Aprendizado com a juventude
Eu teria aqui uma infinidade de pessoas para te citar, mas jovens também, aprendi muito com os jovens, muito, muito. Aí já é uma coisa minha. Não posso garantir que meus companheiros de luta aprenderam, mas nossa, jovem de favela é um negócio forte, porque tem uma língua que corta. Então quando a gente é incoerente, nossa mãe. Eles jogam na cara assim, você não tem pra onde sair. Ou você reflete, aprende, então aprendi muito com os jovens. Sou marcada por eles. Aprendi muito com umas meninas que tinham ódio de ser negras, ódio, tinham vergonha, não se aceitavam. Também aprendi pelo lado negativo, sabe? Então eu pensava assim, como é que nós podemos fazer pra mudar isso, elas sofriam. Aprendi com meninas prostitutas. Nessa luta da casa a gente encontrou muita menina dormindo em casa durante o dia, mas que não ia na reunião. Quando a gente foi cobrar participação elas explicaram que elas eram prostitutas. E aí você vai ter uma leitura do que é a prostituição e do que é a prostituta explorada na pobreza, geralmente por casas noturnas da milícia. Olha, tem tanta coisa. Eu encontrei um cara, de 44 anos, negro, homossexual, que trabalhava lá na Gávea, numa daquelas, sabe, que não tinha documento rapaz! Não tinha uma… Como é que esse cara sobrevivia? Ele só podia trabalhar à noite. Mas o que que ele já passou na mão da polícia. Mas ele ia montado, então ele ia como mulher. Talvez não tenha passado tanto, né? Mas assim, e você perceber que a dignidade do ser humano tá acima dessas questões, mas precisa disso, de resolver. Nós fizemos com ele um passo a passo e ele depois tirou todos os documentos, pra ser dono da casa. Então, essas são as minhas referências, é quem eu posso citar numa reunião. Às vezes eu não tenho coragem de fazer isso que pode parecer ironia. Tem mais de quinhentos nomes.
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