quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

A costura entre luta e comunidade

É muito interessante porque num primeiro momento as pessoas tinham medo de mim. Eu conseguia dialogar muito com os jovens, mas havia coincidências, por exemplo, um padre conservador foi pra Cidade de Deus e acabou com várias pastorais, inclusive a do medo, da juventude, do operário, a Pastoral Operária, da empregada doméstica, esse pessoal veio todo para a militância política, né, porque perdeu espaço na igreja e vem todo pra militância política. A minha casa era uma referência. Aí as outras mães que viam como é que eu aglutinava, achavam que eu era perigosa. Depois que conheciam, que eu era uma dona de casa, que eu fazia comida, que eu fazia pudim, sabe, que eu fazia couve picada na mão, essas coisas que você vai conversando de dona de casa, que eu procurava também comprar a comida mais barata, essa coisa de dona de casa, de pessoa na vida mesmo que todo mundo tem que enfrentar, que vai pra fila no postinho, que dá vacina do filho no postinho, vai trazendo as pessoas, mas a gente nunca conseguiu atingir a maioria. O grupo que se organiza e reflete numa comunidade não consegue atingir a maioria, porque a medida que a gente vai articulando, uma coisa muito séria isso, a medida que a gente vai articulando os conhecimentos, a gente vai ficando com o conhecimento além, sabe, e aí você tenta mobilizar gente com o conhecimento além também. A gente vai perdendo um pouco esse foco de que nem todo mundo na comunidade entende as coisas do jeito que a gente entende, sabe, esse erro a gente cometeu. Se bem que eu sou uma pessoa muito de base, muito cuidadosa com isso, sempre, sempre me coloco em qualquer lugar que eu estou. Na vida eu me coloco do ponto de vista de quem tem o conhecimento na média. Tenho uma linguagem fora dos bordões da esquerda, sabe, que concebe a realidade de acordo com os mitos, folclore, a cultura que vem, e que isso tem que ser considerado, não é? Pra mim não é a academia que pauta a vida. Ela pode contribuir, e se ela tiver vinculada a uma realidade muito na base ela perde seu papel na história da humanidade…

Então valorizar as pessoas que estão começando, possibilitar que elas tenham oportunidade de ir, de aprender, de viajar. Não disputar com ela o lugar, isso tudo é um aprendizado e um cuidado que eu tenho e que ajuda o grupo. Sempre ajudei o grupo. Ah, outras coisas também, nós fizemos coisas muito audaciosas na Cidade de Deus. Por exemplo, quando o Lula foi eleito, nós organizamos um debate, né, estabelecemos as questões estruturantes que dependiam do governo federal, fizemos uma comissão e fomos pra Brasília, passar dois dias em Brasília, e passar de ministério em ministério para colocar nossa pauta política, sabe, falar com o ministro. É claro que nós conseguimos vinte por cento daquilo que a gente queria e pensava, mas nós fomos lá. O segundo passo eles tiveram que ir na CDD […]. Nós aceitamos, por exemplo, a construção de 618 casas que a gente conseguiu negociar com a Caixa Econômica Federal e repassar o dinheiro pra prefeitura, a gente não pode fazer a gestão, mas a gente ficou com o controle da negociação com a construtora, com a prefeitura, com a Caixa, tudo, e a gente descobriu todas as articulações que passam por baixo dos panos dessa força política da construção. Então é um aprendizado assim, qual é a articulação com os moradores nesse momento? As duas meninas que eram da comunidade que tavam fazendo Serviço Social e que foram contratadas junto comigo, elas assumiram a direção do projeto. Eu fiquei como auxiliar. Elas eram da comunidade, tinham que ter mais voz, mais peso político e a possibilidade de aprender no processo.

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