domingo, 21 de agosto de 2022

COMIDA MAIS CARA E PRODUÇÃO MENOR: CINTURÃO VERDE DE SP SOFRE COM MUDANÇAS CLIMÁTICAS

 


REPORTAGEM

Comida mais cara e produção menor: Cinturão Verde de SP sofre com mudanças climáticas

Fellipe Abreu/Agência Pública

Temperatura mais alta combinada com chuvas escassas e eventos extremos impactam produção de agricultores responsáveis boa parte das hortaliças da capital


12 de agosto de 2022

12:00

Fellipe Abreu de Alcântara, Luiz Felipe Silva

 ESPECIAL: MICROBOLSAS ALIMENTAÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Cinturão Verde é responsável por mais de 70% das hortaliças de São Paulo 

Perda de safras inviabiliza novos investimentos e aumenta preços e risco de desabastecimento 

Mudanças levam novas gerações de agricultores a abandonarem o campo 

Nas gôndolas dos mercados, a sazonalidade dos alimentos se reflete no bolso. Frutas como abacaxis e melancias enchem as prateleiras no verão, e se reduzem no inverno, com reflexo no preço. Quando toda a safra da temporada rende mal, a inflação dos alimentos é generalizada. E é exatamente isso que estamos prestes a presenciar nos próximos anos — em todos os anos.



Seu Ivo Bernardo da Silva, 68 anos, produz hortaliças desde 2000 em um pedaço de terra de 7,5 mil metros quadrados em Jundiapeba. Lá, mais de 300 famílias dividem espaço no assentamento que virou um distrito do município de Mogi das Cruzes, parte do cinturão agrícola que abastece a capital São Paulo. Há 20 anos, ele carrega consigo um caderninho onde anota diariamente a relação entre o clima e sua capacidade produtiva.


“Eu tenho marcado no meu caderno. A última vez que caiu uma chuva boa foi em 6 agosto de 2012”, relata. “Foi o ano que a gente mais produziu aqui na chácara.” Na última década, a insegurança climática só fez crescer. O episódio mais dramático é de julho do ano passado, quando os produtores acordaram com seus sítios completamente brancos. Uma geada caiu sobre Jundiapeba e destruiu quase toda a safra de hortaliças — foi a mais forte das quatro que atingiram a região nos últimos 20 anos.


No caso de seu Ivo, a perda foi de aproximadamente 60% da produção. “Ano passado eu parei a construção da minha casa porque eu perdi tudo duas vezes”, diz. Dona Maria José Marques da Silva, agricultora de 46 anos nascida no interior de Pernambuco, também relata o mesmo problema. Assim como Maria Fernanda Vieira, outra moradora do assentamento. “Foi excesso de chuva, excesso de gelo, excesso de calor. Foi excesso de tudo”, desabafa a jovem produtora de 29 anos.


Fellipe Abreu/Agência Pública


Fellipe Abreu/Agência Pública


Ivo Bernardo da Silva e seu caderno

O impacto do gelo chegou à capital. A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, popularmente conhecida como Ceagesp, principal distribuidora de alimentos de São Paulo (movimenta 280 mil toneladas por mês), registrou queda de 27 toneladas de hortaliças oriundas de Mogi das Cruzes, entre os meses de maio e junho de 2021, início da onda de frio.


Os preços de diversos alimentos subiram. Em alguns casos, quase dobraram: o engradado da alface lisa, por exemplo, subiu de R$ 14,18 para R$ 26,39 em 20 dias; e da alface-crespa, de R$ 13,57 para R$ 22,89.


Fellipe Abreu/Agência Pública

Ivo e sua esposa produzem hortaliças há 22 anos

Forma-se assim um efeito dominó na cadeia produtiva de alimentos. O preço sobe primeiro devido à lei de demanda e oferta — que cai quando uma safra vira gelo. No médio prazo, para cobrir o prejuízo dos produtores e reduzir a exposição ao risco de novos eventos climáticos extremos. 


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Na perspectiva de longo prazo, a atividade agrícola se inviabiliza e as novas gerações de agricultores abandonam o campo, e a terra que gera comida e renda ou vira periferia onde vivem trabalhadores urbanos com baixa oferta de infraestrutura ou solo para monocultura onde empresas plantam commodities cujo destino principal é o porto de Santos. Um quadro presente principalmente na região oeste do Cinturão Verde (onde os principais municípios são Ibiúna, Itapetininga, Piedade do Sul e Sorocaba), onde o Instituto Florestal registra uma gradual transição de propriedades familiares para monocultura. 


Fellipe Abreu/Agência Pública

Mudanças climáticas impactam na dinâmica do campo

No livro Serviços Ecossistêmicos e bem estar humano na reserva da Biosfera do Cinturão Verde da cidade de São Paulo, publicado em dezembro de 2020, o mesmo Instituto Florestal, órgão da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo que pesquisa a conservação das matas paulistas, afirma que “a crise econômica no mercado de um produto específico causa o não plantio e o desemprego rural”. E conclui que “essas tendências ameaçam a rede social dos agricultores familiares, o modo de vida rural e a preservação da multifuncionalidade da agricultura”.

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