Atuação nas Pastorais
Dentro da igreja passei de ser participante pra ser de grupo de formação. Passei a andar pelo Rio de Janeiro trabalhando com mulheres, trabalhando com trabalhadores, trabalhando com o pessoal que tava preparando a Pastoral da Criança, sabe, e o tema que eu trabalhava sempre era fé e política. Mas, por exemplo, vou te falar, com o pessoal da Pastoral da Barra da Tijuca, Pastoral Operária e a Pastoral da Cidade de Deus, trabalhei muitos anos visitando as churrascarias na Barra da Tijuca, que traziam jovens do Rio Grande do Sul, que viviam como escravos nos alojamentos. A gente invadia os alojamentos e discutia com eles todo direito, e na construção civil, na Barra da Tijuca, a gente invadia à noite, entrava escondido, enfrentava vigia. Ia lá no alojamento mostrar como eles tavam sendo explorados e estabeleceu um polo, né. E a gente fazia contato com as famílias que estavam no Rio Grande do Sul e o pessoal da construção civil, no Nordeste. Então, sabe, quem tava na Pastoral Operária na Cidade de Deus era um grupo de pessoas. Na Barra da Tijuca eram professores da PUC, então assim, era tudo junto e misturado. [risos] Era multidisciplinar, intersetorial. A gente discutia também, tem uma marca… na Cidade de Deus, a gente não se articulava assim, pra fora, politicamente, era muito lá dentro, a Pastoral é que tinha essa questão da igreja ser universal, não é a Igreja Universal do Reino de Deus, mas o mundo, né, que é o espaço da igreja, então a gente saía para fora, mas politicamente a gente ficava mais fechado. Não sei se isto fez com que a gente contribuísse para o isolamento da Cidade de Deus, sabe, porque ela é um gueto até hoje diante da Barra, Freguesia, Pechincha, Tanque, Barra da Tijuca, Recreio. A gente viu toda essa área se desenvolver e a Cidade de Deus se transformou de um conjunto habitacional para uma refavela. E talvez porque nós nunca fizemos muita articulação pra fora. Grupo de teatro ia pra fora, passava o diabo, mas não trazia essa articulação pra um debate mais amplo, pra o que hoje se acredita, na importância da rede, das articulações, das teias, onde você discute com outras comunidades. Por outro lado, nós fomos pra vários lugares, no país e no mundo, falar da nossa experiência, entendeu, e eu fui uma das pessoas que era escolhida pra ir. Então fui pro México, fui pro Canadá, fui pra Guatemala, fui pra várias experiências internacionais levando o que a gente pensava do mundo. Embora a gente ficasse no gueto, a nossa luta era articulada com o que a gente achava que deveria transformar no mundo para que a gente não fosse tão pobre.
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