REPORTAGEM
A crise climática na “Capital do Ovo”, onde tem mais galinha que gente
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Enquanto o país bate recordes de consumo do alimento, fomos a Bastos (SP) ver o debate sobre excesso de calor na produção e novos modelos de criação
22 de agosto de 2022
12:00
Luíza Lanza, Daniel Tozzi Mendes
ESPECIAL: MICROBOLSAS ALIMENTAÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Brasileiros trocam carne por omelete e população nunca comeu tanto ovo
Mas o problema do calor, explicam os especialistas, diminui a produção de ovos
Hoje o Brasil produz cerca de 54,9 bilhões de ovos por ano, 1.700 por segundo
“Passou do dia 15 é quase impossível comer carne”, comenta a vendedora Cristina Souza Brito enquanto sai de um supermercado em Curitiba, capital do Paraná, carregando na sacola de compras duas dúzias de ovos. “Frango ou carne moída é só quando o salário cai no início do mês. Depois a gente se vira fazendo omelete, ovo frito ou cozido”, acrescenta. Ao menos desde o início de 2021, essa tem sido a rotina na casa onde mora com a filha, uma sobrinha e dois irmãos.
Também na casa da aposentada Ana Lúcia Freitas, a carne virou artigo de luxo. O consumo de frango, carne bovina ou peixe passou de três vezes na semana para apenas uma. “No final de semana, a gente faz uma coisinha melhor, mas durante a semana é mais ovo e salada”, conta a aposentada sobre a rotina que divide com a filha e a neta há quase três anos, quando, segundo ela, “o supermercado começou a ficar mais caro”.
A sensação de que os brasileiros estão substituindo a carne por ovo para aliviar o bolso não fica restrita apenas às conversas na saída dos supermercados. Em meio ao aumento de preços generalizado, a carne se destaca com altas acima da inflação e, em abril de 2022, custava 42,6% a mais do que no início de 2020, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o que ajuda a explicar o fenômeno.
Publicada em abril de 2021, a pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, organizada pelo grupo Food for Justice, que conta com a participação de professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de Berlim, apontou que, no final de 2020, o ovo tinha sido o alimento cujo consumo os brasileiros mais haviam aumentado — alta de 18,8%. Em contrapartida, a carne registrou a maior queda: redução de 44%, o que, segundo os pesquisadores, reforça a ideia de substituição entre os dois alimentos.
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Brasileiros estão substituindo a carne por ovo para aliviar o bolso
“Nos chamou a atenção os resultados inversos no consumo de ovo e de carne, já que ambos os alimentos estão presentes na mesa do brasileiro e existe um traço cultural muito forte de consumo de proteína animal no país”, comenta a professora Eryka Galindo, pesquisadora da Universidade de Berlim e uma das responsáveis pelo estudo.
De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), entre janeiro e agosto de 2021, o ovo foi a fonte de proteína de origem animal preferida dos brasileiros. Pouco mais de 19% dos consumidores optaram pelo alimento, patamar maior do que o registrado com os cortes de frango congelado (14,6%); de carne bovina de segunda ou terceira (14,1%) e das chamadas “carnes de primeira”, como alcatra, filé-mignon e contrafilé (7%).
Crise sanitária e econômica à parte, o brasileiro nunca comeu tantos ovos como agora. O consumo do alimento no país mais do que dobrou nos últimos 15 anos, saindo da marca anual de 120 ovos per capita em 2007, para 257 unidades em 2021, segundo números da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O atual patamar de ovos consumidos por cada brasileiro ao longo de um ano é maior do que a média mundial, que é de 227.
A alta do consumo na série histórica é explicada, principalmente, pela “desmistificação” do alimento, que por décadas foi considerado uma espécie de vilão na dieta do brasileiro por causa do alto teor de colesterol. Enquanto 100 gramas de carne bovina possuem cerca de 92 miligramas de colesterol, a mesma quantidade de ovo apresenta quatro vezes mais: 397 miligramas. “Hoje já sabemos que não há diferença de risco, por exemplo, do desenvolvimento de doenças cardiovasculares entre quem consome ovo ou não”, explica Roberta Brandão da Cunha, nutricionista especialista em segurança alimentar nutricional do Grupo de Pesquisa de Intervenções em Nutrição da UFMG.
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A nutricionista destaca que, além de o colesterol ser um tipo de gordura fundamental para o funcionamento da produção hormonal e do sistema nervoso humano, ao longo dos anos o padrão alimentar dos brasileiros foi se alterando, especialmente com o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados. “Isso significa que o brasileiro passou, também, a ingerir vários aditivos e gorduras que são muito mais prejudiciais à saúde do que o colesterol vindo do ovo, que é um alimento in natura”, pontua a professora.
Em um cenário em que o consumo é cada vez maior, a indústria do ovo no Brasil corre para atender a toda essa demanda. De 2010 para cá, a indústria granjeira praticamente dobrou de tamanho no país, e hoje o Brasil produz cerca de 54,9 bilhões de ovos por ano. São 1.700 ovos por segundo.
Tamanha produtividade, no entanto, não ocorre sem que os granjeiros tenham que lidar com seus próprios desafios — que hoje vão do alto preço da ração das galinhas às mudanças climáticas, passando por discussões sobre os modelos de criação das aves dentro de gaiolas e o impacto que a criação pode causar ao meio ambiente.
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Brasil produz cerca de 1.700 ovos por segundo
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