quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

A luta política

[Eu] entrei na luta por moradia pra resolver uma questão de quadra, passados uns oito meses eu estava na coordenação da luta de habitação do Conselho de Moradores da Cidade de Deus. Passado um ano e uns meses, eu já estava disputando na chapa pra ser vice-presidente e depois fui presidente do Conselho de Moradores e do Conselho de Moradores pra Zonal da FAMERJ. Aí fui da coordenação da luta por transporte, da luta por educação, saúde, sabe, uma coisa vai levando à outra, e pra FAMERJ, aí participei da luta na FAMERJ da habitação. Mas é tudo misturado, daqui assim, foi misturando, eu fui ampliando minha visão, fui aprendendo ao mesmo tempo que eu percebi que tem uma limitação na luta comunitária. Na época em que eu estava na luta a gente fazia muita denúncia. O forte era fazer a denúncia, o discurso legal era fazer denúncia, aquela coisa toda, e a gente era bom de fazer denúncia na Cidade de Deus, a gente já fez secretário do governo chorar, já passou aperto, prefeito e tal, mas nos grupos de estudo que nós tínhamos, porque tem uma coisa que eu acho importante falar, eu nunca fiz nada sozinha nem aprendi sozinha, mas como eu era viúva minha casa era um centro de reunião, porque as nossas instituições não tinham sede, a sede era onde a gente pudesse reunir. Era na igreja, no posto de saúde, era na rua, né, e a minha casa virou um centro de estudos. Vários temas que nós tínhamos que aprofundar, nós convidávamos alguém de fora, que tinha conhecimento acadêmico, a gente pegava um texto sugerido por nós, porque tinha universitários no nosso meio também, né, e a gente fazia teoria e prática, sendo que a prática, sendo que a prática era o que a gente fazia, a teoria como o mundo estava, como o país estava, quais as correlações de forças onde a gente estava. A gente tinha uma preocupação de não reproduzir.

Então, aí eu descobri o partido político, que a luta comunitária naquela época que era só de denúncia, não era o suficiente para as repostas que a gente precisava, e aí também me filiei ao PT [Partido dos Trabalhadores], na época, mas aí já é em 82, então me filiei em 82 e vivia essa luta, sabe, mãe, dona de casa, a igreja católica, Teologia da Libertação, militante na Cidade de Deus, aí entrou rádio comunitária, também fui da coordenação da equipe do colegiado da coordenação da rádio, fazia programa de rádio, a gente bateu recorde na Cidinha Campos, no Haroldo Barbosa, nós éramos uma rádio muito ouvida, tanto é que a polícia federal foi lá e fechou como que a gente fosse os bandidos mais perigosos. Uma porção de cara com touca ninja, com metralhadora, né, levaram o DJ que tava lá operando na hora que não tinha programação, sabe. Então assim, eu tinha muita experiência em vários níveis de militância, com grupos que tinham também outras tradições, né, porque tem uma coisa forte na Cidade de Deus que eu ficava um pouco fora, até que eu consegui me incluir pela leitura mesmo, que é a questão da negritude, sabe, é muito forte. Eu participei de vários grupos de estudo sobre a questão dos negros, das mulheres negras, da desigualdade, e isto era muito forte. O grupo de teatro Raiz da Liberdade, eu assisti uma peça que eles fizeram que aquilo foi uma punhalada, sabe. Aquilo que a gente discutiu outro dia, no nosso grupo de estudos, sobre branquitude, eu aprendi na marra, na marra, na dor, que mesmo pobre, o fato de ser branca me trazia privilégios mesmo na pobreza. Então assim era esse… eu quero te dizer que tudo o que eu fiz foi aprendizado coletivo, tudo, tudo. Agora eu tinha uma facilidade de aprender, de articular o conhecimento, comecei a ser convidada para ir pra fora, pra falar.

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