sábado, 13 de agosto de 2022

 

Michael Hudson explica o capitalismo financeiro e aponta fim da globalização

Publicado em 12/08/2022Escrito por  Eric DraitserLido 419 vezes

Michael Hudson fala sobre o capitalismo financeiro, as consequências econômicas da Ucrânia e o fim da globalização

A História do Capitalismo Financeiro

Michael Hudson é o presidente do 'Institute for the Study of Long-Term Economic Trends' (Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo-Prazo). Ele é um economista e autor. Todos vocês provavelmente já o conhecem pelo seu mais famoso livro, ''Super-Imperialismo: A Estratégia Econômica do Império Americano", um clássico que influenciou muitos a pensarem. E, logicamente, o seu mais recente livro, publicado pela CounterPunch: 'Destiny of Civilization: Financial Capitalism, Industrial Capitalism, ou Socialism' (O Destino da Civilização: Capitalismo Financeiro, Capitalismo Industrial, ou Socialismo') – disponível na CounterPunch

DRAITSER: Muito obrigado por me dar um pouco do seu tempo e por este importante livro – porque ele provê um tipo de perspectiva de longo-prazo que eu penso que nós realmente precisamos para compreender tudo que ocorreu do ponto de vista econômico, imagino, no período moderno. Então, comecemos falando sobre isto. O livro começou como uma série de palestras sobre a globalização dos EUA, o papel da China e o seu desenvolvimento, porém parece que se expandiu dali para incluir o tema do capitalismo financeiro versus o capitalismo industrial. Imagino que poderíamos começar dali e ouvir a sua explicação sobre esta justaposição. Quais são as diferenças? Como podemos compreender estas duas ideias?

HUDSON: A maioria dos livros-texto sobre o capitalismo industrial falam dele como se a função dos bancos fosse a de dar empréstimos às fábricas, para construir as suas instalações e adquirir equipamentos, contratar mais trabalhadores para produzirem bens e manter a economia funcionando – e isto é o que todos esperavam que os bancos fizessem no final do século XIX. Eles esperavam que os bancos deixassem de emprestar apenas aos governos e serem predadores; de alguma maneira, que eles se tornassem parte da economia industrial. E isto estava ocorrendo na Alemanha até a Primeira Guerra Mundial; porém, depois da Segunda Guerra Mundial, os rentistas revidaram. Os bancos se fundem com os negócios imobiliários. A luta da economia clássica e do capitalismo industrial era se desvencilhar da classe dos proprietários de imóveis, livrar-se de tudo que aumentasse o custo de vida dos trabalhadores – de modo que eles pudessem pagar menos aos trabalhadores; não para baixar o nível de vida dos trabalhadores, porque eles sabiam que, se você contrata trabalhadores e você quer ter trabalhadores de alta produtividade, eles têm que estar bem alimentados, bem educados, bem vestidos e ter boas habitações. Porém, com certeza nos EUA e na Alemanha, a classe industrial queria que o governo pagasse o mais possível destes custos. Eles queriam que os governos pagassem pela educação – e é isso que você tinha nos EUA. Na Inglaterra, eles queriam que o governo pagasse pelos serviços de saúde; foi um primeiro-ministro conservador, Benjamin Disraeli, que disse: "... a saúde é tudo, é isso que realmente devemos fazer". Assim, havia saúde pública, havia aposentadorias públicas na Alemanha sob Bismarck para ajudar a construir a classe trabalhadora industrial. E o objetivo era transformar cada economia industrial em uma economia de baixo custo, livrando-se dos rentistas, livrando-se dos donos de imóveis. Não há necessidade de se ter uma classe que só coleta renda, sem contribuir à produção. Não há necessidade de uma classe de banqueiros, nem de monopolistas.

Bem, no final do século XIX todos pensavam que o capitalismo industrial estava evoluindo naturalmente para o socialismo, e que havia muitos tipos diferentes de socialismo: havia o socialismo cristão, o socialismo anarquista, o socialismo marxista, o socialismo das cooperativas; porém, sendo de uma forma ou outra, todos pensavam que o governo cobriria os custos dos monopólios naturais e das necessidades básicas. Tudo isso mudou após a Segunda Guerra Mundial; e mudou de verdade após 1980, com Margaret Thatcher e Ronald Reagan. E, àquela altura, a classe financeira havia se fundido com a classe dos negócios imobiliários, à medida que os senhorios foram eliminados, por causa dos impostos e toda a mudança política: se houvesse habitação ocupada por proprietários privados, isso era a democracia. Mas se você é um indivíduo, como é que você consegue ter uma casa? Você deve ir a um banco. Assim, enquanto o capitalismo industrial se livrava da classe dos senhorios, o capitalismo ainda tinha renda econômica; porém, ao invés da renda ser paga aos senhorios, agora ela passou a ser paga aos bancos, na forma de juros.

Na verdade, a maior parte da mais-valia econômica atual não toma a forma de lucros; ela toma a forma de pagamentos de juros e taxas financeiras. Na verdade, se você é uma empresa de cartões de crédito, as suas taxas e multas por atrasos rendem ainda mais lucro do que a taxa de juros; e o PIB e as contas de produtos tratam a as taxas e multas por atrasos e os juros como se fossem contribuições à produção, e eles contam todo o dinheiro que vai para os monopólios e para os senhorios como contribuições à produção e rendimentos, quando, na verdade, isso é uma transferência de pagamentos – é uma taxa de overhead, que é como os economistas clássicos tratavam de tudo isso.

Então, de alguma maneira, ao invés de ter o capitalismo industrial evoluindo ao socialismo, nós tivemos o capitalismo financeiro – cuja política não é a de elevar os padrões de vida, mas de impor um programa de austeridade tipo-FMI. E é isto que temos nos EUA atualmente, especialmente desde 2008 e o colapso financeiro. A economia dos EUA e a economia da Europa têm estado numa deflação da dívida, apesar do fato que os nossos preços estão aumentando; os preços que estão aumentando são os preços monopolistas da indústria da energia e preços monopolistas para os cuidados médicos. Porém, os lares de família são deixados com cada vez menos dinheiro depois de pagarem financiamentos, depois de pagarem seguros e depois de pagarem por habitação; elas têm cada vez menos dinheiro para gastar em bens e serviços. Então, é por isso que a economia está sendo espremida atualmente; o meu livro explica como esta transformação ocorreu. Nós não estamos num tipo de capitalismo que está nos livros-texto, e nem realmente aquele que Marx e os socialistas esperavam ver.

No volume três do O Capital, Marx descreveu a estória de horror daquilo que aconteceria com o capitalismo financeiro; e depois ele expressou a esperança que "o capitalismo industrial evitará que isso aconteça e, afortunadamente, com o capitalismo industrial nós tornaremos os bancos parte do financiamento da produção real". Mas não é isso que os bancos fazem. Os bancos dão empréstimos preferencialmente contra ativos e propriedades que já estão instalados. 80% dos empréstimos são para hipotecas de imóveis; o resto são empréstimos para especulações com aquisições corporativas, empréstimos que são garantidos por ações e títulos financeiros; obviamente, é nisso que o banco central estadunidense tem gastado US$ 9 trilhões só para cobrir ações e títulos financeiros e hipotecas-lixo e títulos-lixo. Então, estando tendo uma perversão de tudo que o capitalismo prometeu ser; e isto resulta em que o caminho para a escravidão, literalmente o caminho para a servidão, não é um estado forte, como Hayek disse, mas é um estado demasiado fraco para controlar o setor financeiro e guiá-lo para servir à economia como um todo.

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