domingo, 29 de março de 2026

 

Plantas medicinais: hortelã é a mais usada por mulheres da zona rural do RN

27 de março de 2026
3min
Plantas medicinais: hortelã é a mais usada por mulheres da zona rural do RN
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Hortelã, capim-santo e erva-cidreira aparecem no centro de uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) sobre o uso de plantas medicinais por mulheres da zona rural de Caraúbas. O estudo mostra que essas espécies seguem presentes no cotidiano das comunidades, sobretudo como recurso para aliviar dores de cabeça e ajudar a acalmar, quase sempre em forma de chá.

A investigação foi desenvolvida na Faculdade de Enfermagem da Uern e analisou o conhecimento e o uso de plantas medicinais por mulheres de comunidades tradicionais do município. A pesquisa foi coordenada pela professora doutora Líbne Lidianne da Rocha e Nóbrega, pesquisadora do GP Forte, com a colaboração da estudante de enfermagem Salisa Duarte Medeiros.

Entre todas as plantas mencionadas pelas entrevistadas, o hortelã desponta com folga: foi citado por 92,7% das mulheres ouvidas. Em seguida aparece o capim-santo, lembrado por 84,5%, e depois a erva-cidreira, mencionada por 41,2%. O levantamento indica que as folhas são a parte mais utilizada dessas plantas, inteiras ou trituradas, o que aponta para um uso doméstico simples, incorporado à rotina de cuidado.

As três espécies mais recorrentes também concentram as finalidades mais citadas no estudo. Segundo as participantes, hortelã, capim-santo e erva-cidreira são usados principalmente para “aliviar dores de cabeça” e “acalmar”. O chá foi apontado como a forma de consumo mais comum entre as mulheres entrevistadas.

Os dados foram coletados por meio de questionários aplicados a mulheres com mais de 20 anos na Unidade Básica de Saúde Joel Ferreira Ramos, escolhida por sorteio. Localizada no Assentamento 1º de Maio, na zona rural de Caraúbas, a unidade atende moradores dos sítios KM 101, Canto do Feijão, Baixa do Feijão, Inharé, Baixa do Correio, Recanto e do Assentamento Nova Morada.

De acordo com Líbne Nóbrega, os resultados têm forte relação com a cultura popular, a tradição familiar e a busca por formas naturais e acessíveis de cuidado. Na avaliação da pesquisadora, o estudo chama atenção para a importância de valorizar os saberes tradicionais, já que muitas plantas seguem sendo usadas como alternativas terapêuticas complementares ao tratamento de doenças.

Essa prática, antiga e repassada entre gerações, também encontra reconhecimento institucional. O Sistema Único de Saúde (SUS) validou uma lista com mais de 70 espécies com eficácia comprovada, dentro de uma proposta de ampliar o acesso seguro da população a plantas medicinais e fitoterápicos, além de estimular o uso racional desses recursos.

⇒ Conheça mais sobre as pesquisas na Uern na Plataforma Uern Ciência – Clique Aqui. 

 

Rogério Marinho é voto vencido em derrota na CPMI do INSS

28 de março de 2026
4min
Rogério Marinho é voto vencido em derrota na CPMI do INSS
Parecer foi derrotado por 19 votos a 12, em vitória da base do governo - Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
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A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS rejeitou na madrugada deste sábado (28) o parecer proposto pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), por 19 votos a 12, em vitória da base do governo. Um dos votos contrários foi o do senador potiguar Rogério Marinho (PL), que viu sua posição ser derrotada. 

 rejeição do relatório contou com votos de parlamentares da base governista, especialmente do PT. Já os favoráveis ao texto vieram principalmente do PL. 

A participação de Rogério Marinho na comissão chegou a ser questionada pela base do governo, no início dos trabalhos, em 2025, em razão da ligação do senador do Rio Grande do Norte com a gestão Bolsonaro. Marinho foi secretário especial de Previdência e Trabalho, num flagrante conflito de interesses, na avaliação de deputados governistas. A exclusão dele foi rejeitada pelo presidente da CPMI.

O relatório de Gaspar pediu o indiciamento de 216 pessoas, incluindo ex-dirigentes do INSS e da Dataprev, ex-ministros, parlamentares e representantes de entidades associativas. Um desses nomes foi o do potiguar Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA). Lincoln chegou a ser preso em 3 de novembro acusado de cometer falso testemunho ao final do seu depoimento na Comissão, mas foi solto após pagar fiança. 

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Com mais de 4 mil páginas, o relatório de Alfredo Gaspar concluiu haver núcleos técnico, administrativo, financeiro, empresarial e político na movimentação de bilhões de reais por meio de descontos não autorizados de aposentadorias e pensões. 

Um dos nomes mais polêmicos na lista de indiciamento — rejeitada — foi o de Fábio Luiz Lula da Silva, por suposto envolvimento com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, principal responsável pelas irregularidades apuradas.

Os pedidos de indiciamento também incluíram o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro; os ex-ministros da Previdência José Carlos Oliveira e Carlos Lupi; além do senador Weverton Rocha, (PDT-MA), e a deputada Gorete Pereira (MDB-CE).

Bolsonaro na mira

Já o líder do governo na CPMI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), apresentou relatório paralelo com pedido de 201 indiciamentos, sendo 130 de forma imediata e outras 71 para aprofundamento das investigações, incluindo o ex-presidente da República. Segundo o PT, sob o governo de Jair Bolsonaro (PL), uma estrutura criminosa foi montada dentro do Estado para desviar recursos de idosos e pensionistas.

De acordo com o documento, Bolsonaro seria o “cérebro” do esquema que levou ao desvio de verba de aposentados e pensionistas, com descontos automáticos nos benefícios, para financiar campanhas do ex-ministro da Previdência Onyx Lorenzoni (Progressistas) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) explicou que Bolsonaro não apenas foi omisso, mas também agiu deliberadamente para facilitar o roubo através de decretos e medidas provisórias que assinou. 

Parlamentares petistas se manifestam – Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

“É por isso que nós estamos propondo o indiciamento do senhor Jair Messias Bolsonaro. Vamos propor por improbidade administrativa e também por furto qualificado de idosos.  Jair Messias Bolsonaro é o chefe do esquema criminoso que roubou bilhões de reais dos aposentados e aposentadas“, afirmou, durante entrevista coletiva a jornalistas.

Pimenta argumentou que não seria possível um esquema de tamanha complexidade e alcance funcionar sem que o governo Bolsonaro tivesse conhecimento, sobretudo porque servidores que atuaram nas fraudes foram estrategicamente colocados em postos de comando.

O senador Randolfe Rodrigues (PT-CE) reforçou a tese de que a cúpula do governo anterior tinha pleno conhecimento das irregularidades. Ele ressaltou que “toda a estrutura criminosa montada no âmbito do INSS teve inauguração se consolidou durante o governo Bolsonaro”, contando com o aval inclusive do ex-ministro da Economia, Paulo Guedes.

LANÇAMENTO DE CANDIDATURA

CIRCULA NAS REDES SOCIAIS A CANDIDATURA DA EX-PREFEITA DE JANDAIRA, MARINA MARINHO AO CARGO DE VICE-GOVERNADORA NA CHAPA DE CADU, PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES, NÃO DEIXA DE SER INTERESSANTE, UMA FIGURA QUE DESPONTOU COM DUAS EXCELENTES GESTÃO A FRENTE DA PREFEITURA DE JANDAIRA E QUE TERIÁMOS UMA REPRESENTANTE DA REGIÃO DO MATO GRANDE NO GOVERNO.

VAMOS ESPERAR O DESENROLAR DOS ACONTECIMENTOS. 

RELATOR DE CPMI ACUSADO DE ESTUPRO DE VULNERÁVEL

 O RELATOR DA CPMI, ALFREDO GASPAR DO PL, ESTÁ SENDO ACUSADO DE ESTUPRO DE VULNERÁVEL, FATO OCORRIDO A 8 ANOS, NA ÉPOCA A VITIMA TINHA 13 ANOS, FOI ENCAMINHADO PARA A POLICIA FEDERAL AS PROVAS, FATO QUE CHAMA A ATENÇÃO É QUE A MENOR NA ÉPOCA FOI TER A CRIANÇA NO RIO DE JANEIRO E A CRIANÇA REGISTRADA NO NOME DE OUTRA MULHER.

JÁ ESCUTAMOS QUE O DEPUTADO ESTÁ ALEGANDO QUE A CRIANÇA É FILHO DE UM PRIMO DELE.

VAMOS ACOMPANHAR O DESENROLAR DOS FATOS. DEPUTADO DO UNIÃO BRASIL E QUE AGORA SAIU PARA O PL, TERÁ A TOTAL E AMPLA DEFESA.

terça-feira, 24 de março de 2026

 

Três filmes do Oscar revelam o espírito de uma época

Foi a noite dos derrotados. E não estou falando do fato de que O Agente Secreto não levou nenhuma estatueta no Oscar, mas na coincidência incrível de que três filmes celebrados como finalistas giram em torno do mesmo tema central: o que acontece depois que um grupo de lutadores idealistas é derrotado politicamente. 

Em todos os casos, trata-se de grupos políticos progressistas, ou pelo menos, que podem ser vistos como lutadores da liberdade. Em todos os três, são pessoas comuns, desajeitadas, anti-heróis sem nenhuma característica que as poderia separar de nós, pobres coitados que assistimos deste lado da telona. São, neste sentido, o oposto da onda de super-heróis se desdobrando a velocidades estonteantes que Hollywood tem nos entuchado goela abaixo. E quando há filmes relevantes aparecendo em países tão diferentes como os EUA, Irã e o Brasil, isso significa que o inconsciente coletivo está se materializando em cultura. E vale tentar nos aproximarmos dele. 

Não vou fazer um alerta de spoiler porque confio que o leitor tem a maturidade para saber que eu vou falar dos três filmes e entender que isso não se compara à experiência de assisti-los no cinema. Então, bem, vou falar dos três filmes. 

Em O Agente Secreto, vemos o desenrolar da derrota desde seus primórdios. Marcelo, personagem de Wagner Moura, é um professor universitário que, quase sem querer, se torna desafeto de um figurão civil da ditadura, quando ele faz comentários pouco apropriados para sua mulher. Não existe aqui uma postura de herói, uma tentativa de mudar o mundo. Marcelo é um homem amargurado pela morte da esposa (cujo motivo não conhecemos) e que apenas quer criar o filho e sobreviver. Todos aqueles que ele conhece na pensão da Dona Sebastiana, personagem da aplaudida Tânia Maria, têm o mesmo destino: engajados na luta contra o regime militar de uma maneira ou outra, tornaram-se almas penadas fugindo de uma ditadura que não os permite ser quem são. 

Há uma tensão implícita, muito bem articulada pelo diretor Kleber Mendonça, que materializa o que o psicanalista Rafael Alves Lima descreveu à BBC como “difusão psicológica do terror” pela ditadura: “Havia um método, certamente, mas tratava-se de um método que tinha justamente a difusão psicológica do terror como um princípio fundamental. Era um modo inclusive de misturar as fronteiras entre o público e o privado, como que mantendo a densidade do ar sempre pesada, com essa sensação contínua de vigilância e perseguição”. 

A morte de Marcelo se dá, também, em um anticlímax completo – nem aparece na tela, apenas é mencionada em uma notícia de jornal anos depois. Ele nem viveu nem morreu como herói, mas sua história merece ser recontada, e é na busca das duas jovens pesquisadoras para recontar essa história – e na entrega do material ao filho de Marcelo – que, talvez, se faça alguma Justiça.

Uma Batalha Após a Outra traz uma versão moderna de um grupo revolucionário que remonta ao Black Panthers, mas estes abraçam também a defesa dos imigrantes ilegais como uma das principais causas. O protagonista, Bob Ferguson, interpretado por Leonardo DiCaprio, é também a encarnação do anti-herói, um jovem que entra numa luta por amor a uma mulher e depois perde o controle da própria vida, vira um pai fracassado e viajandão que mal consegue sobreviver sozinho. Um homem sem nenhuma virilidade, como lembrava uma amiga, cujo peso da derrota da luta pela qual arriscou a vida pesa nos visivelmente nos ombros

Afinal, Foi Apenas Um Acidente talvez seja o filme que leva a investigação do pós-fracasso a uma conclusão mais completa. Nele, o protagonista, igualmente um homem pouco viril e absolutamente atrapalhado, passa um dia a esmo tentando reencontrar antigos colegas de luta sindical contra o regime opressor dos Aiatolás para descobrir se o homem que pensou ter reconhecido – e que aprisionou no porta-malas da sua Van – é aquele que os torturou. E depois, o que fazer com ele? O filme mostra como pessoas que tentaram lutar por uma causa justa – neste caso, reivindicações trabalhistas – e foram torturadas por isso, tentam reerguer sua vida dentro de uma ditadura. Traumatizadas, derrotadas, feias, histéricas, elas vão se enfiando cada vez mais numa comédia de erros que as expõe, também, como irremediavelmente humanas

Não acredito que é à toa que estes três filmes tentam humanizar tanto a luta política por Justiça, quanto o seu fracasso. Os profissionais de cinema, do roteirista ao diretor, dos atores ao produtor que levanta dinheiro e à distribuidora que trabalha para que o filme chegue às telas, estão todos inseridos em um contexto apavorante de crescimento vertiginoso da extrema direita no mundo e com a sufocante sensação que é ela, a extrema direita –  aquela que quer roubar direitos das pessoas, concentrar riquezas e poder e oprimir o diferente – quem se apresenta como vanguarda política e move corações e mentes. (Vale lembrar que o filme iraniano é uma coprodução com a França, e, portanto, nosso desespero ocidental se junta ao desânimo prolongado dos iranianos contra seu regime.) 

As últimas décadas representaram o fracasso global da luta civilizatória em seguir caminhando rumo a um mundo mais justo, e um retrocesso nas ideologias políticas de direita que, antes, retroagiram até um renovado sentimento de Guerra Fria e agora vão até a era dos Tratados de Tordesilhas e das Companhias das Índias Ocidentais. E se mantêm absolutamente populares, por mais brutas que sejam.

Nesse sentido, discutir o que vem depois da derrota, e como pessoas como você e eu lidam com isso, é justamente o cinema fazendo o que a arte deve fazer, ajudando-nos a elaborar sentimentos e organizar sensações que podem ser desesperadoras, mas ensinam.

Não existe final feliz hollywoodiano possível neste cenário de terra arrasada concretizado pela extrema direita, cujo maior expoente é, claro, Donald Trump e seu caos calculado e cobiçoso – e ambos os três filmes são francos quanto a isso. Mas a vida segue, o carro enguiça, a filha chora, o casamento é marcado e pessoas pedem e recebem ajuda, e mesmo assim se juntam para falar de utopias e desejos de uma vida melhor. 

Assim, há uma mensagem poderosa em todos esses três filmes, algo que eu sempre sou lembrada quando faço uma reportagem – e talvez por isso o jornalismo seja a “melhor profissão do mundo”, como dizia Gabriel García Márquez. A História é feita por pessoas comuns, que não se arvoram de heroísmos plásticos nem esteticamente gloriosos; o senso de Justiça, a capacidade de manter-se abraçado ao esteio moral que busca uma vida melhor para todos, a erradicação da desigualdade e a realização da Justiça faz, também, parte da experiência humana na terra. 

São incontáveis as pessoas inspiradoras na vida comum, grandes lutadoras da verdade, aquelas que inspiram e que guiam os mais jovens e trabalham para proteger os menos afortunados. Elas costuram o que chamamos de tecido social. Mesmo em tempos de derrota e de desânimo sobre o futuro, elas não desaparecerão, e é talvez essa a única certeza que podemos ter que os tempos sombrios, também, são passageiros.

segunda-feira, 23 de março de 2026

 

Diante da maior crise de petróleo, o mundo vai inovar ou fincar o pé nos fósseis?

Com já quase três semanas, a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel no Irã já causa, de acordo com a Agência Internacional de Energia, a maior interrupção da história no fornecimento do mercado global de petróleo e isso leva a uma questão incontornável: para onde esse conflito pode nos levar, energeticamente falando? 


Vamos continuar nos agarrando à ideia de que a saída é buscar novas fontes de combustíveis fósseis e nos segurar até a última gota de petróleo ou pedra de carvão? Ou assumir a transição energética tanto como uma necessidade climática, mas também de segurança energética?


Já falei um pouco disso na coluna da semana passada e também em uma análise que publiquei logo após o início do conflito, mas volto ao assunto porque essa discussão tem se tornado cada vez mais urgente diante do agravamento da crise. E, certamente, ela não tem nem uma resposta fácil de dar, tampouco é algo que pode ser rapidamente adotado. 


Também retomo ao tema como um convite para que o caro leitor, a cara leitora mergulhe comigo, com a Marina Amaral e com o Ricardo Terto nesse debate ouvindo nosso episódio de reestreia do podcast Bom dia, fim do mundo, que volta ao ar nesta quinta-feira, 19 de março. 


A gente discute os impactos da guerra no cenário da produção e consumo de energia no mundo e também as consequências políticas que o aumento no preço dos combustíveis pode trazer para os Estados Unidos e para o Brasil nas eleições deste ano. 


Quem trabalha com a crise climática torce para que isso funcione com um “wake up call”, um chamado para que o mundo realmente se vire pra transição energética tão necessária pra conter o aquecimento global. 


O secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU, o Simon Stiell, rapidamente afirmou que “a crise demonstra, mais uma vez, que a dependência de combustíveis fósseis deixa as economias, as empresas, os mercados e as pessoas à mercê de cada novo conflito”. E disse que investir em energia renovável é “o caminho óbvio para a segurança energética”.


E segurança energética, obviamente, vai além da questão climática. Os defensores de combustíveis fósseis, como a gente vê bastante no Brasil entre quem milita a favor do gás natural, sempre se valeram do argumento que são essas as fontes seguras – em oposição à intermitência das fontes solar e eólica.


Mas se 20% do mercado global é proveniente de fornecedores que precisam atravessar um estreito de 34 km, como é o caso de Ormuz, sob controle do Irã? E se esse produto é usado como arma de guerra, essa segurança é favas contadas.


De modo que é possível, sim, que ocorra um investimento maior em turbinas de eólicas, em painéis solares, e principalmente em baterias para armazenar essa energia e aumentar a segurança dessas fontes. Mas o que a gente está vendo em um primeiro momento é o oposto disso. 


Como falamos no programa, usinas de carvão estão sendo reativadas ou colocadas a pleno vapor em vários países, e os produtores de gás natural liquefeito dos Estados Unidos já estão de olho nos mercados que ficaram desabastecidos sem os combustíveis do Oriente Médio.


Isso me fez lembrar como foi a resposta que o mundo deu quando tivemos as primeiras crises do petróleo, nos anos 1970.


No fim daquela década, cientistas já estavam alertando para o aumento preocupante da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, provenientes justamente da queima acelerada de combustíveis fósseis. Em 20 anos, entre 1958 e 1977, ela tinha subido 10%. A constatação vinha quase na mesma época em que os Estados Unidos enfrentavam uma onda de calor surreal e uma crise de abastecimento de combustíveis.


O então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter (que governou o país de 1977 a 1981) chegou a fazer um pronunciamento à população, “uma conversa desagradável”, como ele chamou, vinculando as duas coisas. “O nosso problema energético tem a mesma causa que o nosso problema ambiental: o uso excessivo de recursos. Preservá-los ajudará a resolver os dois problemas”, disse em rede nacional.


“Conservar energia deve ser um estilo de vida”, disse em outra ocasião. Ele não apenas estava pedindo para as pessoas economizarem no consumo de combustíveis, mas também tentava sensibilizá-las para a complexidade do problema. Logo depois Carter começou a se empolgar com as renováveis, prometendo que, até o fim daquele século, 20% da energia usada pelo país viria do Sol. 


Esse momento é retratado em um documentário lançado no ano passadoO Efeito Casa Branca. De acordo com o filme, num primeiro momento a população chegou a demonstrar apoio ao apelo do presidente, mas o consumo continuou subindo, assim como a dependência de importá-lo. E aí veio uma segunda crise. 


Entre 1973 e 1974, os Estados Unidos já tinham sofrido com um embargo dos países árabes, que deixaram de exportar petróleo em retaliação ao apoio dos americanos a Israel na guerra de Yom Kippur. Em 1979, com a Revolução Iraniana, que derrubou o regime que era apoiado pela Casa Branca, o país, até então também um grande fornecedor de petróleo, também deixou de vendê-lo aos EUA. 


O documentário mostra imagens de filas quilométricas e a população enfurecida com a falta de combustível. Se alguém antes achava que ficar uns dias sem carro talvez não fosse uma má ideia, naquele momento, forçados a empurrar seus carros pelas ruas, o desespero falou mais alto. Daí para frente o documentário desenha como o lucro das companhias de petróleo e o negacionismo climático falaram mais alto, fazendo com que os EUA basicamente desistissem de lidar com o problema. 


No Brasil, a reação foi bem diferente. Quando a primeira crise do petróleo se instalou, em 1973, o país procurou um outro caminho. Em 1975, foi criado o Proálcool, que investiu no desenvolvimento do etanol de cana de açúcar. Entre vai-e-vens da economia, pode-se dizer que a alternativa se consolidou, mas não virou a opção número 1. Menos da metade dos veículos do país abastece com etanol. 


Por outro lado, o Brasil não tirou da cabeça a ideia do “petróleo é nosso” e se embrenhou na busca por ter autonomia energética, investindo na descoberta de novas fontes, como o pré-sal. Mas isso também não nos garante segurança, uma vez que o preço é vinculado às flutuações do mercado global. 


Nesta quinta, enquanto escrevo, o barril Brent, referência internacional para o petróleo bruto, bateu US$ 115, com a piora do conflito.


É um quadro que antecipa aumento da inflação e uma consequente crise econômica mundial, que pode levar a um aumento da fome e, portanto, a mais crises humanitárias, além de, possivelmente, a um aumento de conflitos por recursos. E isso tudo é receita para a deterioração da democracia. Ou seja, não dá mais para confiar nos combustíveis fósseis nem como segurança energética, nem econômica e, muito menos, para a paz.