Observar a natureza para crescer com ela
A rotina é a mesma todos os dias: depois do café da manhã, seu Ivo calça as botas e vai ao quintal observar o crescimento dos seus cultivos. Na caminhada, tudo vê e tudo ouve. A observação da natureza é a regra número 1 de sua técnica agrícola. Foi assim que aprendeu a ler o movimento migratório das aves e a arquitetura dos formigueiros para prever a chegada ou não de uma tempestade.
Essa mesma observação atenta levou o agricultor a dispensar o uso de venenos, investir “apenas no natural” e promover o uso rotativo do solo. A sabedoria intuitiva de seu Ivo coincide com as técnicas mais eficazes para aumentar a produtividade sem custos adicionais e para proteger a horta dos eventos climáticos extremos.
No entanto, seu Ivo é exceção. Via de regra, explica Spalding, os agricultores têm acesso limitado a técnicas e métodos de baixa complexidade e custo. Ele lista “tecnologias básicas que melhoram a produção e a vida do agricultor”: microtúnel, instalação de estufa pequena, sistema de irrigação e sistema de plantio direto.
“Precisamos urgentemente de um programa de assistência técnica que ensine esse conjunto de ações que são muito importantes para melhorar a nossa resiliência diante da mudança do clima”, afirma Spalding. De acordo com a Política Nacional de Mudanças Climáticas, resiliência climática é um conjunto de iniciativas e estratégias que permitem a adaptação, nos sistemas naturais ou criados pelos homens, a um novo ambiente, em resposta à mudança do clima atual ou esperada.
No caso de Jundiapeba, a FGV tem uma parceria com as cooperativas locais para apresentar soluções. O plantio direto, que consiste em cobrir o solo com vegetação para protegê-lo de chuva e sol intensos, já faz parte do dia a dia de muitos produtores.
Um modelo celebrado por muitos especialistas é o agroflorestal. Nele, cabe ao agricultor replicar em sua terra as características da floresta nativa, com árvores e plantas não necessariamente produtivas. Ao atingir o equilíbrio do microambiente, a resistência a eventos extremos cresce: o solo absorve mais a água da chuva, a copa das árvores protege mais contra altas temperaturas e a barreira natural que se forma limita a ação de ventos e geadas.
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Além de assistência técnica, faltam políticas públicas do início ao fim do ciclo produtivo. “Precisa de política pública para melhorar a produtividade e para garantir adaptação ao clima”, afirma Spalding. A começar pelo crédito: sem linhas de financiamento especiais, poucos agricultores familiares se arriscam a trabalhar culturas de ciclo mais longo e a explorar técnicas com resultados de médio e longo prazo.
Do plantio à colheita, os agricultores dormem e acordam apenas torcendo para que não chova demais nem de menos. Bancos e seguradoras não protegem ciclos curtos de hortaliças; portanto, a cada safra perdida, a capacidade de reinvestimento fica praticamente zerada.
Por fim, na venda e distribuição, uma vez expostos a todos os riscos mencionados acima, os agricultores muitas vezes se submetem a atravessadores que pagam valores baixos e assumem a revenda para mercados na capital. Soma-se a isso a falta de serviços bancários e atuariais, privados ou públicos, que ofereçam seguros às safras.
A organização em cooperativas é um modo de reduzir a dependência econômica de intermediários ou grandes redes de mercado. Yara Carvalho e Manuela Santos apontam também a necessidade de políticas públicas para a compra de alimentos produzidos localmente: dá segurança ao agricultor e dá ao Estado a possibilidade de direcionar a produção para atender às necessidades alimentares e nutricionais em escolas, hospitais e quaisquer outros equipamentos públicos.
Ou, como resume seu Ivo em uma frase: “Aí eu perco aqui na roça, você perde aí no mercado e o governo perde porque não arrecada imposto. O mundo exige uma mudança”.
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