WikiFavelas: Memórias e lutas das mulheres na refavela
Dicionário Marielle Franco narra a trajetória combativa de uma liderança da Cidade de Deus. Ela mostra que o resgate da história local, a alegria e o senso coletivo podem coser lutas sociais e comunidade. Mulheres e jovens estão na linha de frente desta trama

Cleonice Dias em entrevista a Gabriel Nunes Nobre
“Um símbolo de resistência e de amor”. Assim Anielle Franco define a estátua de Marielle Franco inaugurada no centro do Rio de Janeiro no último dia 27 de julho. Na data, Marielle completaria 43 anos. Leonina, como ela gostava de lembrar sempre, a vereadora tornou-se símbolo de milhares de lutas por justiça mundo afora e, agora, está eternizada no Buraco do Lume, local que foi intensamente ocupado por ela, toda sexta-feira, nas prestações de conta semanais de seu mandato como vereadora da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A inauguração da estátua nos lembra que as mulheres negras estão ocupando o poder mais do que nunca e têm um papel histórico na linha de frente das resistências Brasil afora.
Ao longo das últimas décadas, tornou-se impossível falar em resistência e memória nas/das favelas sem fazer referência à organização de mulheres como forma de resposta à violências que são perpetradas diariamente pelo Estado. Em função do acirramento das políticas públicas de segurança altamente letais, vemos mais coletivos surgindo como resposta às duras e violentas chacinas. Um exemplo são os movimentos criados em resposta às chacinas ocorridas no Rio de Janeiro no último período, quase integralmente protagonizados por mulheres, muitas delas mães vítimas de violência de Estado.
Algumas das protagonistas dessas lutas foram homenageadas, na semana em que se comemorou o Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, com a inauguração do Memorial Mulheres Negras e Faveladas na Luta Contra a Militarização. Situado na subida do Morro da Mangueira, o memorial – idealizado pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial – ratifica e reconhece a luta das mulheres que estão na linha de frente pelo direito à vida nos territórios favelados, além de transformar as nossas lutas em memórias vivas, como sintetizou Gizele Martins, uma das homenageadas.
A estátua de Marielle e o memorial das Mulheres Negras e Faveladas na Luta Contra a Militarização são exemplos de muitas outras iniciativas que têm surgido nos últimos anos para fortalecer a luta pelo direito à memória e pela celebração da identidade favelada. Vale lembrar que a memória é um processo em construção permanente que ocorre por meio dos atos de transmitir e de receber, passando pela nominação que expressa o reconhecimento da existência do outro (Candau, 2016). Já o processo de identificação se situa no binômio transmissão (via socialização) e recepção, de forma transitória e incompleta, mas não passiva, já que implica no acionamento, seja do esquecimento, seja da lembrança. Como aponta Hall, “a identidade torna-se uma ‘celebração móvel’ formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente” (Hall, 2006 apud Souza, 2014: 13).
Trata-se de um processo dialógico dentro de uma comunidade que partilha sentidos. Sendo a memória mais um enquadramento do que uma reconstituição fiel, memória e identidade se entrecruzam, pois não há busca identitária sem memória, assim como a busca memorial é sempre acompanhada de um sentimento de identidade (Candau, 2016: 9 e 19).
No processo de construção de identidades, é possível notar “o fenômeno no qual cada vez mais há a incorporação de grupos tidos como marginais à memória nacional por meio de sua mobilização em um contexto de construir caminhos para obtenção de direitos” (Amoroso, 2015: 106). Na visão de Grynspan e Pandolfi (2007), essa situação tem alterado a própria noção de patrimônio histórico e cultural, uma vez que novas memórias, como as das moradoras de favelas, têm reivindicado seu espaço para existir na arena pública (Heymann, 2007).
Como lembram Fleury e Menezes (2022), no caso das favelas, a permanente construção de uma memória coletiva sobre esses territórios é parte do processo de positivação da identidade da população favelada, bem como da luta pelo reconhecimento e pelos direitos de cidadania a uma cidade inclusiva. Nesse sentido, a luta pelo direto à memória nas — e das — favelas não pode ser compreendida sem que lembremos o quanto os moradores desses territórios tiveram — e ainda têm — de lutar para (re)existir e mostrar que a favela e os favelados, além de carências, também possuem múltiplas potências. Isso ainda é necessário porque, há mais de um século, esses territórios fazem parte da paisagem carioca e são tratados no debate público como um problema para a cidade.
O pesquisador do Dicionário de Favelas Marielle Franco, Gabriel Nunes, em seu Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro – intitulado Memórias faveladas: as narrativas de Cleonice e Marilene sobre si e seus territórios – defende que para lutar contra o epistemicídio e a subalternização dos saberes negros, femininos e periféricos, é “fundamental iniciativas que deem visibilidade para outras experiências de vida e de saberes, ultrapassando a lógica colonial da individualidade e fortalecendo o senso de coletividade. Este fortalecimento passa necessariamente pela tomada de consciência da memória ancestral dos territórios e dos povos, processo que revela potencialidades e permite pensar novos caminhos para um outro futuro”.
No Dicionário de Favelas Marielle Franco, podemos acompanhar muitas histórias de resistência de moradoras de favela. Destacamos hoje uma entrevista publicada no Wikifavelas que foi realizada por Gabriel Nunes – como parte de seu TCC – com Cleonice Dias, importante liderança comunitária da Cidade de Deus, que foi uma das idealizadoras do Dicionário de Favelas e faz parte da equipe do projeto. A entrevista apresenta Cleonice não só a partir de suas singularidades, mas principalmente a partir de seus pertencimentos, de seus fortes vínculos com a família, os vizinhos, a comunidade e a cidade. Apresentar essa história repleta de conquistas, afetos, solidariedade, lutas e resistências, a partir da própria voz de Cleo, é uma opção política que visa dar espaço a outras narrativas de construção da cidade que não retratam as favelas somente a partir do signo da falta ou da morte, mas sobretudo a partir da vida que pulsa nas favelas e em suas moradoras. (Introdução e seleção: Dicionário de Favelas Marielle Franco)

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