quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

Lembrança das companheiras

[…] Eu convivo muito no ambiente da academia, né, muito. E é muito comum as pessoas citarem pensadores pra poder reforçar uma ideia, dizer que ela está fundamentada numa pesquisa, e tal. Eu posso citar o tempo todo da minha fala pessoas que são, que foram importantes e que trazem verdades, sabe, e que eu trouxe e que coletivamente nós absorvemos e passou a ser nosso porque conhecimento é isso, ele contamina, né, ele passa a ser coletivo, mas tem pessoas assim, maravilhosas. Da igreja, os padres, que estavam com a gente na luta. Nós tivemos um padre que era, ele era motorista das nossas mobilizações, e ele ficava com a gente lá, de chinelo, de short, aí quando o governo errava muito a mão pra ser agressivo com a gente, a gente dizia “padre, o senhor tá ouvindo?”, aí o governo mudava na hora. [risos] Padre Júlio que celebrava no meio do nada, sem igreja, mostrando o que que é a verdadeira igreja. Eu tenho nesse aprendizado, não é meu só não, de um grupo, Pastor Barbosa e alguns pastores que tavam na luta com a gente, sabe. Teve um pastor que chegou recentemente lá da Bahia, sabe, que todo lugar que a gente ia na reivindicação ele ia junto. Ele não se identificava como pastor. Ele tava ali com a gente. Ele dizia que isso dava sentido à fé dele, sabe, que é uma postura diferente do que a gente as vezes acusa e tal. Tem umas mães de santo que tavam na luta com a gente, sabe, Obá, nossa, que mulher! Na luta, discutindo, indo, garantindo presença, chamando as pessoas pra tá junto, porque tem reunião que é muito importante ter número pra você impressionar, então a Obá fazia esse papel. Mas moradoras, moradoras que vieram do Nordeste, que já tinham sido expulsas da terra, que moravam no campo, que perderam suas casas, homens, sabe?

Mas no meu caso assim eu aprendi mais com as mulheres, Diléa que tinha treze filhos, rapaz, treze filhos! Ela ia em todas as reuniões, todas! Depois tocou o marido de casa porque ele queria mais filhos, mas não tinha dinheiro, tava desempregado, sabe? Ela tava na luta de habitação, era coordenadora da quadra dela, trabalhava, criava os filhos, sabe. A Sandra, ai que saudade, vai me dar vontade de chorar. A Sandra era semianalfabeta quando começou com a gente. Percebeu que tinha que estudar, foi até o segundo grau. Quando ela não entendia, ela anotava tudo, depois ela ia pro dicionário pra saber aquilo que a gente tava discutindo, sabe, até que um dia ela falou e a gente prestou mais atenção nas palavras que usava. Mas aquele povo que veio de fora, que trouxe, eu lembro de cada um. Seu João, Dona Severina, Dona Zuleide, assim, que a gente foi aprendendo de cada uma, sabe?

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