domingo, 21 de agosto de 2022

FAVELIZAÇÃO DA ÁREA RURAL

 Favelização da área rural

A propriedade de dona Maria se localiza na área conhecida como “baixada”. O motivo é autoexplicativo: trata-se de uma região mais baixa em relação ao distrito de Jundiapeba, à margem sul do rio Jundiaí.


Quando há precipitação de chuva intensa, é para lá que a água escoa e se acumula. Dentro de sua própria casa se veem nas paredes e armários marcas que vão do chão a até aproximadamente 50 centímetros de altura, resultado da lama que entra durante esses eventos.


Fellipe Abreu/Agência Pública


Fellipe Abreu/Agência Pública


Dona Maria mostra as marcas das chuvas intensas nas paredes de sua casa

“Fica um cheiro muito ruim”, conta a agricultora. “E tem risco até de pegar doença, aquela doença do rato lá que não lembro nome”, diz, referindo-se à leptospirose, doença infecciosa causada por contato com uma bactéria presente na urina de animais, principalmente ratos.


O medo se justifica de vários modos. Primeiro porque, de fato, as tempestades com precipitação de água acima do normal aumentam constantemente. Mas os principais motivos estão relacionados à ação humana direta.


À margem oposta do rio Jundiaí não há um centímetro sequer de terra livre para plantio. Construções ilegais dos mais diversos tipos e materiais — há desde barracos simples de madeira até casas de alvenaria com três andares — se distribuem entre a parte alta e a porção alagada do rio.


A profusão de casas e prédios irregulares entupiu e tornou inócuas as valetas que foram instaladas para drenar o excesso de chuvas e preservar o solo dos agricultores, como dona Maria. E o rio, principal fonte de água para os plantios, passou a ser banheiro público: sem rede de esgoto, os dejetos expelidos pelas novas moradias são despejados em seu curso.


Fellipe Abreu/Agência Pública

Construções disputam espaço com áreas para plantio

Em 2012, o Banco Mundial publicou um estudo sobre os riscos de desastre em relação à habitação irregular na cidade de São Paulo. O resultado aponta que até o fim do século pouco mais de 10% da população mais pobre da metrópole pode ocupar zonas com risco de deslizamento de terra e inundações. E ainda mais grave: nas comunidades periféricas, já nas próximas décadas, mais de 5% das áreas de favelas estão “extremamente propensas” a eventos extremos destrutivos. A orientação do estudo é expressa: as medidas de adaptação mais urgentes devem ocorrer nas áreas mais vulneráveis.


Os prejuízos ambientais são evidentes, mas as consequências socioeconômicas são tão graves quanto. Menos água de qualidade significa menos capacidade produtiva. Ou seja, menos produção de alimentos, aumento de preços aos compradores e redução de renda aos agricultores. O crescimento demográfico resulta ainda em conflitos sociais: Jundiapeba é conhecida, hoje, como o bairro mais perigoso de Mogi das Cruzes, sendo os furtos a residências o crime mais comum. “Ah, já entraram na minha casa várias vezes. Das vizinhas tudo, aqui. E aí levam o que encontram mesmo, dinheiro, eletrodomésticos… O que der, levam”, relata dona Maria.


A economista Yara Carvalho, que já foi presidente da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo e é efetiva do Instituto de Economia Agrícola da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, explica que, tradicionalmente, em todo o Cinturão Verde a agricultura teve o papel de embarreirar “a ocupação desordenada e a expansão urbana de baixa qualidade”. E exerce a dupla função de ser uma espécie de controle térmico natural na metrópole. As bacias hidrográficas, a vegetação e o solo não impermeabilizado pelo asfalto são essenciais para mitigar eventos climáticos mais extremos. “É um fator de adaptação para o clima”, resume Yara.


E a região do alto Tietê é especialmente importante para o controle da poluição na capital. “Se perdermos essas áreas verdes, o problema será grande aqui em São Paulo”, conclui a economista.

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