quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

Refavela

Se eu falar em algum lugar na Cidade de Deus que a Cidade de Deus é favela, eu posso até apanhar, porque tem gente que não aceita e diz que é um conjunto habitacional. Se eu for em outra área e falar que é um conjunto habitacional, as pessoas reagem porque dizem que é bairro, porque é bairro desde 1998. Mas o centro é bairro, o centro, as áreas mais pobres de periferia e as favelas, que estão no entorno, são favelas. Tem um grupo que aprendeu um conceito que a gente aplica, que é refavela, tá na música do Gilberto Gil, Refavela. O que que é esse lugar? É um lugar que foi feito pra receber o pobre, que foi colocado no processo de limpeza do Rio de Janeiro distante do centro de desenvolvimento, num bairro que era destinado à colônia de loucos, do pessoal que tinha hanseníase e dos tuberculosos, portanto a Zona Oeste da doença, no lugar dos pobres, e que foi crescendo esse lugar, essa Zona Oeste, por causa da Barra da Tijuca, por causa do Recreio. Foi sendo o centro do desenvolvimento ao mesmo tempo que, como espaço de estoque de mão de obra barata, foi continuando pobre, não é, foi empobrecido, porque nenhum investimento foi feito na infraestrutura. Ela ainda tem a infraestrutura original do saneamento de esgotamento sanitário condominial, os canos ainda são de ferro, passam nos quintais. Aí os moradores ampliaram suas casas e cobriram as caixas de esgoto. Então é toda ela inundada no esgoto, né? Aí o esgoto que ia para uma lagoa aeróbia vai direto pro rio, quando o rio enche o esgoto volta pra casa, pelo vaso sanitário. Tem só uma escola, desde a origem, de ensino médio, com 150 vagas no curso noturno de contabilidade e tem 26 turmas […], portanto, quem quiser estudar na adolescência tem que sair do bairro. Isso é desde a origem, há mais de 50 anos. Então o Estado reproduz lá o funil, que faz a mão de obra barata estar a serviço do sistema. Nós temos todas as adequações que foram feitas pro serviço de saúde, no entanto, nós temos uma população invisível, que se o IBGE conta só o bairro ele ignora as favelas, e tem mais de 28 mil moradores invisíveis, e isso implica numa demanda para o serviço público que bate recorde, mas não resolve a questão. Com a mudança da força do transporte lá era ponto final de várias linhas que conectavam a Cidade de Deus em vários bairros, mudaram os pontos, passou a ser espaço só de transição, e os moradores foram prejudicados na única vantagem que tinham. Não tem o título de propriedade a maioria, e essa vulnerabilidade está ligada a uma ideia de que, se um dia precisarem desse espaço, vai ficar muito fácil tirar os moradores, porque eles não têm garantia nenhuma, a não ser a própria resistência. A resistência que não vai deixar tirar. A TransOlímpica não passou pela Cidade de Deus e o VLT por causa da força da Cidade de Deus, que se não, tinha passado. A Linha Amarela já tirou uma parte dos moradores, né?

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