quinta-feira, 5 de novembro de 2026

 

A desinformação da extrema direita sobre queimadas

Durante a campanha eleitoral do segundo turno, duas proeminentes vozes da extrema direita, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), difundiram deliberadamente desinformação sobre os incêndios florestais na Amazônia. 


Enquanto a população de Manaus sofria com a má qualidade do ar, que levou ao cancelamento de aulas em escolas e universidades, os dois políticos, acompanhados por influenciadores bolsonaristas, produziram vídeos com informações falsas em busca de ganhos eleitorais para Flávio Bolsonaro.

Talvez bebendo na experiência do vídeo fabricado no Nordeste por Nikolas, o governador de São Paulo entrou no campo da produção fraudulenta de conteúdo. Acusou o governo federal de negar apoio ao governo do Amazonas no combate aos incêndios, o que foi desmentido pela administração estadual. E até o que se pretendia real – o envio de bombeiros paulistas para apoiar o combate às chamas – se revelou uma farsa.


De maneira a confundir as audiências das redes sociais, os vídeos da extrema direita tratavam queimadas e desmatamento como a mesma coisa. A questão que levantavam era: como poderia o Ministério do Meio Ambiente apresentar dados com as taxas de desmatamento mais baixas da história se estávamos vendo enormes nuvens de fumaça saindo da floresta? O objetivo era questionar a efetividade da política e combate ao desmatamento do governo Lula.

“A desinformação de Nikolas e Tarcísio veio à tona porque as queimadas no Amazonas não indicam que o desmatamento está fora do controle. É exatamente o contrário. Nos últimos anos, as tendências são inversas: queimadas em alta e desmatamento em baixa. Se olharmos a taxa de desmatamento na Amazônia de 2024, vemos que ela foi reduzida mesmo sendo um ano de queimadas recordes.

Aquele ano, como este, foi afetado pelo El Niño, fenômeno climático que causa mais seca na região Norte. É provável que neste final de ano grandes incêndios ocorram sem que represente mais desmatamento. Isto é especialmente verdade no momento em que a seca na Amazônia se acentua a cada dia. 
  

Uma informação bastante preocupante divulgada pelo Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia, iniciativa da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), indicou que, em setembro de 2026, as chuvas nas bacias dos principais rios amazônicos ficaram 69% abaixo da média histórica. 


Temos sim um grave problema com as queimadas na floresta, sejam elas causadas pela situação climática ou pelos criminosos ambientais. Há um impacto na saúde da população e muitas cidades da Amazônia e do Cerrado devem ser afetadas ainda este ano. Mas há também o fato de que, com mais queimadas, a mudança climática está sendo exacerbada. Mais biomassa em chamas significa mais emissões de carbono. 


Círculo vicioso


A bióloga Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, estuda há anos a situação das queimadas na Floresta Nacional do Tapajós, onde agora também os focos de calor começaram a aparecer. Ela tem demonstrado através de suas pesquisas que, com o aumento da frequência dos eventos extremos climáticos, a floresta se torna cada vez mais suscetível ao fogo. É um círculo vicioso: com mais calor, mais vulnerável se torna a Amazônia. 


Em um vídeo publicado no Linkedin, Berenger explicou muito bem a diferença do que se considera o desmatamento a corte raso, aquele feito para abrir clareiras em meio à floresta, e as queimadas que atingem a vegetação por baixo das copas ou usadas para a limpeza de pastagens. Seu recado é claro: sem enfrentar as mudanças climáticas, o fogo será cada vez mais comum.  

Já as queimadas associadas a atividades ilegais de desmatamento e grilagem precisam ser investigadas, como no caso dos incêndios recentes do Amazonas. Não podemos esquecer que uma das séries de queimadas mais intensas, a de 2019, no primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, foi sim causada por um esforço coordenado e criminoso de desmatamento no período da seca. Assim, ao mesmo tempo em que as reduções de emissões de gases estufa terão que ocorrer, o combate ao crime ambiental deve seguir como prioridade. 

Outra questão que a ser colocada é que o combate às queimadas e a autorização para as queimas controladas, assim como o que ocorre com a segurança pública e os planos de manejo florestal, são responsabilidades dos estados. Existe, portanto, necessidade de coordenação entre os entes da federação e o governo federal não apenas para ajuda financeira, mas para a atuação do Prevfogo em casos mais graves ou quando unidades de conservação são atingidas.

Na verdade, o problema das queimadas exige uma integração muito grande não só de órgãos de governo. A questão envolve atores privados, organizações não governamentais e academia. Um dos exemplos mais inspiradores é a resposta que foi dada no Pantanal após as queimadas recordes de 2020. Surpreendidos pela violência do fogo naquele ano, proprietários rurais, ONGs, indígenas e governos se uniram para estabelecer protocolos comuns de combate a incêndios e sistemas de alerta antecipados.  

Assim como no Pantanal, a principal necessidade neste momento é investimento consistente em educação ambiental, equipes e ferramentas. Será preciso também um aporte muito maior em ciência e pesquisa aplicada para continuar a entender como as mudanças climáticas estão transformando fenômenos pontuais em catástrofes de grande escala. 



Um abraço,


Gustavo Faleiros

gustavo.faleiros@apublica.org

Colunista da Agência Pública

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 

Não dá pra rir do bolsonarismo

Houve uma enxurrada de memes, o jingle de baixo calão zoando Flávio Bolsonaro rodou o mundo, ganhou versões em espanhol, inglês, latim e hindu – mas engana-se quem aposta no bolsonarismo como página virada.


Apenas uma semana depois das trapalhadas de Flávio, seguem vivas e robustas as tentativas de tirar Jair da prisão domiciliar: por um lado, o STF deve julgar a lei da dosimetria já aprovada pelo Congresso, caso em que poderia passar ao regime semiaberto no início de 2028; por outro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tenta articular um indulto ou anistia para o ex-presidente em troca da sua reeleição. E ainda temos o ministro Nunes Marques, que deve liberar para julgamento os pedidos de Bolsonaro para anular ou revisar sua condenação, que este ministro considera exagerada. 


Soltar Jair seria, claro, a rota mais rápida para o bolsonarismo se rearranjar depois da fuga de Flávio para os EUA, onde preferiu aninhar-se próximo a André Ramagem e Paulo Figueiredo na Flórida em vez de ficar perto do irmão, que vive no Texas, a 2 mil quilômetros de distância. Mas há muitos outros caminhos. 


Em que pese Flávio Bolsonaro ser um líder medíocre e questionado pelo próprio PL – difícil, portanto, que consiga de fato “liderar” a oposição a partir do calor das praias da Flórida – o bolsonarismo, movimento político-cultural, segue vivo e buscando uma liderança que o sustente. Que está vivo na sociedade, é de uma clareza solar: basta ver as correntes que vêm pregando boicotes a empresas que declararam o voto a Lula, retaliações contra profissionais e empregado e o aumento da violência contra que indígenas (foram 7 assassinatos neste ciclo eleitoral, 11 ameaças de morte e 18 agressões físicas). Aumentou o fogo na Amazônia. Uma lista de judeus progressistas passou a circular entre a própria comunidade judaica, avisando que não se deve contratá-los ou fazer negócios com eles. 


Algo impensável se o desfecho fosse o oposto. 

      

Mas, além dos ânimos bolsonaristas que perseveram na sociedade, é importante lembrar que o bolsonarismo caminhou muito na sua internacionalização. Ao que tudo indica, Eduardo Bolsonaro conseguiu convencer o governo Trump de empregar agentes em solo Argentino para facilitar a fuga do irmão, algo que tem rendido críticas enormes dentro dos EUA pelos democratas. O que se sabe é que segundo o jornal Clarín, agentes dos Estados Unidos tomaram o controle de parte do aeroporto de Porto Iguaçu para ajudar na fuga e que pelo menos três aviões privados foram coordenados pelo Departamento de Estado para servirem como opções alternativas para garantir a chegada de Flávio até Miami.


Donald Trump, presidente da maior potência mundial, repetiu algumas vezes que as eleições brasileiras foram “muito estranhas” e que “pareceu mais uma eleição fraudada”. Disse ainda que Flávio pode ficar quanto tempo quiser nos EUA. Seu governo lançou mão de um estratagema bastante questionável – a “autorização de entrada humanitária” – para permitir que Flávio entrasse nos EUA. Pularam uma fila de 32 mil pessoas que esperam o mesmo expediente. Marco Rubio pode até dizer que não atuou para levar Flávio aos EUA; está difícil de acreditar. Jason Miller, assessor de Trump desde a primeira eleição, inimigo declarado de Alexandre de Moraes, aparentemente agiu para fretar o avião; Steve Bannon, que segue influente nos círculos MAGA embora não faça parte do governo, conclamou o governo Trump a cortar relações com o Brasil.  


Agora, uma reportagem do Fantástico atesta que um agente da Mossad (ou “ex-Mossad”, termo que considero questionável) esteve em uma das vans que coordenaram a operação de traslado de Flávio Bolsonaro até o aeroporto de Puerto Iguazú, de onde ele partiu para a Flórida.

“Não se trata de uma operação qualquer, mas de uma coordenação transnacional de alto impacto e com alto custo político. É de muita ingenuidade acreditar que, apenas porque neste momento estamos todos rindo dos irmãos Bolsonaro, eles estão acabados.

Esquecemos que a linguagem do fracasso e da trapalhada faz parte do léxico bolsonarista? Quantas foram as trapalhadas em que se meteram os Bolsonaro sem que isso tenha afetado a capacidade de mobilização de paixões do seu projeto fascistizante? Posso lembrar apenas algumas: a declaração de Jair sobre “ter pintado um clima” com uma menina venezuelana de 14 anos; a reunião escabrosa na qual ele afirmou que iria trocar a direção da polícia federal para proteger a si e a sua família; o escárnio contra as vitimas da covid. Apenas dois meses atrás, a esposa de Bolsonaro, Michelle, chegou a brigar publicamente com Flávio e Eduardo e afirmar sobre os enteados: “Eles me tratam como se fosse idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou”. 


Completou com uma ameaça: “Eu sei mais do que eles pensam”. 


Isso tudo passou, porque é essa a lógica do bolsonarismo: manter o engajamento o tempo todo; idas e vindas com forte conteúdo emocional; viver de construir narrativas que são impulsionadas e alimentam um círculo identitário, porque fomenta a identidade de indivíduos engajados. Elas sobrevivem em banho maria e são reativadas a cada momento de crise das instituições.  


A narrativa de que Flávio é perseguido, assim como Eduardo, e que Lula usurpou o poder, é uma delas. 


Quando Flávio diz que, na prisão domiciliar, Bolsonaro “me olhou com os olhos cheios de lágrimas, ‘já sabem aonde é que eles querem chegar com isso, né?’ Eu falei ‘pai, já sei’, eu acho que Deus está no comando de tudo, estou preparado, vou enfrentar, agora eu sei o que eu tenho que fazer” – ele está organizando os afetos desta massa que agora aparece órfã para uma narrativa que com o tempo vai se fortalecer. 


Não. O Brasil não está lidando apenas com um grupo político, ou um partido que opera dentro da lógica normal. O bolsonarismo é um movimento cultural arraigado, que conseguiu arrastar quase 60 milhões de eleitores para as urnas. Não é algo que morre de um dia para o outro. 


Entender e combater o bolsonarismo continua sendo, portanto, uma tarefa cotidiana para todos que acreditam na democracia como modo de organizar a nossa sociedade. 


A Agência Pública quer ir além: com a sua ajuda, vamos investigar as conexões entre a extrema direita internacional e o bolsonarismo. Mas, para isso, precisamos arrecadar 30 mil reais até dia 15 de novembro. Não fique assistindo de fora. Financie mais informações de interesse público, apoie a Pública agora!

QUERO APOIAR MAIS INVESTIGAÇÕES DA PÚBLICA!



Um abraço,


Natalia Viana

natalia@apublica.org

Diretora Executiva da Agência Pública

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 Opinião

Janones, o "Lênin digital"

24 de outubro de 2026
3min
Janones, o "Lênin digital"
Foto: Ricardo Stuckert

Para os estrategistas de inspiração leninista, a leitura do clássico O Que Fazer? permanece como um cânone fundamental para entender a tática política na atualidade. A obra ensina a eficácia da agitação e da mobilização de massas, transformando ativistas em comandantes de missões e em uma vanguarda revolucionária.

​Embora estejamos distantes do cenário de 1917, o deputado federal André Janones tem demonstrado que esses princípios clássicos continuam plenamente vigentes na luta política contemporânea. A grande mudança é o campo de batalha: a esfera digital. A atuação de Janones reflete a essência dos manuais de agitação política adaptados para a internet.

O que antes dependia de panfletos impressos e comícios presenciais, hoje se traduz em redes de alcance instantâneo e alta capilaridade. Um exemplo claro dessa estratégia é a criação de canais de transmissão em aplicativos de mensagens, como o Whats App, a exemplo do canal “Exército de Lula”, que servem como ferramentas de comando e disparo rápido de narrativas para engajar a militância e influenciar o debate público em tempo real.

O deputado federal André Janones assumiu o comando informal da campanha digital de Lula

​Ao ditar o ritmo da agitação virtual, figuras como Janones provam que o domínio das plataformas digitais é tão crucial para o sucesso político quanto o controle das ruas era no século passado. À medida que as eleições se deslocam cada vez mais para as telas dos smartphones, dominar esses mecanismos de agitação em rede deixou de ser um diferencial para se tornar o núcleo central da ação política na atualidade. Mesmo que não advoguemos o leninismo como referência teórica e política, temos que reconhecer que Janones é prova eficaz de suas táticas.

A campanha de Lula tomou outro rumo no segundo turno. O canal Exército de Lula é o diferencial no que tange à centralização e mobilização de ações em grandes ondas imitativas nas redes. O bordão janonista “Explodam” é a palavra de ordem para soldados replicarem conteúdos em grande escala.

​Viva Janones. Viva Lula.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

 

Agência revela 'esquema de Flávio Bolsonaro na pandemia'

Gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários dos órgãos de controle da União e servidores públicos apontam que Flávio teria desempenhado um papel na gestão dos hospitais mesmo sem ocupar cargo no Executivo

Agência revela 'esquema de Flávio Bolsonaro na pandemia'

© Agência Senado / Leopoldo Silva

Rafael Damas
21/10/2026 17:12 ‧ há 18 horas por Rafael Damas

Nesta quarta-feira (21), voltou a repercutir nas redes sociais um artigo da Agência Pública que aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria exercido forte influência política sobre seis hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, onde servidores teriam denunciado uma suposta rede de corrupção.

 

A publicação relatou que, de acordo com gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários dos órgãos de controle da União e servidores públicos, Flávio teria desempenhado um papel na gestão dos hospitais mesmo sem ocupar cargo no Executivo e durante a maior crise sanitária do país.

Segundo a CPI da Covid, cerca de 30% dos leitos clínicos e de UTI dos hospitais e institutos federais do Rio permaneceram fechados durante a pandemia, principalmente por falta de profissionais. Em abril de 2023, uma fiscalização parlamentar encontrou 735 leitos bloqueados ou inoperantes, alas trancadas, equipamentos abandonados e obras paralisadas. O Estado do Rio de Janeiro registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes, sendo que mais da metade delas – 38,8 mil – ocorreram na capital. 

Auditorias do TCU e da CGU identificaram sobrepreços estimados em R$ 69 milhões numa licitação de materiais cirúrgicos e R$ 18,1 milhões em outra de medicamentos contra o câncer. As irregularidades foram detectadas preventivamente, antes da assinatura dos contratos. 

A atuação de políticos nos bastidores dos seis hospitais federais do Rio – Hospital do Andaraí, Hospital Geral de Bonsucesso, Hospital Cardoso Fontes, Hospital de Ipanema, Hospital da Lagoa e Hospital dos Servidores – durante a pandemia, deixou marcas nas unidades que fazem parte da rede de assistência do SUS. A milícia chegou a ocupar um terreno do Hospital Cardoso Fontes para extorquir funcionários e familiares de pacientes com a cobrança de estacionamento, segundo a Polícia Civil.

Ainda de acordo com a 'Pública', a gestão com liderança de Flávio Bolsonaro foi tão desastrosa que os hospitais acabaram sendo sucateados e mesmo com o grande número de pacientes, acabou demitindo profissionais e encerrando contratos com prestadores de serviços que eram essenciais.

Há também indícios de superfaturados de contratos. Durante a pandemia, enquanto brasileiros precisavam de atendimento, leitos permaneciam fechados e auditorias apontavam sobrepreços milionários em compras básicas para manter os centros de saúde.

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que é pastor evangélico de direita, acusou Flávio de ter liderado um esquema de corrupção nos hospitais federais do Rio. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Procurado, Flávio Bolsonaro não respondeu aos pedidos de entrevista.