Contradição
E eu fui pra fora […], não fiquei só na luta da Cidade de Deus. É claro que eu participei das lutas de outras articulações, de outros grupos, mas eu nunca saí da base, eu nunca desvinculei, né? E tem uma coisa que eu vou te falar, pode ser errado, pode ser certo, eu fui escolhida durante onze anos para ser porta-voz de um grupo na Cidade de Deus, pra discutir com o governo. Então a gente combinava, eu colocava a proposta de forma mais radical, tinha quem ia fazer a mediação, tudo combinado, até quem ia fazer os acordos, que o governo nunca faz aquilo que a gente tem direito, mas a gente também não pode jogar fora a possibilidade de fazer alguma coisa, porque não é pra nós, é pro morador. Durante onze anos eu fiz e cumpri esse papel e eu percebia que era uma forma da comunidade dizer assim, a gente confia em você. Porque mesmo eles me acolhendo, hora ou outra eles diziam assim: você é estrangeira, você veio de fora. E hoje eu entendo perfeitamente quando os jovens da militância, hoje, dizem quem é raiz. Porque há possibilidade da gente, que veio de fora, tomar o lugar da palavra. Eu acho que essa foi uma contradição. Durante onze anos eles me deram o direito de falar em seu nome. Isso é uma contradição. Eu não deveria ter aceitado, sabe? Eu nunca deveria ter aceitado. Porque hoje os jovens estão dizendo oh, não vem não, é só quem é raiz. E isso tem um simbolismo muito grande, um significado muito grande, que é o lugar da fala. A importância da palavra devida. Pronto.
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