Eleições
Lula e o campo progressista na correnteza de 2018
por Miguel Martins e Rodrigo Martins
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publicado
31/03/2017 08h00,
última modificação
30/03/2017 15h55
A multidão reunida no Sertão da Paraíba e nos atos contra a reforma da Previdência reanima a oposição ao governo de Michel Temer
Ricardo Stuckert
"Peçam a Deus que não seja candidato. Se eu for, é para ganhar", diz Lula.
O oportunismo do atual governo não parece
ter surtido efeito no Nordeste. Em 10 de março, Michel Temer inaugurou
um trecho da obra no sertão da Paraíba em um evento fechado para
convidados. A solenidade chegou a ser interrompida por gritos de
manifestantes do lado de fora, impedidos de participar da festa. O
peemedebista tampouco se dispôs a visitar o centro da cidade paraibana
de Monteiro, próximo da divisa com Pernambuco, o que gerou ressentimento
na população local.
No domingo 19, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido em
Monteiro por uma multidão de seguidores. Caravanas de oito estados
peregrinaram para a “inauguração popular” da obra, quando Lula e Dilma
discursaram para mais de 70 mil participantes, segundo estimativas da
Polícia Militar do estado, em uma cidade cuja população é de 33 mil.
“Vejam a cara de pau: disseram que uma
obra do tamanho dessa transposição podia ser resolvida em seis meses”,
afirmou a presidenta deposta, convidada por Lula para integrar a
comitiva, como coautora do projeto. “A cara de pau é a mesma das
mentiras que levaram a meu impeachment.”
Dias antes da chegada de Lula, as
pousadas da região ficaram lotadas com jornalistas e curiosos. O trecho
da transposição transformou-se em ponto turístico. De ônibus, carros e
motos, famílias sertanejas visitavam o local para tirar selfies, guardavam a água do Velho Chico
em pequenas garrafas, e até mesmo batizavam seus filhos às margens do
Rio Paraíba, outrora intermitente, agora perene. Alguns, inclusive,
solicitaram ao ex-presidente fazer as vezes de padre e conduzir o ritual
nas águas transpostas.
Reconhecido como patrono da obra pela
população, Lula não se limitou a visitar o trecho inaugurado. Do alto de
uma picape, iniciou uma peregrinação rumo ao centro de Monteiro, onde
uma grande festa popular, com a presença do governador Ricardo Coutinho,
do PSB, o aguardava. O petista aproveitou para lançar informalmente sua
candidatura à Presidência, apesar dos esforços de parte da classe
política e do Judiciário em inviabilizá-la.
“Eu nem sei se estarei vivo para ser candidato em 2018,
mas sei que eles querem evitar isso. Eles que peçam a Deus para eu não
ser candidato. Porque, se eu for, é para ganhar a eleição”, discursou
Lula para uma plateia extasiada.
Enquanto Temer evita o contato com cidadãos, Lula tem intensificado sua agenda de compromissos públicos. Em 15 de março, o ato contra a reforma da Previdência
realizado na Avenida Paulista, que reuniu mais de 150 mil
manifestantes, também ganhou ares de palanque eleitoral. O ex-presidente
atacou as reformas impopulares pretendidas por Temer e encerrou o
discurso com um “até a vitória”.
A crescente resistência às reformas da
Previdência e trabalhista dá fôlego ao campo progressista. Recentes
pesquisas apontam o fortalecimento de Lula e a reprovação crescente ao
atual governo. Segundo sondagem da CNT/MDA realizada em fevereiro, Temer
conta com a aprovação de apenas 10,3% da população, índice inferior
àquele de Dilma pouco antes de seu afastamento pela Câmara. No mesmo
levantamento, Lula desponta como o nome mais forte para as eleições do
próximo ano, ao liderar em todos os cenários de segundo turno.
Nem tudo são flores.
Como Dilma alertou em seu discurso em Monteiro, há um “segundo golpe”
em gestação no País: “Impedir que os candidatos populares sejam
colocados à disposição do povo”. Para barrar a candidatura de Lula,
parte da classe política conta com o Judiciário para torná-lo
inelegível.
Após a decisão do Supremo Tribunal Federal de
impor o cumprimento da pena a condenados em segunda instância, a Lava
Jato tem tempo hábil para barrar a campanha do ex-presidente, mesmo que
tenha apenas convicções, e não provas, para atingir esse objetivo. As
seis ações da operação julgadas no segundo grau levaram, em média, 1 ano
e 10 meses para ser analisadas pelo Tribunal Regional Federal.
Caso Moro condene Lula em uma das três
denúncias apresentadas ao Ministério Público Federal no âmbito da Lava
Jato nos próximos meses, há chance de o petista tornar-se inelegível
entre julho e outubro de 2018, quando ocorrerá o novo pleito
presidencial. Por outro lado, o ex-presidente poderia recorrer ao
Superior Tribunal de Justiça ou ao STF.
Se o magistrado perder o timing para inviabilizar Lula,
uma reviravolta no sistema político não pode ser descartada. Em 16 de
março, o ministro Gilmar Mendes organizou um jantar em homenagem ao
senador tucano José Serra, ex-ministro das Relações Exteriores de Temer,
com a participação dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do
Senado, Eunício Oliveira, além do senador Aécio Neves, todos presentes
na lista do procurador-geral Rodrigo Janot e enviada ao Supremo.
Na reunião, discutiu-se uma possível alteração no sistema
político brasileiro. Serra defendeu a desconstitucionalização do sistema
eleitoral, para permitir alterações por projetos de lei simples, e
sugeriu a Oliveira a criação de um grupo no Senado para debater a
implantação do parlamentarismo.
A ideia de enfraquecer lideranças
populares que chegam à Presidência não é novidade no País. Após a
renúncia de Jânio Quadros em 1961, o Congresso impôs um regime
parlamentarista para limitar os poderes de João Goulart. Uma solução que
pode voltar à tona caso Lula se mantenha fortalecido para 2018.
“Não foi dado um golpe no Brasil para
entregar o poder novamente ao Lula”, analisa Lincoln Secco, professor da
Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT. “Não
sabemos que tipo de eleição teremos em 2018. Lula pode ser condenado,
mas também há a alternativa de se instaurar um novo sistema, como o
parlamentarismo.”
Ex-ministro da Ciência e Tecnologia de
Lula e um dos fundadores do PSB, partido com o qual rompeu em 2014, após
a legenda apoiar a candidatura de Aécio Neves
no segundo turno, Roberto Amaral alerta para a decomposição da política
brasileira, que envereda por uma grave crise institucional. A insólita
troca de acusações entre Janot e Mendes evidencia esse cenário.
Por essa razão, Amaral não
subestima o ímpeto dos atores políticos para impedir a candidatura de
Lula, ao mesmo tempo que se aventam mudanças constitucionais. “Essa deve
ser a preocupação primordial das forças democráticas: assegurar a
possibilidade do processo eleitoral nos termos atuais da Constituição.
Ou seja, sem nenhuma alteração como ‘presidencialismo brando’ ou
parlamentarismo.”
Em meio ao nebuloso cenário, sobram
especulações sobre o “plano B” do PT, caso o ex-presidente seja impedido
de concorrer. Nos últimos dias, rumores de um acordo entre Lula e o
ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo
PDT, ganharam asas.
Segundo os porta-vozes do suposto arranjo, Lula estaria disposto a apoiar uma candidatura encabeçada por Ciro,
com o petista Fernando Haddad de vice. Pivô da articulação, Mangabeira
Unger, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos e conselheiro
de Ciro, chegou a procurar o ex-prefeito paulistano para uma conversa.
“Não existe nenhum acordo com Lula, isso é wishful thinking
de setores da esquerda”, esclarece, de antemão, o próprio Ciro. “Sou
amigo dele desde 1989, quando eu era prefeito de Fortaleza e o apoiei no
segundo turno contra Collor, mas tenho contradições definitivas e
insuperáveis com a política adotada pelo ex-presidente. Lula manteve a
matriz macroeconômica de FHC, cometeu o erro indesculpável de colocar
Temer na linha sucessória da Presidência, buscou fazer alianças com
figuras deploráveis do Congresso.”

- Roberto Amaral afirma que não é possível aceitar parlamentarismo ou presidencialismo brando (Marcelo Camargo/ AgBr)
O líder pedetista
não esconde a pretensão de liderar uma coalizão capaz de sair unida, e
não dividida, para a polarizada disputa eleitoral de 2018. Recusa,
porém, o “projeto de conciliação”, segundo ele adotado pelos governos
petistas. “Lula tem todo o direito de se lançar candidato, mas,
sinceramente, acho que isso não seria bom nem para ele nem para o País.”
De acordo com o senador Lindbergh Farias,
o PT não trabalha com outra possibilidade além de lançar o
ex-presidente. “Lula é o plano A, B, C, D e E. Se decidirem inviabilizar
o candidato mais bem colocado nas pesquisas, este País entra em
convulsão social.” Na verdade, emenda o parlamentar, a ideia é antecipar
o lançamento da candidatura do líder petista para abril ou maio.
“É possível que o governo Temer se desmanche antes do fim do ano. Podemos chegar ao fim do ano com 14% da população desempregada.
Muitos começam a perceber que o golpe é, como dizíamos, contra o
trabalhador. Há ainda o fator imponderável. Como disse Renan Calheiros
recentemente, Eduardo Cunha manda no governo de dentro da cadeia. Se ele
abrir a boca, não sobra um de pé.”
A capacidade de transferência de votos de Lula para outros
candidatos não chegou a ser testada nas sondagens eleitorais, observa o
cientista político Marcos Coimbra,
diretor do Vox Populi. “Ninguém fez uma pesquisa sem incluir o nome de
Lula, tampouco pretendemos fazer uma no instituto, por considerar essa
possibilidade uma agressão à democracia.”
Ciro não seria, porém, a única opção diante da eventual
inelegibilidade do petista. “Se admitimos que Lula é capaz de levar ao
segundo turno um candidato que atualmente tem 5% das intenções de voto,
então ele pode fazer o mesmo com outros nomes.”
Na eventualidade
de Ciro lançar-se candidato com o apoio do PT, o ex-governador do Ceará
teria de transpor obstáculos para seduzir o campo progressista. Seu nome
encontra resistências entre alguns setores, notadamente as entidades
que compõem a frente Povo Sem Medo, liderada pelo Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto. Na Frente Brasil Popular, os sem-terra parecem
mais inclinados a apoiá-lo, caso Lula não possa ser candidato, mas a
alternativa não é unanimidade.
Nos movimentos Negro e Feminista, a
resistência ao pedetista promete ser ainda maior. Entre as atuais
legendas de oposição a Temer, o PCdoB não rechaça Ciro como alternativa.
No fim de 2016, o governador maranhense, Flávio Dino, chegou a
credenciá-lo como possível nome progressista para 2018.
Ciro tem dois obstáculos importantes a superar, avalia
Secco. “Primeiro, ele não é originalmente um quadro de esquerda. Começou
sua carreira política no PDS, sucessor da Arena, e integrou o PSDB nos
anos 1990. Outra dificuldade são as suas polêmicas declarações.”
O pesquisador acredita, porém, que ele possa cativar a
classe média, uma dificuldade para os petistas. “Nos governos Lula e
Dilma, construiu-se um projeto que contemplava os muito pobres e os
muito ricos, mas pouco se fez para atender a classe média”, afirma.
“Ciro pode fazer acenos importantes para os setores intermediários.”
Lula também tem o desafio de cativar setores descontentes com a realpolitik dos governos petistas. Guilherme Boulos, novo colunista de CartaCapital
e líder do MTST, reconhece que o ex-presidente ainda é a maior
liderança popular do País, mas preocupa-se com a possibilidade de Lula
reeditar o programa das gestões anteriores.
“É preocupante ver que ainda não há uma
autocrítica do PT sobre seus anos no poder. Caso Lula vença, ele
recomporá com o PMDB? Vai rearticular a base responsável pelo golpe em
Dilma? Ou vai pautar reformas populares como a urbana, agrária,
tributária e de democratização da mídia?”
Se o campo progressista parece já ter um candidato, sobram dúvidas sobre o projeto capaz de uni-lo.



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