Mosca no ovo
Hoje, a maioria das granjas em Bastos segue o modelo de criação em gaiolas e em galpões abertos. Conhecido também como “sistema californiano”, as gaiolas ficam dispostas em dois andares ao longo de um enorme corredor, coberto por um telhado e sem paredes laterais, cercado apenas por telas de arame. Já os galpões mais modernos, ainda em menor número, mas cada vez mais presentes em Bastos, são construídos para abrigar mais de um corredor de gaiolas, possuem o pé-direito mais alto e são completamente fechados.
Além do controle do clima a partir de um sistema de refrigeração, nesses galpões fechados o fornecimento de ração e o recolhimento das excretas produzidas pelas galinhas são feitos de forma automatizada, por meio de um sistema de esteiras. Nos galpões convencionais, a retirada dos resíduos é feita manualmente, após as excretas se acumularem embaixo das gaiolas. Em média, uma galinha produz 30 gramas de excretas por dia. Em um galpão convencional, com 5 mil galinhas, são cerca de 4,5 mil quilos de resíduos sólidos produzidos todo mês. Daí a explicação para a grande quantidade de moscas circulando pela cidade.
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Quem se aproxima do município percebe aos poucos o forte cheiro de ração
Apesar de a presença desses insetos ser mais comum nas zonas rurais, não é difícil encontrar restaurantes ou pequenos estabelecimentos que vendem comida na cidade sofrendo com o problema, e, de tempos em tempos, a infestação de moscas é alvo de reclamações da população às autoridades locais.
Após serem retiradas pelos granjeiros, as excretas são comercializadas para os chamados “esterqueiros”, que transformam o material em fertilizantes. Além do indissociável problema das moscas, se não manejadas de maneira correta, as excretas de galinhas podem causar problemas tanto à saúde dos próprios animais quanto à biodiversidade local, conforme explica a professora Nilsa Silva, do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Excretas acumuladas embaixo das gaiolas; coleta é feita manualmente por funcionários
“As excretas são ricas em amônia, substância que, quando dissipada no ar, se transforma em gases nocivos aos animais, capazes de afetar desde o sistema respiratório até a visão das galinhas”, explica Nilsa. “Do outro lado, existem todos os perigos para a biodiversidade no entorno da granja e para os próprios seres humanos, caso os excrementos contaminem leitos de rio, por exemplo”, acrescenta a pesquisadora. No entanto, ela ressalta que esse cenário, ao menos no presente, está distante da realidade.
“A legislação brasileira e os manuais de procedimentos adotados pelas granjas são bastante rígidos nesse sentido e os produtores sabem da importância do manejo correto. Como há esse caráter circular, com as excretas sendo transformadas em fertilizantes, é possível dizer que o impacto ambiental das granjas é bem baixo quando comparado com o de outras produções animais”, afirma a professora.
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Com o manejo correto das excretas e carcaças, a produção granjeira não tem grande impacto nos ecossistemas dos municípios onde está inserida. Em Bastos, à exceção das moscas e do cheiro das aves nas proximidades das granjas, não há registros de impactos hídricos ou ambientais gerados pela atividade poedeira. Ao se analisarem os dados públicos sobre a cidade, porém, um dado chama atenção: a incidência de diarreia na população.
De acordo com os dados mais recentes do IBGE, de 2016, o índice de internações por diarreia em Bastos era de 10,8 por mil habitantes; o terceiro maior do estado de São Paulo. Na capital paulista, por exemplo, a taxa era 36 vezes menor, com apenas 0,3 internação a cada mil habitantes.
A diarreia pode ser causada por diferentes agentes, como vírus, protozoários ou bactérias. Uma bactéria comum relacionada à produção de ovos é a salmonela, presente não apenas nas galinhas, mas em outros animais. Por exigência do Ministério da Agricultura, todas as aves precisam ser vacinadas contra a salmonela, e as granjas são inspecionadas para garantir que nem os ovos nem a água estejam contaminados. “Por esses fatores, é difícil traçar uma correlação entre a incidência da diarreia e a quantidade de galinhas em Bastos sem que um estudo científico específico seja realizado”, esclarece Cristina Soares Araújo, professora do Departamento de Nutrição e Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).
Nos casos de contaminação por salmonela, a bactéria fica na superfície da casca do ovo, podendo passar para outros alimentos via contaminação cruzada, na hora da preparação, mas temperaturas altas de cocção conseguem matar essas bactérias rapidamente. “Tradicionalmente, os japoneses ingerem mais alimentos crus, o que poderia explicar o alto índice de internações por diarreia em Bastos. Mas apenas o fato de concentrar um grande número de granjas de galinhas poedeiras não o coloca como grande consumidor de ovos”, explica o professor Edir Nepomuceno, do Departamento de Engenharia dos Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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