Bacia do alto Tietê
Mogi das Cruzes é um dos oito municípios que mais colaboram para a produção agrícola da região do alto Tietê, junto de Suzano, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Biritiba Mirim, Guararema e Salesópolis. Somados, são responsáveis por 275 mil toneladas de hortaliças, mais da metade de tudo que o Cinturão Verde produz.
Fellipe Abreu/Agência Pública
Mogi das Cruzes tem papel fundamental na produção agrícola da região do alto Tietê
O Censo Agropecuário de 2017 informa que o município, onde se localiza o distrito de Jundiapeba, é o líder em área cultivada e em quantidade de alimentos. Com foco em hortaliças, são mais de 7.600 mil hectares que geram quase 112 mil toneladas. A venda e a distribuição dos produtos são responsáveis por 94% da receita das famílias que vivem em áreas rurais da cidade.
São números que dão a dimensão do que significa o suor que seu Ivo, dona Maria e tantos outros despejam todo dia sobre a terra onde trabalham. “Sou analfabeta, então acho melhor trabalhar na roça. É o que eu sei fazer”, diz a agricultora.
Fellipe Abreu/Agência Pública
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Maria José Marques da Silva, agricultora de 46 anos, já perdeu safras de hortaliças por conta das mudanças climáticas
Há mais de uma década, Valdecir Ribeiro, 55 anos, cultiva hortaliças e tira daí o sustento de sua família. Seis anos atrás, no entanto, uma chuva torrencial destruiu tudo: perdeu a colheita e as mudas e teve que dispensar os oito funcionários que mantinha à época.
“O nosso problema aqui é água, porque na seca falta água e na chuva tem excesso de água, né?”, resume Valdecir, que há cerca de dois anos fundou a Cooperativa dos Produtores Agrícolas Solidários do Alto Tietê, da qual é o atual presidente.
A bacia do alto Tietê já sofre de forma inequívoca as consequências das mudanças climáticas, reforça o levantamento feito pelo Instituto Florestal.
No caso das chuvas, a precipitação anual total registra aumentos discretos na região, com maior incidência de eventos de chuva intensa. Por outro lado, a precipitação anual total abaixo de 10 milímetros (ou seja, chuvas moderadas que colaboram para a produção agrícola, aquelas de que seu Ivo sente falta), está em queda consistente na última década. O resultado é o aumento na frequência de dias secos intensos, embora com mais eventos de chuvas intensas.
“Agora mesmo, a gente já está com problema com água”, lamenta Valdecir. E a preocupação é justificada: ele relata que o volume de água de seu poço artesiano já caiu 30% durante o período de inverno e que, por isso, seu maquinário de irrigação hoje demora mais de uma hora para dar conta da lavoura — em condições normais, leva menos de 20 minutos.
“Quer dizer, se continuar desse jeito [sem chuvas], em outubro vamos passar dificuldade com essa seca”, conclui.
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Valdecir Ribeiro cultiva hortaliças há mais de uma década
A temperatura máxima média também aumentou ao longo da última década, assim como a maior temperatura máxima diária — com aumento crescente em direção ao leste da bacia do alto Tietê. A temperatura mínima diária também aumentou em todos os indicadores analisados, o que significa que dias frios estão ficando menos frios — o número de dias cuja mínima esteve abaixo de 10 oC também está em queda acentuada.
Como consequência de dias mais quentes e menor frequência de chuvas, a análise dos resultados observa o crescimento do déficit hídrico climatológico e “redução significativa” de excedente hídrico, com potencial aumento de risco para o abastecimento da população local.
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