quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A alegria como resistência

Vou te dizer assim, eu sei fazer um discurso extremamente radical, sectário, se precisar, no sentido de ir fundo na raiz com as palavras certas. Eu aprendi na Cidade de Deus que você deve considerar a vida, a realidade das pessoas, a subjetividade da vivência que elas têm e como é que elas compreendem o mundo. Então a linguagem é essa linguagem da vida. E tem uma coisa na Cidade de Deus que é assim, o povo é resistente e alegre, é um desaforo a alegria das pessoas, gostam de música, de uma multiplicidade de gostos, é bem eclético. Gostam de ouvir música alta. Tem gente de todas as religiões. Então assim, o que que marca essa comunidade? Como é que ela resiste se ela não tem uma base de estrutura de resistência? São várias resistências. Resiste no futebol, resiste na capoeira, resiste no judô, resiste no grupo de teatro. O teatro do jovem é uma coisa e tal. A igreja mais antiga, mais tradicional, resiste de um jeito, as mais jovens resistem de outro. O pessoal das associações de moradores se vincularam mais ao tráfico de drogas. Então outros grupos se organizavam, outros grupos…. Como é que você compreende essa resistência? No caso da Cidade de Deus tem várias questões que fundamentam isso, que estão na memória da comunidade, certo? Vieram de cinco favelas, grandes favelas, e de 57 pequenas favelas. Foram misturados quando na favela eles faziam resistência, faziam oposição, estavam votando na esquerda. Então vem a Ditadura e uma das formas de tirar força dessas favelas foi misturar e colocar num conjunto habitacional, onde eles estão próximos demais, mas desunidos. Depois o tráfico veio na década de 70 e divide a comunidade em quatro áreas, e proíbe os moradores de circular. E aí o governo vem e negocia com as associações de moradores, quem é do partido tem, quem não é do partido, não tem. E começa a fazer ações pontuais.

Então, se não é a memória, se você não ouve a oralidade, as histórias, se você não compreende, você não dá conta de perceber a multiplicidade de resistências que tem numa comunidade. Porque senão você pode falar assim, é só o pessoal do partido político que resiste. Isso não! Quando as mães se reúnem e uma mãe é crecheira, pra que as outras possam trabalhar, e não tem creche suficiente, ela tá fazendo resistência, porque ela tá buscando a sobrevivência com um pouco de dinheiro das mães, mas ela tá possibilitando que as mulheres possam sair. Não tem creche suficiente, nunca terá, certo. Então assim, a leitura de como a comunidade resiste, a leitura de que a alegria faz parte de um processo de resistência, que o futebol, a cerveja, não é alienação, você só vai compreender se olhar a origem, os vínculos que as pessoas estabelecem, o que que elas trazem da história. A memória é fundamental pra gente entender hoje, sabe, pra gente entender os desafios, pra gente entender a diferença.

 

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