Democracia sempre!Em 1977, eu estava no último ano do ensino médio e tinha uma esperança danada. No susto da adolescência, enxergava as primeiras luzes daquele que haveria de ser o “outro dia” de Chico Buarque, apesar do horizonte mais do que carregado da ditadura. No dia 1o abril daquele ano, descumprindo a promessa de “abertura política”, o general Ernesto Geisel fechou o Congresso por duas semanas e baixou o pacote de abril (uma emenda constitucional e seis decretos) que adiou as eleições diretas para o governador (suspensas desde 1964), instituiu “senadores biônicos” e deu o controle do Congresso à Arena, o partido da ditadura, que havia sido estrondosamente derrotado pela oposição nas eleições parlamentares de 1974.
Mas algo fazia brilhar meus olhos de aspirante a universitária. Dois dias antes, em 30 de março de 1977, os estudantes da USP haviam saído da Cidade Universitária em passeata até o Largo de Pinheiros. Foi um trajeto curto, tenso e com grande impacto: era a primeira vez em 9 anos que os estudantes voltavam às ruas no país. E o retrocesso político não haveria de conter a juventude, ao contrário. Menos de um mês depois do pacote de abril, no dia 5 de maio, após a prisão de quatro estudantes no ABC, 10 mil jovens saíram novamente em passeata, desta vez do Largo de São Francisco, no centro de São Paulo, com a intenção de chegar até a praça da República. Foram detidos antes, quando caminhavam no viaduto do Chá rumo ao Teatro Municipal, e cercados pelas tropas do coronel Erasmo Dias, que as comandava a 1 km dali, instalado em uma mesa no restaurante francês La Casserole.
Em meio aos cavalos e às bombas de gás, deu-se a “cena”, como relembrou a então líder estudantil, Vera Paiva, do DCE livre da USP, em entrevista concedida em 1994: “Quando a gente estava chegando no Teatro Municipal, vem o Erasmo e fecha tudo e joga bomba. Dois ou três colegas desses grupos mais radicais chegaram a pegar a bomba para jogar de volta. E a gente gritando: ‘senta, senta!’. Sentou todo mundo, aí se viu a cena. Lemos a carta em voz alta. O povo em volta aplaudindo e lendo junto, porque a gente distribuiu, fez pra distribuir. Então, as pessoas que paravam ali tinham a carta na mão”. O título da carta, repetida em coro por milhares de pessoas, é: “Hoje, quem cala consente”.
Assim como a Carta aos Brasileiros do professor Goffredo Silva Telles, lida publicamente no “território livre da Academia de Direito de São Paulo” no dia 8 de agosto de 1977, a palavra de ordem dos estudantes, que no mesmo ano veriam a invasão da PUC-SP pelos militares, ecoa em 2022, quando assistimos às ameaças à democracia enquanto ainda podemos deter o autoritarismo. Os que se reuniram nesta quinta-feira sob as arcadas para resgatar os princípios expressos na carta de 1977 em defesa da democracia o fazem sob os holofotes da imprensa livre e não sob o risco iminente de prisão ou morte como há 45 anos. Os 300 corajosos que subscreveram a Carta aos Brasileiros em 1977 são hoje quase 1 milhão, incluindo 8 presidenciáveis, e até representantes de setores que apoiaram o golpe de 1964. O exercício da democracia - ainda que falha e incompleta como a nossa - nos fortaleceu. E também por isso temos o dever de não nos calar. “Pessoas morreram, foram perseguidas e tiveram que sair do país para que nós tivéssemos o que temos hoje”, como lembrou Patrícia Vanzolini, presidenta da OAB-SP, no poderoso discurso que fez ontem na Faculdade de Direito da USP.
Sim, sabemos o valor do que nos foi arrancado em 1964 e trazemos conosco as lições aprendidas na reconquista da liberdade. A importância da união da sociedade civil e dos movimentos sociais em torno da democracia talvez seja a maior delas. Como diz um trecho da Carta às Brasileiras e Brasileiros lida ontem: “Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar ao lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática”.
O Estado de direito é o “território livre” para as disputas inerentes ao avanço do processo democrático com liberdade de informação e a garantia do respeito às regras e valores consagrados, expressos na Constituição. É contra esse processo que Jair Bolsonaro atenta, garantindo privilégios para si e seus aliados enquanto age para barrar a construção do nosso país como sociedade livre e solidária. Denunciar este ataque é expressar a nossa recusa ao ódio e à violência que este governo semeia. Aos 63 anos, jornalista desde as “Diretas Já”, tenho de novo uma esperança danada e acredito mais do que nunca, que hoje, quem cala consente.
PS. A Agência Pública assinou a Carta às Brasileiras e Brasileiros bem como seus diretores. Liberdade de imprensa sempre, direitos humanos sempre, democracia sempre! |
Nenhum comentário:
Postar um comentário