sábado, 13 de agosto de 2022

 POR: MICHAEL HUDSON

Eu serei muito injusto e vou lhe fazer uma pergunta grande; vou lhe pedir para tentar respondê-la em pouco tempo, mas você mencionou alguém muito importante no livro, e é alguém que eu penso ser desconhecido por muitos dos nossos ouvintes e espectadores contemporâneos: trata-se de Joseph Schumpeter. Você fala sobre Schumpeter e a ideia da destruição criativa, e este é um dos princípios do capitalismo que eu penso que precisa ser compreendido e discutido a fundo. Como é que a destruição criativa se relaciona com a nossa compreensão tradicional daquilo que poderíamos chamar de economia clássica, ou economia ortodoxa; a segunda parte disso é: como é que o sistema capitalista financeirizado inverteu o conceito de destruição criativa?

Schumpeter tentou colocar as ideias de Marx em uma linguagem de classe média, sem o matiz socialista nelas. Marx disse que "o capitalismo industrial foi uma competição a custo baixo"; e Marx disse que "o capitalismo é revolucionário" e que o que era revolucionário era livrar-se de todos estes custos falsos de produção, os custos desnecessários. A sociedade não precisa de senhorios para produzir. Na verdade, ela não necessita de banqueiros, só para fazerem empréstimos improdutivos. Ela não necessita de monopólios. Os países industriais lutam uns contra os outros para reduzir o custo de produção, de modo que os seus trabalhadores possam custar mais barato do que outros trabalhadores. Na sua maior parte, isto é feito quando o governo paga o custo, como eu mencionei. Veja, quando a indústria do aço nos EUA foi construída, o chefe da US Steel construiu apenas uma fábrica; e daí, de repente, eles ficaram sabendo que os alemães estavam construindo a sua fábrica. Aquela fábrica nova que eles haviam recém-construído foi desmanchada e uma nova fábrica técnica moderna foi construída. Schumpeter disse: "à medida que a ciência avança, o capital se torna cada vez mais produtivo com tecnologias mais avançadas" - isso é considerado na produtividade dos trabalhadores estadunidenses. Mas ele diz que "há novas maneiras de se organizar o capital e, então, você tem uma nova indústria, e uma nova empresa, que vai adotar a nova tecnologia e reduzir o preço pelos quais as empresas antigas vendiam, e serão os inovadores que acabarão vender mais barato do que a velha guarda que não inovou; isso vai baixar o custo e é assim que o capitalismo avança – diminuindo custos. O que você está destruindo é a velha tecnologia que na verdade não se paga mais".

Quando Marx falava sobre a destruição criativa, na verdade ele quis dizer destruição criativa. Em outras palavras, você está destruindo toda uma economia que tinha uma classe de rentistas. Schumpeter só falou sobre destruição criativa tecnológica; ele não virou socialista, nem disse: espere um minuto, o que na verdade você está fazendo como nação é competir com outra nação para minimizar o custo de produção, ao livrar-se da sua classe da mais-valia, livrar-se dos senhorios, livrar-se de todos que não improdutivos e livrar-se dos gastos militares, com efeito. Então, de repente, aquilo que os neoliberais adotaram foi a palavra destruição. Eles disseram que a destruição era algo bom. Uma das maneiras pelas quais nós podemos reduzir custos é desindustrializar os Estados Unidos. Os trabalhadores estadunidenses ganham demais. Vamos reduzir o custo do trabalho. O que nós realmente queremos é exatamente aquilo que o chefe do Federal Reserve quer fazer: causar o desemprego. Marx chamou isto do exército de reserva dos desempregados. Nos anos de 1980 e, especialmente, no governo de Clinton nos anos de 1990, eles disseram: "Nós podemos causar o desemprego permanente, de modo que o capitalista possa realmente ter um custo baixo do trabalho; vamos levar tudo para a China e a Ásia, onde há custos baixos de trabalho". Assim, o que a destruição criativa significava para os neoliberais era "vamos destruir a economia industrial dos EUA e poderemos ganhar dinheiro ao transferir a produção para a China". A China será a inovadora, tendo trabalhadores mais baratos e que não custam tanto quanto os trabalhadores nos EUA. Isto transformou a ideia de destruição criativa de algo que impulsiona as economias a ter mais produtividade, para a desindustrialização – deixando uma economia esvaziada nos EUA.

A outra parte daquilo que deveria ser assinalado é o fato que agora você tem uma economia na qual há milhares, talvez dezenas de milhares de companhias e vários outros empreendimentos que deveriam ter sido destruídos há muito tempo, porém continuam a existir como estas entidades-zumbis que se alimentam do capital.

Muitos destes zumbis são zumbis devido às dívidas que eles assumiram. Tem havido tantos saques corporativos – esta é a outra coisa que ocorreu no governo Reagan. Antes dos anos de 1980, os bancos não emprestavam dinheiro para saques corporativos, isso não era considerado muito bom. Porém, Drexel Burnham a sua empresa jurídica Skadden & Arps disseram: "Vamos começar a tomar empréstimos para comprar empresas; essencialmente, nós podemos saqueá-las por lucro." Eu entro em grandes detalhes neste ponto, como fiz no meu livro anterior 'Killing the Host' e isto se tornou uma aquisição predatória, não uma aquisição produtiva. Os bancos não emprestavam para criar novas empresas; eles criavam dívidas para adquirir empresas e a dívida era adicionada às despesas da empresa, as quais se adicionava aos custos de produção – exatamente o oposto da destruição criativa e de reduzir custos sobre os quais Schumpeter falava. A destruição criativa sobre a qual falava Schumpeter tratava de reduzir custos. A destruição criativa de Reagan e do neoliberalismo é destruir empresas ao adicionar custos e, depois, deixá-las ir à falência depois que você já as saqueou e repagou todo o capital delas para você mesmo.

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