consumo e criar condições para novos investimentos econômicos na região.

Uma espera que atravessou gerações

A história da transposição do São Francisco atravessou governos, mudanças de projeto, paralisações e disputas políticas. No sertão, porém, ela sempre foi medida de outra forma: pelo tempo da espera.

Para quem vive no semiárido, a chegada da água carrega um significado que vai além da infraestrutura. Ela representa a possibilidade de romper um ciclo histórico de escassez que marcou a vida de sucessivas gerações de nordestinos.

Ainda serão necessários novos trechos, testes e etapas operacionais até que toda a estrutura esteja em funcionamento. Mas, para os moradores que acompanharam a água cruzar a fronteira do Rio Grande do Norte nesta sexta-feira, a história já começou a mudar.

Depois de séculos esperando pela chuva, o sertão viu a esperança chegar correndo pelos canais.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

 

Lideranças denunciam intolerância religiosa após fala de vereador na Câmara de Natal

24 de junho de 2026
4min
Lideranças denunciam intolerância religiosa após fala de vereador na Câmara de Natal
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Uma fala do vereador Subtenente Eliabe (PL) durante sessão da Câmara Municipal de Natal provocou reação de lideranças religiosas, movimentos sociais e parlamentares ligados à defesa da liberdade religiosa. O episódio, ocorrido no último dia 11, é apontado por representantes dos povos tradicionais de matriz africana como um caso de intolerância religiosa e racismo religioso.

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Durante discurso no plenário, ao criticar setores da oposição, o parlamentar mencionou entidades cultuadas em religiões afro-brasileiras. “Essa turma que pede as divindades aí, até o Exu Caveira, Zé Pilintra, o que eles entendem aí, para que a coisa dê errada”, afirmou. A declaração repercutiu entre praticantes de Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada, que consideraram a associação ofensiva e discriminatória.

Babá Cláudio Oliveira, sacerdote de Candomblé, responsável pela Ilê Axé Olorum Malê, na Zona Norte de Natal, e representante da Federação de Umbanda, Candomblé e Jurema do Rio Grande do Norte (Fejuc-RN), afirma que a fala reforça preconceitos historicamente direcionados às religiões de matriz africana. Segundo ele, a comunidade foi surpreendida pela circulação do vídeo nas redes sociais e decidiu reagir de forma organizada.

“Durante todos esses anos, nunca teve uma fala tão pesada e tão racista quanto foi agora do vereador Eliabe”, afirmou. “Foi uma fala extremamente racista e preconceituosa, onde nós, povos tradicionais de matriz africana, ficamos extremamente revoltados.”

De acordo com Babá Cláudio, lideranças religiosas, entidades representativas e integrantes do movimento negro elaboraram uma carta aberta à sociedade e iniciaram uma série de medidas para cobrar responsabilização pelo ocorrido. O grupo registrou um boletim de ocorrência e prepara uma representação junto ao Ministério Público.

“Ele precisa aprender que liberdade de expressão não dá o direito de ser racista e colocar aquilo que vem à cabeça”, declarou em entrevista à Agência Saiba Mais. “A intolerância e o preconceito dão voz ao racista e ao discriminador. Por isso entendemos que esse episódio não pode passar sem resposta.”

Para o líder religioso, a controvérsia vai além de uma divergência política e evidencia um problema estrutural enfrentado por comunidades tradicionais de matriz africana. Segundo ele, ataques dessa natureza atingem não apenas a dimensão religiosa, mas também aspectos raciais e culturais historicamente associados às populações negras e indígenas.

“Nós sofremos diariamente perseguição pelo fato de sermos povos tradicionais de matriz africana. Nunca foi só uma questão religiosa. É uma tradição de negro, de preto e de indígena, e a gente não aceita esse tipo de postura”, disse. “É criminoso e nós iremos tomar as providências cabais para que atos como esse não se repitam.”

O caso também repercutiu entre parlamentares. A deputada estadual Divaneide Basílio informou ter recebido a denúncia das mãos de Babá Cláudio e defendeu a apuração do episódio. Em publicação nas redes sociais, afirmou que “racismo e intolerância religiosa não são liberdade de expressão” e classificou o caso como grave.

A vereadora Brisa Bracchi também se manifestou. Segundo ela, discursos dessa natureza não podem ser normalizados em espaços institucionais. “É inadmissível que um parlamentar ainda tenha esse tipo de fala em qualquer plenário que seja sem sofrer as devidas consequências”, escreveu.

A Constituição Federal garante a liberdade de consciência e de crença e assegura o livre exercício dos cultos religiosos. Além disso, a Lei nº 7.716/1989 estabelece punições para práticas de discriminação ou preconceito motivadas por religião. Nos últimos anos, o debate sobre racismo religioso tem ganhado destaque no país, especialmente em casos envolvendo ataques a religiões de matriz africana.

Os representantes dos povos de terreiro afirmam que continuarão acompanhando o caso e cobrando providências dos órgãos competentes.

A equipe de reportagem não obteve resposta da equipe do vereador até o fechamento dessa matéria.

 

Após "ação simbólica", moradores de Comuna seguem em surto de bicho de pé

13 de junho de 2025
6min
Após
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Moradores da Comuna Produtiva Maria de Fátima, no bairro Malvinas, em Extremoz (RN), denunciam que a situação de infestação por bicho de pé, abandono institucional e insegurança alimentar continua sem qualquer resolução efetiva. Mesmo após uma ação realizada pela Prefeitura no último dia 17 de maio, que, segundo relatos da coordenação local, teve caráter paliativo e ocorreu fora do território da ocupação, o cenário segue de desassistência total, com agravamento dos problemas sanitários e sociais.

“A realidade do povo é agora. É de agora, não é do dia 17”, destaca Sérgio Luiz, militante do MST e integrante da coordenação da comuna. Ele contesta o uso político das imagens feitas naquele dia pela gestão municipal: “Aquelas fotos bonitas foram feitas só pra dizer que fizeram alguma coisa. Apareceram só pra tirar foto. Depois sumiram”.

Ação limitada e fora do território

A única ação promovida pela Prefeitura ocorreu na comunidade Alto da Bela Vista, localizada a cerca de um quilômetro da comuna. De acordo com Sérgio, a justificativa repassada informalmente a alguns moradores foi de que não era possível realizar a atividade dentro da Comuna Maria de Fátima por se tratar de área não desapropriada e por não haver piso adequado para montagem de estruturas móveis.

A ação "Aqui Tem Cuidado" foi promovida pela Secretaria Municipal de Extremoz no último dia 17 de maio. Foto: Cedida

"Fizeram a gente sair do nosso território pra receber um atendimento mínimo. Disseram que não dava pra fazer lá, e levaram a população pra outro canto. Lá ofereceram só pequenas cirurgias, pouca coisa. Acho que estavam com nojo da gente", relata o coordenador, que também afirma que a ação não foi articulada com as lideranças da ocupação, e teria tido o objetivo de enfraquecer o movimento e desmobilizar os moradores.

“Fizeram um cadastro, prometeram cesta básica, limpeza da área com caçamba, um retorno pra dedetização. Nada foi cumprido. Não voltaram. Não deram resposta nem pra gente que está à frente da situação. Só mesmo a campanha de um sábado e mais nada. Queriam calar o povo”, completa.

Infestação e uso de remédios veterinários

A comuna, que existe há um ano e sete meses, é uma ocupação organizada por famílias sem teto, em torno da produção agroecológica e da luta pela terra. Ainda assim, não recebe nenhum tipo de assistência regular da Prefeitura de Extremoz. Crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade são os mais afetados pela infestação do parasita, e muitos moradores têm recorrido a remédios veterinários, como "espirro de onça" e pomadas para bicheira animal, como forma desesperada de tentar conter a infecção.

Sem dedetização, sem atendimento médico, sem saneamento básico e em moradias improvisadas — muitas delas em barracas sob calor extremo — a população resiste com o que tem. “Prometeram limpar os lixões. Como é uma comuna produtiva, não podemos colocar fogo nos resíduos, tem que haver coleta. Nem isso foi feito. Estamos aguardando até hoje”, relata Sérgio.

Abandono, silêncio e tática de invisibilização

A comunidade também afirma que, desde o início do surto, tem buscado contato direto com representantes da Prefeitura, inclusive com assessores da prefeita Jussara Sales (PSD), mas nada foi encaminhado de fato. Segundo os relatos, o único órgão a comparecer brevemente foi o CRAS, apenas para fazer um cadastro inicial, que não teve desdobramentos práticos.

"Até o povo do CRAS sumiu. Diziam que iam voltar. Nada foi feito na comuna. Nada mesmo", reforça Sérgio.

Diante da falta de resposta, os moradores veem a postura do poder público como uma estratégia para enfraquecer o movimento de luta por moradia. A remoção dos atendimentos para fora do território e a ausência de continuidade das promessas feitas são encaradas pela comunidade como táticas de esvaziamento simbólico e institucional da ocupação.

O que é bicho de pé e os riscos

O Tunga penetrans, popularmente conhecido como bicho de pé, é um parasita que penetra a pele humana, provocando coceira intensa, inflamações, dor e lesões. Quando não tratado, pode gerar infecções secundárias, dificuldade de locomoção, risco de tétano e infecções generalizadas, especialmente em pessoas com saúde fragilizada.

A infestação está associada a condições de extrema pobreza, solo seco, falta de calçado e ausência de saneamento básico, como é o caso da Comuna Maria de Fátima.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Extremoz solicitando esclarecimentos sobre a ausência de continuidade das ações prometidas, mas novamente não obteve retorno até o fechamento desta matéria.