Mais calor, menos ovos
Uma galinha pode morrer de calor se o local em que ela estiver ultrapassar 40ºC. O mandamento faz parte da rotina dos produtores de ovos do município de Bastos, no centro-oeste paulista, conhecido como a “Capital do Ovo”, onde são produzidos cerca de 6% de todos os ovos do Brasil.
No calor, contudo, a produtividade tende a baixar. As galinhas acabam gastando mais energia para equilibrar a temperatura corporal com o ambiente e, consequentemente, botam menos ovos ou produzem ovos menores. Em casos extremos, mas não incomuns, os animais não resistem às altas temperaturas e morrem dentro das granjas. “Passa o dia inteiro quente, com o sol batendo e a galinha absorvendo esse calor. De noite, ela fica cada vez mais ofegante, não aguenta e morre. Na manhã seguinte, você começa a retirar as galinhas mortas da gaiola. É triste, mas não tem muito o que fazer”, comenta o avicultor e veterinário Sérgio Kakimoto, dono de uma granja em Bastos.
Em outubro de 2020 uma onda de calor tomou conta do estado de São Paulo e, na região de Bastos, a temperatura beirou 40ºC por pelo menos cinco dias seguidos. O episódio até hoje é lembrado pelos produtores da cidade, especialmente por aqueles que viram parte da produção diminuir por conta do calor, que costuma castigar as galinhas nessa época do ano.
Pode parecer estranho que o período mais crítico de calor para as aves seja entre os meses de setembro e outubro, e não durante o verão, costumeiramente quente na região do oeste paulista. Mas é justamente esse choque de temperatura — entre o clima mais ameno no meio do ano e a onda de calor — que leva as galinhas à morte, conforme explica Danilo Florentino Pereira, professor de engenharia agrícola da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “É um efeito da máquina biológica da ave e sua capacidade de aclimatação: elas estavam acostumadas com um clima muito fresco e, de repente, vem uma onda de calor, como a que aconteceu em 2020, e as galinhas sofrem confinadas em uma gaiola, literalmente sem ter para onde correr”, comenta Pereira.
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Guilherme Nascimento/Agência Pública
Confinadas em gaiolas, galinhas sofrem estresse climático
Assim, lidar com as altas temperaturas exige preparação por parte dos granjeiros, que costumam utilizar ventiladores e nebulizadores para manter o ambiente menos insalubre para as galinhas. Pintar o telhado das granjas de branco, para refletir o sol, além de diminuir o número de galinhas dentro da mesma gaiola, também são formas de amenizar o calor que, se por um lado é inevitável, por outro ao menos é previsível. “O dia do equinócio da primavera, em setembro, por exemplo, é uma data para a qual nos preparamos com bastante antecedência. A gente sabe que nesse dia o sol vai ser intenso e duradouro”, conta Cristina Nagano, diretora do Sindicato dos Produtores Rurais de Bastos, que é dona de uma granja na cidade.
Para amenizar os efeitos do calor, Cristina chega a montar equipes responsáveis por monitorar as galinhas de sua granja durante a madrugada e despejar água pelo galpão onde as aves estão concentradas. “É um período muito delicado, e, se a granja está sem dinheiro para providenciar todas essas alternativas, de fato pode haver mortes”, acrescenta a produtora, que faz questão de pontuar que os índices de mortalidade durante as ondas de calor não são uniformes em todas as granjas. “Nesse episódio de 2020, por exemplo, nos saímos bem com as medidas preventivas”, diz.
Com as mudanças climáticas, a tendência é que ondas de calor sejam cada vez mais frequentes. Um relatório global do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em agosto de 2021, indica que a temperatura média do planeta tende aumentar 1,5ºC nas próximas duas décadas, trazendo devastação generalizada por eventos climáticos extremos — períodos prolongados de seca, tempestades e furacões, além de novas ondas de calor.
Em 2018, quando estava defendendo sua tese de mestrado em agronegócio e desenvolvimento na Unesp em Tupã, a 25 quilômetros de Bastos, o pesquisador Daniel Lamarca utilizou as projeções do IPCC da época para analisar cenários de mortalidade de aves poedeiras causadas pelo calor. E a conclusão foi que, para sobreviver, a indústria de ovos vai precisar adaptar parte dos sistemas de produção atuais.
“Algumas granjas já estão iniciando novas plantas de produção em galpões fechados, em um sistema totalmente climatizado, onde a temperatura externa não afeta o ambiente interno. Essa é uma alternativa, porém, que exige investimento alto”, comenta Lamarca. Em Bastos, a preocupação é visível e pelo menos 30% do plantel de galinhas do município já é criado em ambientes climatizados.
Daniel Tozzi Mendes/Agência Pública
Capital do Ovo tem mais galinha que gente
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