domingo, 19 de julho de 2026

 

É preciso não ter medo: a voz de Myrelly Gonçalves, pescadora artesanal

19 de julho de 2026
17min
É preciso não ter medo: a voz de Myrelly Gonçalves, pescadora artesanal
Myrelly Gonçalves no manguezal de Abreu do Una, território onde cresceu e aprendeu os saberes da pesca artesanal. Hoje, ela transforma sua trajetória em luta pela identidade, pelos direitos e pela permanência das mulheres pescadoras |Foto: Lady
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“É preciso não ter medo. É preciso ter coragem de dizer.”

A frase, dita por Myrelly Gonçalves antes mesmo de começar a entrevista, resume uma trajetória construída ao longo de muitos anos. Uma trajetória em que a maior batalha, antes de ocupar espaços de liderança e representar outras mulheres, foi aprender a dizer quem ela era.

Não porque desconhecesse sua própria história. Filha de pescador artesanal, criada entre o manguezal, o rio e o mar de Abreu do Una, no litoral sul de Pernambuco, Myrelly sempre pertenceu àquele território.

Desde criança, acompanhava o movimento das marés, conhecia os ciclos da natureza e sabia que a sobrevivência de muitas famílias dependia do que vinha das águas.

Mas viver da pesca não significava, necessariamente, ser reconhecida como pescadora.

Na comunidade onde cresceu, os homens eram os que partiam para o mar. Eram eles que apareciam quando alguém perguntava quem era pescador. Às mulheres cabia esperar o retorno das embarcações e realizar uma série de atividades fundamentais para que a pesca acontecesse: lavar o pescado, beneficiar mariscos, remendar redes, organizar os materiais, preparar os produtos para venda e sustentar uma parte essencial da economia pesqueira.

Trabalhavam todos os dias. Ainda assim, muitas vezes não eram reconhecidas como trabalhadoras da pesca.

Myrelly viveu essa contradição dentro da própria casa. Perdeu a mãe ainda criança e foi criada pelo pai, um pescador artesanal que criou sozinho três filhos.

A infância foi atravessada pelo cotidiano da pesca.

Eu era Myrelly, filha de um pescador pai solo que criou três filhos. Eu era uma apoiadora do meu pai nessa pescaria. Organizava o rancho, pesava o peixe, lavava, armazenava. Minha vida toda foi estar ali na beira da praia, aguardando a chegada do meu pai e dos meus irmãos da maré.

Ela cresceu ajudando, acompanhando e participando de todas as etapas daquele trabalho. Mas, por muito tempo, não compreendia que aquilo também era uma profissão.

Quando precisava informar sua ocupação em algum cadastro ou atendimento, a resposta quase nunca era pescadora.

A invisibilidade parecia natural.

Hoje, ela entende que aquela experiência não era apenas sua. Era parte de uma história vivida por milhares de mulheres das comunidades pesqueiras brasileiras.

Durante décadas, a pesca artesanal foi associada quase exclusivamente à figura masculina que conduzia a embarcação. Tudo aquilo que acontecia antes e depois da saída para o mar permanecia invisível: o cuidado com os equipamentos, o beneficiamento do pescado, a comercialização e todo o trabalho que mantinha a cadeia produtiva funcionando.

“Meu pai levava meus irmãos para pescar. Nós ficávamos na beira da praia esperando o barco chegar para lavar o pescado, beneficiá-lo, remendar redes e realizar tantas outras atividades fundamentais. Mas esse trabalho não era reconhecido como pesca.

Durante muito tempo, Myrelly também acreditou que pescador era apenas quem enfrentava o mar dentro de uma embarcação.

Essa percepção tinha relação com o próprio modo como a comunidade enxergava aquele espaço.

“Eu dizia: ‘Pai, por que o senhor não leva a gente para o mar?’. E ele dizia que lá só era espaço para homens, que não embarcava mulher.

A lembrança ficou marcada porque, com o passar dos anos, Myrelly percebeu que aquela não era apenas uma decisão do pai. Era uma regra social construída sobre o lugar destinado às mulheres.

“Eu achava aquela pesca muito machista, porque queria que a gente fizesse só o beneficiamento, que tratasse, armazenasse, lavasse. A maioria das mulheres ia também para a feira vender. Eu tratava peixe, pescava marisco, mas não era vista como pescadora.

A mudança começou quando ela encontrou outras mulheres que também questionavam essa invisibilidade. Em 2008, Myrelly participou de um encontro da pesca artesanal em Brasília. A viagem, feita em uma caravana com pescadores e pescadoras de diferentes estados, abriu uma nova perspectiva.

Foi uma caravana, vários ônibus, e eu tive essa oportunidade de ir. Quando a gente volta de lá, eu vim fazer parte de formações para entender a questão dos direitos.

Nos encontros, conheceu mulheres que ajudaram a reconstruir sua própria história. Muitas se identificavam como marisqueiras, mas Mirelly começou a compreender que a mariscagem era apenas uma das diversas práticas dentro da pesca artesanal.

“Conheci várias pescadoras, várias mulheres, marisqueiras. A maioria das mulheres se identificava muito como marisqueira. Mas marisqueira é uma das práticas que a gente faz dentro da biodiversidade da pesca artesanal.

Aos poucos, percebeu que a pesca era muito maior do que a saída para o mar.

A pesca artesanal é da economia familiar, que move uma cadeia. Não é só o homem que vai pescar que é pescador. O filho que leva o material, o filho que busca a rede, a esposa que remenda a rede, que faz o trabalho de manutenção das artes de pesca, tudo isso faz parte da pesca.

Foi nesse processo que Myrelly conheceu a Articulação Nacional das Pescadoras e outras mulheres que há décadas lutavam pelo reconhecimento da profissão.

Foi nesse processo que Myrelly conheceu a Articulação Nacional das Pescadoras e a trajetória de mulheres que, antes dela, haviam enfrentado o machismo e a invisibilidade dentro da própria pesca. Entre essas histórias estava a de Joana Mousinho, pescadora de Itapissuma (PE), que nos anos 1970 participou da luta para que as mulheres tivessem reconhecido o direito de se filiar às colônias de pescadores e acessar os direitos previdenciários. Décadas depois, Joana se tornaria a primeira mulher eleita presidente de uma colônia de pescadores no Brasil.

Aquelas trajetórias mostraram a Myrelly que a sua própria história fazia parte de uma luta maior. A compreensão veio primeiro. A coragem veio depois. Até que ela passou a transformar em voz aquilo que durante anos permaneceu sem nome.

Hoje, quando alguém pergunta quem ela é, Myrelly responde sem hesitar:

“Eu sou uma mulher preta, mãe solo e pescadora artesanal.”

Aprender a transformar a própria história em luta coletiva

A descoberta de que era pescadora artesanal mudou a forma como Myrelly passou a olhar para o próprio passado.

As lembranças da infância ganharam outro significado. A menina que esperava a chegada dos barcos na praia, que lavava pescado, ajudava no beneficiamento dos mariscos e acompanhava o trabalho do pai, não estava apenas “ajudando”.

Ela fazia parte da pesca artesanal.

A pescadora artesanal transformou sua própria história em luta coletiva pelo reconhecimento das mulheres das águas | Foto: Lady

O reconhecimento dessa identidade, porém, não veio apenas como uma conquista individual. Para Myrelly, entender-se pescadora significava compreender uma luta histórica de milhares de mulheres que durante décadas tiveram seu trabalho invisibilizado.

Nos encontros com outras pescadoras, ela percebeu que muitas viviam situações semelhantes. Mulheres que sempre trabalharam no mangue, nos rios e no mar, mas que, diante do Estado, muitas vezes apareciam apenas como donas de casa ou trabalhadoras sem profissão reconhecida.

A pesca desaparecia dos registros. E, junto com ela, desapareciam direitos.

Foi nesse processo que Myrelly compreendeu a importância de afirmar a identidade profissional.

Tem lugar que as pescadoras pescam no mangue, siri, aratu, e elas não têm marisco. A mariscagem faz parte da prática da pesca. Então a gente tem que se afirmar pescadora artesanal, porque o registro foi uma luta das mulheres para conseguir direitos previdenciários. Eu sou pescadora artesanal, pratico a mariscagem.

Para ela, dizer o próprio nome e a própria profissão passou a ser um gesto político. Não era apenas uma palavra. Era uma conquista construída por mulheres que vieram antes.

Antes de qualquer coisa, eu digo às mulheres: vão se apresentar nos lugares como pescadoras, porque a nossa profissão é pescadora artesanal.”

Mas a formação também fez Myrelly compreender outras dimensões da própria trajetória.

Ser mulher, negra, moradora de uma comunidade tradicional e trabalhadora da pesca significava enfrentar diferentes formas de desigualdade que se cruzavam no cotidiano. O machismo, o racismo e a ausência de políticas públicas apareciam juntos na vida das mulheres das águas. A própria história de Myrelly carregava essas marcas. Ela foi mãe muito jovem. Aos 15 anos engravidou e, aos 16, já cuidava do primeiro filho.

Eu fui mãe muito nova. Não foi uma coisa pensada, organizada, planejada. Eu saí da minha mocidade e já fui direto para ser mãe.”

A maternidade aconteceu em meio a uma realidade marcada pela falta de diálogo e de acesso à informação.

Meu pai não conversava sobre sexo, sexualidade, como prevenir. Muitas coisas a gente ouvia na escola, mas como um pai solo ele não tinha muita conversa com a gente.

Depois vieram outros desafios. Conciliar a criação dos filhos com a participação política, as reuniões, as formações e a organização das mulheres exigiu construir novos caminhos.

Foi também dessa experiência que nasceu uma das preocupações centrais da atuação de Myrelly: garantir que outras mulheres não precisassem escolher entre cuidar dos filhos e participar dos espaços de decisão.

Essa ideia se tornou uma das bases da Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais de São José da Coroa Grande (AMPAS).

Antes da formalização da entidade, as mulheres já se reuniam em rodas de conversa, muitas vezes em espaços improvisados. Ali discutiam direitos, violência contra a mulher, território, identidade e os desafios enfrentados pelas pescadoras.

A gente se organizava em rodas de conversa, em terraços. Ali a gente trabalhava a importância da identidade, da união das mulheres, de reivindicar os direitos, de formação, de fortalecer aquela mulher contra o machismo e contra a questão do feminicídio.

A AMPAS foi oficialmente criada em 2023, mas nasceu de uma caminhada construída ao longo de anos.

O nome escolhido revela o sentido da organização. Além da denominação oficial, as mulheres adotaram o nome fantasia Pescando Liberdade.

Na camisa, o nome da associação que ajudou a fundar resume uma luta: “Pescando Liberdade” | Foto: Lady

A gente sonhava em ser liberta desse espaço que a gente tinha como uma escravidão. A gente foi muito perseguida, ainda é muito perseguida. Mas o prazer de continuar lutando é ver que muita semente que a gente plantou hoje está saindo um botão, uma flor.

Quando assumiu a presidência da associação, Myrelly não ocupava apenas um cargo. Ela carregava a responsabilidade de transformar uma experiência coletiva em uma ferramenta permanente de organização.

Hoje, a AMPAS reúne cerca de 120 mulheres pescadoras. Mas, para Myrelly, o principal resultado da associação não está apenas no número de integrantes. Está nas mudanças silenciosas que acontecem quando uma mulher começa a reconhecer a própria trajetória.

Quando uma mulher chega aqui dizendo que é dona de casa, a primeira coisa que a gente faz é conversar. Ela vai percebendo que sempre trabalhou na pesca. Só precisava reconhecer isso.”

A associação se tornou um espaço de formação e participação política. As reuniões passaram a discutir desde direitos previdenciários até mudanças ambientais, economia solidária, turismo de base comunitária e defesa dos territórios pesqueiros. Os problemas individuais revelavam questões coletivas. Uma carteira de pescadora que não foi emitida. Um benefício negado. Uma área de mangue ameaçada. Uma comunidade pressionada por novos empreendimentos.

Foi nesse processo que Myrelly deixou de falar apenas sobre a própria história. Passou a falar por muitas mulheres.

Hoje estou presidenta da AMPAS. Mas meu compromisso é formar outras lideranças. Eu não quero ser a única. Quero que outras mulheres ocupem esses lugares e saibam que eles também pertencem a elas.

Quando uma mulher ocupa espaços, outras também chegam

A transformação de Myrelly não ficou restrita à comunidade onde nasceu.

A mulher que um dia teve vergonha de dizer o próprio nome passou a ocupar espaços de decisão, participar de debates públicos e representar pescadoras artesanais em diferentes instâncias.

Para ela, essa mudança só foi possível porque outras mulheres abriram caminhos antes.

Hoje, Myrelly integra a Articulação Nacional das Pescadoras e participa de espaços de discussão sobre políticas públicas para as comunidades pesqueiras. Ela também passou a ocupar conselhos municipais e espaços de participação social no território onde vive. É presidente do Conselho de Saúde da comunidade e representante da Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais.

A ocupação desses espaços, segundo ela, é uma forma de garantir que as comunidades tradicionais sejam ouvidas quando políticas públicas são construídas.

Eu aprendi que é ali que a gente tem que brigar por uma cadeira e estar. Mas eu fiz formação para saber da importância de estar ali.

Foi nesses espaços que Myrelly também conseguiu defender demandas específicas das mulheres das águas. Entre as conquistas está a articulação para implantação de uma equipe de atendimento voltada às comunidades pesqueiras, com atenção às necessidades das pescadoras e de suas famílias.

Para ela, participar desses espaços exige conhecimento e organização.

A gestão também precisa entender como funcionam os conselhos, como a sociedade pode participar. Todo mundo precisa fazer formação.

Essa consciência sobre a importância da participação política também se refletiu na atuação da AMPAS. A associação passou a ocupar espaços antes inacessíveis às mulheres da comunidade, como o conselho gestor da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais.

Também desenvolveu projetos de formação, turismo de base comunitária e fortalecimento da economia solidária.

Mas uma das experiências que melhor traduz essa mudança é o Festival do Mangue.

O Festival do Mangue e o território contando sua própria história

Quando as mulheres da AMPAS criaram o Festival do Mangue, não queriam apenas organizar uma celebração cultural. Queriam criar um espaço para que a comunidade pudesse mostrar sua própria história.

O evento reúne culinária tradicional, produtos da pesca artesanal, apresentações culturais, oficinas, rodas de conversa e debates sobre direitos e defesa do território.

Mulheres de diferentes territórios compartilharam experiências marcadas por desafios semelhantes durante o II Festival do Mangue | Foto: Jana Sá

Ali, as mulheres que durante anos tiveram suas vozes diminuídas passam a ocupar o centro. As crianças participam das atividades, aprendem sobre o manguezal e convivem com a história da própria comunidade. Pesquisadores, universidades, movimentos sociais e representantes do poder público encontram as pescadoras no lugar onde elas vivem e trabalham.

Não é apenas um festival. É uma afirmação de existência.

Quando a gente mostra nosso território, mostra também quem somos.

Foi durante uma das edições do Festival do Mangue que Mirelly percebeu a dimensão do caminho percorrido. Mulheres que antes tinham medo de falar passaram a conduzir rodas de conversa, apresentar seus produtos, receber visitantes e contar suas próprias histórias.

Era exatamente aquilo que ela havia aprendido anos antes: a luta não pode depender de uma única voz.

As novas gerações e o futuro da pesca artesanal

Para Myrelly, uma das maiores preocupações hoje é garantir que os jovens continuem reconhecendo o valor do território onde nasceram.

Participação do grupo Filhos do Una no II Festival do Mangue | Foto: Jana Sá

Ela lembra que, quando começou sua caminhada no movimento da pesca, não havia espaços de acolhimento para os filhos das pescadoras. Muitas mulheres precisavam escolher entre participar das atividades e cuidar das crianças.

A AMPAS tenta construir uma realidade diferente. Durante as atividades da associação, as crianças também têm espaço. Participam de rodas, brincadeiras e momentos de formação.

Para Myrelly, cuidar das novas gerações é uma forma de garantir a continuidade da pesca artesanal.

A gente vê a importância e a necessidade do espaço das crianças e da gente formar novos militantes. A juventude está muito afastada da luta. Eles pensam que já está tudo pensado, que já está tudo ganho.

Ela conta com orgulho a participação da neta, Ivi, nas atividades da associação. A menina acompanha reuniões, participa das formações e já aprendeu algo que para Myrelly tem um significado enorme: dizer quem é.

Minha neta hoje é uma menina que não tem medo de falar como eu falava. Ela participa das reuniões, participa das formações.

A cena ficou marcada para ela. Ao ouvir a neta se apresentar, Myrelly reconheceu ali uma mudança que levou décadas para acontecer.

Como é importante a apresentação. Eu fico admirada quando ela fala: ‘Meu nome é Ivi Gonçalves’.

Uma escola das marés para fortalecer o território

O maior sonho de Myrelly para a AMPAS é transformar a associação em um espaço permanente de educação popular. Uma escola das marés. Um lugar onde crianças, jovens e mulheres possam aprender sobre identidade, direitos, cultura, meio ambiente e a história das comunidades pesqueiras.

“Eu sonho que nossos filhos tenham um espaço de aprendizado, de acolhida, de formação, para entender o que é ser negro, o que é ser mulher, o que é identidade, se reconhecer.”

Para ela, estudar não significa abandonar o território. Pelo contrário. Significa fortalecer quem permanece nele.

Que o nosso povo se forme, vá se qualificar, mas que volte para fortalecer o território. A gente não quer que muita coisa mude dentro do nosso território. A gente quer manter o mangue ali onde ele está.

Porque, para Myrelly, defender a pesca artesanal é defender muito mais do que uma atividade econômica. É defender um modo de vida. Um vínculo construído entre pessoas e natureza.

Quando a gente está no mar, no mangue, a gente se sente abraçado. O mangue é uma mãe. É uma empresa que não precisa de currículo, não tem limite de pessoas.

Com os pés no território que ajudou a formar sua identidade, Myrelly Gonçalves traduz a relação das mulheres pescadoras com o mangue: um espaço de trabalho, memória, pertencimento e resistência | Foto: Lady

A pesca, para ela, é trabalho, renda e alimento. Mas também é cuidado. É memória. É pertencimento.

Quando a gente chega na maré, aquela mágoa vai embora. A maré leva muita coisa.

O medo não pode dizer nosso nome

Depois de tantos anos tentando encontrar a própria voz, Myrelly escolheu usá-la para que outras mulheres também possam falar.

Essa talvez seja a maior conquista de sua trajetória. Não apenas ser reconhecida como pescadora. Mas ajudar outras mulheres a reconhecerem a si mesmas.

Porque a defesa de um território começa muito antes de uma disputa por uma política pública ou pelo direito de permanecer em uma área ameaçada. Começa quando uma mulher consegue olhar para a própria história e afirmar, sem medo:

“Eu sou pescadora artesanal.”

Entre redes e marés, Myrelly Gonçalves reafirma uma identidade construída no cotidiano da pesca artesanal. O trabalho que aprendeu desde menina hoje também é uma luta por reconhecimento | Foto: Lady

A frase que abriu esta reportagem também resume a caminhada de Myrelly.

“É preciso não ter medo. É preciso ter coragem de dizer.”

Série especial | Mulheres do Mangue

Esta reportagem integra uma série especial da Saiba Mais sobre mulheres pescadoras artesanais do litoral pernambucano, mulheres que defendem o mangue, o mar e modos de vida ameaçados pela especulação imobiliária, pelas mudanças ambientais e pela ausência de políticas públicas.

Na primeira reportagem, mostramos como o Festival do Mangue transformou a defesa do território em um espaço de organização política.

Na segunda, contamos a história de Helena Nascimento (Leninha), liderança de Maracaípe que, mesmo sob ameaças de morte, se tornou um dos principais rostos da luta pela derrubada do muro que restringiu o acesso de pescadoras e marisqueiras ao Pontal de Maracaípe.

Agora, a série apresenta a trajetória de Myrelly Gonçalves, mulher preta, mãe solo e pescadora artesanal que transformou a afirmação da própria identidade em instrumento de mobilização coletiva e formação política de outras mulheres.