domingo, 21 de agosto de 2022

QUEM COME, COME PIOR

 Quem come, come pior

A alface é, de longe, a hortaliça mais produzida no Cinturão Verde, quase um quarto de todos os alimentos cultivados. Tradicionalmente, sempre foi um bom negócio para os agricultores: tem ciclo rápido de aproximadamente 45 dias até a colheita e alta demanda na capital. A mesma lógica se repete em todo o país. No setor de folhosas, a alface é a líder. Cerca de 110 mil estabelecimentos trabalham com o cultivo, o que gera anualmente pelo menos 670 mil toneladas.


Ela é também uma das culturas que mais sofrem o impacto das mudanças climáticas. Se chove muito, apodrece. Se o calor é intenso, queima. Quando se misturam chuva e sol, pode cozinhar por dentro. Sua fragilidade diante do clima é proporcional à sua qualidade nutricional — é basicamente formada de água e fibras alimentares.


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Especialistas como Manuela Santos e o geógrafo Arpad Spalding, que já coordenou um projeto municipal de agricultura familiar em Parelheiros, citam que a transição para culturas de mais fácil adaptação e de maior valor nutricional precisa ser acelerada. E, ainda assim, a perda de qualidade nutricional aponta para a irreversibilidade. “Chuvas intensas atrapalham a terra, a planta e a qualidade do solo”, explica Spalding. “E quando tem muita água no solo, a planta não consegue absorver os nutrientes.”


O cardápio de opções para reformular o modelo produtivo é enorme. São cerca de 6 mil espécies de plantas comestíveis, mas a produção global de alimentos se limita a menos de 200, e apenas nove delas respondem por dois terços dos alimentos que vêm do campo.


A concentração de terra para cultivos de monocultura é o motor principal do processo de homogeneização do agro para menos de uma dezena de grãos que integram a cadeia global de suprimentos como commodities. Desse modo, fecha-se o ciclo vicioso no qual as mudanças climáticas acentuam a desigualdade social e econômica no campo. Processo que leva à perda de biodiversidade, compromete o solo e a água (a agricultura responde pelo consumo de 70% da água doce do mundo) e libera muito mais carbono para a atmosfera do que sistemas produtivos mais complexos (sistemas alimentares  respondem por até 35% das emissões de gases do efeito estufa).


Fellipe Abreu/Agência Pública

A alface é a hortaliça mais produzida no Cinturão Verde e também uma das culturas que mais sofrem o impacto das mudanças climáticas

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