domingo, 21 de agosto de 2022

ABANDONO DO CAMPO

 Abandono do campo

Globalmente, são dos pequenos sítios de agricultura familiar que vem grande parte de nossa comida. A ONU estima que sua participação no mercado de alimentos varia entre 40% e 85% no conjunto de países da Ásia, África e América Latina.


O mesmo relatório das Nações Unidas relaciona a importância da produção local e familiar de alimentos com três aspectos fundamentais para o desenvolvimento sustentável: promove maior biodiversidade, tem menos impacto ambiental e é mais resiliente às mudanças climáticas.


Fellipe Abreu/Agência Pública

Pequenos agricultores garantem a alimentação da população brasileira

No entanto, os pequenos produtores vêm enfrentando mais dificuldades para se manter no campo. O acesso à terra está sendo limitado pela especulação fundiária e/ou pela expansão das áreas urbanas — com efeitos antagônicos: parte se deve ao empobrecimento de um contingente da população que faz avançar o processo de favelização em direção ao interior; parte se deve à valorização de áreas verdes cujos terrenos são comercializados por incorporadoras e viram condomínios fechados.


Somam-se a isso as restrições ao crédito e a serviços financeiros em geral, a dificuldade em operacionalizar a distribuição dos alimentos sem a figura do atravessador e a baixa produtividade em comparação a monoculturas e plantações cujos proprietários investem em sementes geneticamente modificadas e fertilizantes de alto desempenho.


Os riscos provocados pela crise climática são a gota d’água para muitos. “Vem uma chuva e você fica com as dívidas todas”, se queixa Valdecir. A insegurança diante de um clima cada vez mais instável, afirma o presidente da cooperativa, é o principal motivo para que os jovens abandonem o trabalho rural. “Aqui, você vale só a sua produção. Choveu demais, você perde tudo.”


Dona Maria relata que seu filho desistiu de trabalhar no campo depois de ter enfrentado perdas recorrentes na produção. Hoje, aos 25 anos, Ronaldo trabalha em uma atividade urbana no centro da cidade, vizinha de Suzano, ainda que more numa casa construída no mesmo terreno onde a mãe lida com sua lavoura.


A permanência na terra é, também, questão social. A ecóloga Anita Valente da Costa, do Fundo Agroecológico, relata que no extremo sul de São Paulo, nas áreas rurais do bairro de Parelheiros — que também integra o Cinturão Verde —, mais da metade dos agricultores não conseguem sequer acessar um salário mínimo. E ficam à mercê da especulação imobiliária. “Quando vem uma onda de valorização para as terras, para eles vale a pena vender, porque não conseguem viver da agricultura”, afirma.


Fellipe Abreu/Agência Pública

Mudanças levam novas gerações de agricultores a abandonarem o campo

O caso de Parelheiros é um exemplo do que pode ocorrer em todo o Cinturão Verde. Anita explica que, lá, as pressões causadas pela urbanização descontrolada e pelos empreendimentos privados fazem com que cada vez mais “terras agricultáveis tenham o uso mudado” — sendo um dos usos o problema da ocupação ilegal, com riscos até para a segurança dos moradores.

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