Notícias do Sertão
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
As descobertas globais de petróleo estão muito aquém do consumo
As descobertas convencionais anuais caíram de mais de 20 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) no início da década de 2010 para cerca de 8 bilhões de boe desde 2020.

Mesmo com a produção mundial de petróleo a todo vapor, o consumo está superando em muito as novas descobertas. De acordo com a consultoria norueguesa de energia Rystad Energy, os volumes anuais de descobertas convencionais atingiram uma média de mais de 20 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) por ano no início da década de 2010; no entanto, desde 2020, a média caiu para pouco mais de 8 bilhões de boe por ano.
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De fato, as descobertas globais de petróleo caíram drasticamente na última década. Segundo a Rystad Energy, o volume anual de descobertas convencionais atingiu uma média de mais de 20 bilhões de barris de óleo equivalente por ano no início da década de 2010, mas declinou para pouco mais de 8 bilhões de boe anualmente desde 2020, apesar das descobertas promissoras em áreas de fronteira na Guiana, Suriname e Namíbia. A Rystad observa ainda que a média cai para cerca de 5,5 bilhões de boe quando se consideram as descobertas entre 2023 e o final de 2024, evidenciando o quão modesto se tornou o sucesso da exploração, mesmo com o consumo global de petróleo permanecendo próximo a níveis recordes.
Em uma análise separada, a Rystad demonstrou que as descobertas convencionais recentes substituíram bem menos de um terço da produção anual de petróleo de forma sustentada, evidenciando uma lacuna crescente que precisa ser preenchida cada vez mais por meio de recursos não convencionais, recuperação aprimorada de campos maduros ou níveis mais elevados de investimento a longo prazo.
Os investimentos em exploração mineral foram drasticamente reduzidos após meados da década de 2010, caindo para cerca de US$ 50 bilhões a US$ 60 bilhões em 2025, uma queda significativa em relação ao pico de US$ 115 bilhões em 2013. Isso representa uma mera fração do orçamento anual de US$ 500 a 540 bilhões necessário para evitar a escassez de oferta e atender à demanda futura.
Segundo a Rystad, o declínio também pode ser atribuído a uma mudança estratégica, na qual o mapa global de exploração das empresas de E&P não é mais definido apenas pela extensão territorial, com as empresas empregando precisão estratégica. Tanto as empresas petrolíferas nacionais (NPCs) quanto as grandes petrolíferas estão cada vez mais focadas em bacias de alto impacto, incluindo a bacia de águas profundas do Suriname, a Bacia Orange da Namíbia e a bacia do pré-sal do Brasil, bem como em explorações em campos próximos com infraestrutura robusta, enquanto se desfazem de regiões maduras e de baixo retorno. Essas campanhas de exploração modernas priorizam conexões próximas e de menor custo, melhores dados de subsuperfície, infraestrutura existente e ferramentas digitais para gerenciar riscos e melhorar os retornos.
Fonte: Rystad Energy
Essa concentração de descobertas em um punhado de países ou em pontos específicos – Namíbia, Guiana, Brasil e Suriname, entre outros – evidencia a localização geográfica cada vez mais restrita do sucesso na exploração e a propensão ao risco das empresas globais de E&P (Exploração e Produção). Os países em desenvolvimento veem isso como uma oportunidade para atrair investimentos estrangeiros por meio de condições fiscais favoráveis, visando gerar receita e construir segurança energética. Ao mesmo tempo, a avaliação contínua de áreas pouco exploradas, como águas ultraprofundas ou armadilhas estratigráficas inexploradas, oferece aos países produtores consolidados opções para crescimento a longo prazo e uma maneira de estancar o declínio da produção.
A descoberta do campo de Tupi (atual Lula) em 2006 pela Petrobrás e seus parceiros na Bacia de Santos, no Brasil, revolucionou a indústria petrolífera ao revelar reservas gigantescas no pré-sal. Localizado sob quase 2.000 metros de água e outros 2.000 metros de sal, essa descoberta gigantesca exigiu tecnologia sísmica avançada para gerar imagens abaixo do sal, comprovando que camadas geológicas antes consideradas "impenetráveis" poderiam ser acessadas. O campo possui recursos recuperáveis estimados entre 5 e 8 bilhões de barris de óleo equivalente. As reservas estão localizadas a aproximadamente 7.000 metros abaixo da superfície do oceano, o que exigiu técnicas de perfuração inovadoras e especializadas para navegar pela camada de sal. A descoberta foi uma "aposta calculada" que se baseou fortemente no PROCAP (Programa de Capacitação Tecnológica da Petrobrás em Águas Profundas) para o desenvolvimento de técnicas para profundidades extremas. Extensos programas sísmicos 3D foram utilizados para gerar imagens do subsolo através de mais de 2.000 metros de sal, fornecendo as informações geológicas detalhadas necessárias para mapear a estrutura do pré-sal. A modelagem e visualização geocelular 3D foram utilizadas para analisar a estrutura e definir o reservatório potencial, auxiliando na identificação da feição de "alto externo" na Bacia de Santos, onde Tupi estava localizado. A perfilagem por ressonância magnética nuclear (RMN) foi empregada para medir com precisão a porosidade e diferenciar entre óleo e água, particularmente em rochas carbonáticas complexas.
A segunda fronteira surgiu na Guiana e no Suriname, onde a ExxonMobil fez a descoberta do poço Liza-1 em 2015, que encontrou mais de 90 metros de reservatórios de arenito de alta qualidade e ricos em petróleo, a 1.743 metros de profundidade. Antes disso, a região era considerada uma fronteira, com um histórico de mais de 40 poços secos na bacia, tornando a descoberta de 2015 um sucesso dramático e revolucionário. A Exxon empregou tecnologias avançadas, proprietárias e de alta resolução para mapeamento, projetadas para mapear estruturas geológicas complexas no subsolo, em grandes profundidades. A Inversão de Campo de Ondas Completo (FWI, na sigla em inglês), uma técnica de mapeamento sísmico de alta resolução usada para analisar dados sísmicos, ajudou os geocientistas a "enxergar" e diferenciar as propriedades das rochas com alta precisão para identificar reservatórios. A computação de alto desempenho foi usada para processar grandes e complexos conjuntos de dados, permitindo uma tomada de decisão mais rápida e precisa na fase de exploração.
A terceira e mais recente fronteira tem se desdobrado na Bacia de Orange, na Namíbia, onde a Shell, a TotalEnergies e a Galp Energia abriram uma das províncias petrolíferas mais promissoras dos últimos anos. A aquisição e o processamento sísmico 3D foram cruciais para a obtenção de imagens de estruturas subterrâneas profundas e a identificação de potenciais armadilhas. Grandes plataformas semis submersíveis de alta capacidade e navios-sonda, como o Deepsea Bollsta, o Deepsea Mira e o Noble Venturer, foram empregados para perfurar as águas profundas, em ambientes de alta pressão e alta temperatura. Técnicas geoquímicas avançadas, como cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS) e análise quantitativa de diamantóides (QDA), foram utilizadas para analisar a rocha geradora e a composição do petróleo. Entretanto, a intensa perfilagem geofísica, incluindo a extração de testemunhos laterais e testes de formação, foi crucial para confirmar a porosidade, a permeabilidade e as propriedades dos fluidos do reservatório (por exemplo, óleo com 37° API).
Fonte(s) / Referência(s):
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Adhemar Mineiro
Acordo Mercosul-União Europeia: nada a comemorar
Uma verdadeira parceria entre Mercosul e União Europeia deveria ser repensada desde suas bases, priorizando a defesa da paz mundial, do multilateralismo, a integração solidária entre povos e países, a sustentabilidade ambiental e a cooperação para o desenvolvimento.
Para os que gostam do acordo, vale lembrar que uma vez assinado, o acordo ainda tem que ser aprovado pelos parlamentos. E aí começa um pouco a complicação. O “acordo” na realidade são três acordos, pois tem o pomposo nome de “Acordo de Associação Mercosul-União Europeia”, e na sua composição envolve três pilares: um acordo de livre-comércio, um acordo de diálogo político e, finalmente, um acordo de cooperação.
O primeiro, o acordo comercial, para ser validado precisa da aprovação do Parlamento Europeu e do parlamento de cada um dos países que compõem o Mercosul – pelo negociado, caso o Parlamento Europeu aprove, o acordo comercial passa a valer individualmente com cada país do Mercosul assim que o seu parlamento nacional aprovar (ou seja, pode começar a valer para um país do Mercosul, independentemente da aprovação nos demais, desde que seu parlamento nacional o aprove).
Para os capítulos de diálogo político e cooperação, a validação é mais complicada porque depende ainda da aprovação de cada parlamento individual dos países que compõem a União Europeia (ou seja, esses capítulos têm que ser aprovados em 27 parlamentos nacionais do lado europeu). Assim, mesmo para a parte comercial, o acordo assinado ainda não está valendo. E ainda tem uma ação a ser avaliada pelo Tribunal Europeu sobre se mesmo o acordo comercial não teria que ser avaliado pelos 27 parlamentos nacionais, o que pode demorar meses.
Mas vale observar que o conteúdo do acordo comercial é o que se chamaria de um acordo “colonial”, ou “neocolonial”: os países do Mercosul se especializam em exportar bens primários ou semimanufaturados (agrícolas, minerais e energéticos), enquanto os países da União Europeia se especializam em fornecer bens manufaturados aos países do Mercosul.
Os acordos de livre-comércio, com seu modelo baseado nas regras da Organização Mundial do Comércio, tendem a cristalizar as chamadas “vantagens comparativas estáticas” dos países no momento em que são assinados. Assim, os países do Mercosul estariam condenados a se especializar em bens primários, enquanto a União Europeia obteria mais mercados para seus bens industriais – tudo o que foi criticado com a criação da CEPAL no fim dos anos 1940, há cerca de oitenta anos, a partir das formulações de Raúl Prebisch, Celso Furtado, e outros pensadores pilares de um pensamento econômico latino-americano.
Além disso, os países do Mercosul dão aos europeus vantagens adicionais nas áreas de exportação de serviços, compras públicas e propriedade intelectual, entre outros aspectos. Em um momento do mundo em que, frente aos “tarifaços” de Trump, todos buscam preservar ao máximo as defesas de seus espaços comerciais nacionais, em especial na área de bens industriais, o Mercosul baixa suas defesas. Na contramão da reindustrialização advogada pelo governo brasileiro atual, a opção concreta é pela chamada política do “Fazendão”, da primarização cada vez maior da economia, agradando aos exportadores, em especial de minérios e energia (petróleo, gás, etanol e outros) e, talvez, ao agronegócio (existe a dúvida porque, na reta final para o fechamento do acordo, os europeus colocaram tantas restrições na defesa de seus produtores agrícolas domésticos, que vamos ter que ver na prática como o acordo funciona para esses setores).
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Obviamente que, estando o conteúdo comercial do acordo na contramão do discurso pró-reindustrialização do governo Lula, o governo se armou de novos argumentos na defesa do acordo. Um deles, bastante sensato aparentemente, foi que, com a posse do presidente estadunidense Donald Trump e suas ameaças ao multilateralismo tão importante para o Brasil, era importante criar sinais internacionais que reforçassem o que era atacado por Trump, buscando reforçar a institucionalidade internacional através de novas parcerias. E, ao contrário de parcerias como o BRICS, acusado por muitos de ser um instrumento geopolítico chinês, uma aproximação com a União Europeia soaria mais confortável para os que advogam que o Brasil não deve abrir não de sua proximidade com o chamado “mundo ocidental”. Entretanto, vale observar que, como dito anteriormente, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia tem três pilares. Se era para dar uma sinalização de reforço do multilateralismo ao mundo, por que não priorizar o capítulo de diálogo político, ao invés do capítulo comercial? Esse sim, sinalizaria fortemente a proximidade política dos parceiros, e poderia acrescentar, inclusive, novos pontos de reforço à estrutura multilateral internacional.
Outro ponto levantado por setores do governo brasileiro na defesa do acordo foi que ele joga no sentido da manutenção da Argentina no Mercosul, em um momento em que a ruptura da Argentina com o bloco várias vezes foi levantada pelo governo Milei. De fato, o pacto estruturante do bloco é a integração entre Brasil e a Argentina, e o Mercosul, sem a Argentina, na prática deixa de existir. Porém, o custo de manter a Argentina no bloco não pode ser o de se render às vontades do presidente argentino, e muito menos à sua estratégia econômica primário-exportadora. O Mercosul foi criado para permitir uma outra estratégia de desenvolvimento que passasse pela integração regional, e não por reforçar uma estratégia de desenvolvimento primário-exportadora nos países do bloco, onde aliás todos são competidores na venda de vários produtos (como soja e carne, entre outros). Se o custo da manutenção do Mercosul é a rendição a uma estratégia de desenvolvimento primário-exportadora, caberia uma questão: foi para isso que se criou e impulsionou o Mercosul?
Não, de fato não há o que comemorar nessa sinalização de que o funcionamento do acordo comercial entre os países do Mercosul e a União Europeia está próximo de começar (e seria bom, embora difícil de crer, que o Congresso Nacional brasileiro rejeite esse acordo neocolonial).
O Acordo Mercosul-União Europeia, cujas negociações se arrastaram por mais de vinte e cinco anos, reflete um contexto histórico marcado pelo auge do neoliberalismo e da globalização, hoje profundamente alterado. Desde a crise financeira de 2007/2008, passando pelo retorno explícito do protecionismo, pelo agravamento da crise ambiental, pelos impactos da pandemia, pela guerra na Ucrânia e pelas aceleradas transformações tecnológicas, o cenário internacional mudou de forma estrutural. E, mais ainda, com o atual governo estadunidense de Trump. Persistir em bases negociadoras concebidas naquele período ignora essas mudanças e compromete a capacidade dos países do Mercosul de formular estratégias de desenvolvimento compatíveis com os desafios atuais.
O acordo foi fechado inicialmente em 2019, sob governos alinhados a agendas liberalizantes (Bolsonaro no Brasil, Macri na Argentina), e consolida uma lógica na qual, como foi dito, o Mercosul se especializa na exportação de bens primários e extrativistas, enquanto importa produtos manufaturados de alto valor agregado da Europa. Tal desenho aprofunda a dependência econômica, fragiliza a estrutura produtiva regional e intensifica a crise socioambiental, ao estimular a mineração predatória, a grande agricultura exportadora e formas de industrialização de baixo valor agregado sustentadas pela desregulamentação trabalhista e ambiental.
Além disso, o acordo impõe severas restrições ao espaço de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento industrial, à inovação e ao fortalecimento da agricultura familiar. As tentativas a partir de 2023 de introdução de cláusulas de “redução de danos”, especialmente na área de compras públicas, não alterou a essência de um tratado que limita alternativas de desenvolvimento soberano e sustentável.
Uma verdadeira parceria entre Mercosul e União Europeia deveria ser repensada desde suas bases, priorizando a defesa da paz mundial, do multilateralismo, a integração solidária entre povos e países, a sustentabilidade ambiental e a cooperação para o desenvolvimento. O conteúdo do acordo agora assinado, desenhado nos anos 1990, e inicialmente fechado em 2019, renegociado para “redução de danos” entre 2023 e 2025, e finalmente novamente concluído em fins de 2025, não oferece fundamentos adequados para esse objetivo e, portanto, deveria ter sido superado. O mundo da terceira década do Século XXI exigiria novas negociações e um novo acordo entre o Mercosul e a União Europeia, à altura dos desafios da economia e da geopolítica atuais. E o que foi fechado agora pouco contribui nesse sentido, infelizmente.
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