Política e afeto
Eu sou tão assim, eu acredito tanto nisso, eu fui uma das primeiras pessoas que busquei a história, pra poder compreender, quando eu achava que as respostas não eram como a gente esperava. Também eu quero te dizer que eu já fiz reunião quando eu fui presidente do Conselho de Moradores, eu já fiz reunião com três mil moradores. Eu tinha um orgulho disso danado que eu fazia sem microfone. Eu achava que eu era foda! [risos] Três mil moradores, porque a gente tava trabalhando com uma questão vital pra eles que era as casas deles, fazer reforma nas casas mais pobres, nas pontas, naquelas chamadas triagem. Aí eles iam na reunião porque eles tinham interesse em resolver. Mas se a gente chamasse pra discutir o posto médico, ia cento e cinquenta moradores, entendeu? Atingia todo mundo mas ia cento e cinquenta, porque a casa é maior, na cabeça das pessoas, do que o posto de saúde. Pra discutir o esgoto, que tava correndo a céu aberto e tudo, a gente conseguia aglutinar muita gente, porque trazia doença pras crianças. Mas assim, eu sempre me perguntava porque as pessoas não se unem, se é uma pobreza só. E aí eu tive que me debruçar nessa história pra poder entender. Eu fui entender que a divisão é um investimento que o governo sabe que tem consequência, porque ele pode promover a desunião, então ela é programada. Como o primeiro vínculo que você estabelece, não adianta, vai ter gente que não vai concordar comigo, mas eu tenho convicção nisso, é afetivo, sabe? Quando eu fui presidente do Conselho de Moradores e fiquei um ano desempregada, que eu perdi o emprego porque eu fui candidata, os maristas me mandaram pra rua, eu visitava cada morador. Eu era presidente da instituição, eu visitava o morador, sabia quem tava doente, quem tinha operado, quem tava gripado, quem morreu. Eu andava nas áreas que a gente tinha luta, eu sabia nome por nome de todo mundo, eu estabelecia o vínculo de amizade, o vínculo afetivo ele vem primeiro do que o vínculo da consciência política. Outra coisa, quando a gente tinha um assunto muito difícil pra resolver, de contradição entre nós mesmos, a gente fazia uma mesa, a gente comia junto, cada um trazia um pouco, sabe? A gente usava muito essa técnica pra poder comer junto, porque quando você come junto, você não vai brigar pra resolver problema, você vai dialogar. Então a memória do que você foi no passado te ajuda a entender que futuro você pode construir. E você sabe as dificuldades e as debilidades. Tem uma questão na memória da Cidade de Deus que foi responsável por muitos erros. A militância comunitária se confundiu muito com a militância político-partidária. E a representação dos moradores tinha uma conotação muito mais político-partidária, então tinha o pessoal do PT, tinha o pessoal do PCdoB, tinha o pessoal do PDT, tinha o pessoal do PCB. Ao ponto […] que uma vez, a gente organizando o congresso da FAMERJ em 1989, eu estava participando, o Almir Paulo estava participando, o Edson Santos estava participando. Eu tava representando no congresso da FAMERJ, olha que erro, o PT, o Almir, o PDT, o Edson Santos tava no PCdoB. Nós éramos três diretores do Conselho de Moradores da Cidade de Deus, estávamos organizando um congresso da FAMERJ, representando três linhas políticas diferentes. Hoje eu percebo que é um erro. A gente não deveria ter… e isso acaba refletindo na comunidade, entendeu? Acaba refletindo, as pessoas conseguem perceber. Então o que deveria nos unir é a luta. Teve uma hora que o que nos dividia era o partido. Se eu não tivesse esse olhar na memória, eu não teria essa consciência hoje. Então assim, é fundamental, eu acho fundamental a memória de todas as favelas, porque embora seja o mesmo capitalismo, o mesmo neoliberalismo, as mesmas forças que produzem as iniquidades, é a mesma desigualdade, cada uma tem uma história diferente, tem um DNA diferente. De acordo com o jeito que a gente enfrenta, você dá substância à luta ou não. Se você reproduz durante muitos anos sem perguntar o que a gente tá fazendo, você atrasa o processo. É isso.
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