Governo
Ricardo Barros, o ministro dos planos de saúde
A nomeação de um engenheiro é o primeiro sinal de que o povo brasileiro como sempre pagará o pato
por Renan Truffi
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publicado
05/09/2016 03h55
Financiado por um gigante dos planos, Barros pretende desregulamentar o setor suplementar
Primeiro ministro da Saúde sem formação na área desde 2003, Ricardo Barros
chegou ao cargo pelas mãos de Michel Temer, após indicação do PP.
Apesar de pouco conhecido fora do Paraná, seu estado natal, ele começou a
ganhar rapidamente espaço nas manchetes de jornais pelo País por conta
das dezenas de gafes
colecionadas em três meses à frente da pasta. Mas o despreparo do
ministro, engenheiro civil de formação, parece ser só um alerta do mal
maior que pode representar para a saúde pública brasileira.
Isso porque Barros tem feito de tudo para levar à frente a proposta de criação de planos de saúde populares,
agora definidos “acessíveis”. A ideia seria diminuir as exigências
mínimas de cobertura, impostas pela Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS) às administradoras, para que possam oferecer planos
mais baratos à população. Argumento do ministro: não há recursos e,
quanto mais pessoas forem atendidas na saúde suplementar, melhor para o Sistema Único de Saúde (SUS).
A proposta abre precedentes perigosos,
segundo as principais entidades do setor. A grande preocupação é de que o
mercado de saúde retroceda ao que foi antes de sua regulamentação, na
década de 1990. É justamente com a criação da ANS que as empresas foram
obrigadas a oferecer um rol de atendimentos mínimos, antes de terem
autorização para comercializar os planos.
A proposta traz uma realidade já sofrida, cenário sem
regras. “O que você faz na sequência é a exclusão de doenças: volta ao
mundo em que Aids, enfermidades cardíacas e hemodiálise não tinham
cobertura no Brasil”, explica o médico e ex-diretor-presidente da ANS
Fausto Pereira dos Santos.
De acordo com Pereira
dos Santos, uma parcela das empresas de planos de saúde nunca se
conformou com a regulação e luta pela flexibilização do rol de
atendimentos. A outra crítica feita é que a proposta não traz novos recursos para o setor. Pelo contrário, deteriora ainda mais o SUS.
Na prática, as empresas ficariam com a
parte mais barata do processo, oferecendo planos de cobertura com
atendimentos ambulatoriais, o que inclui consultas, exames e primeiros
socorros. Os procedimentos mais caros continuariam a cargo do sistema
público.
“Todos nós somos usuários do SUS,
querendo ou não. Os planos de saúde não dão cobertura integral. Então,
vacinas, transplantes, resgate, tudo é SUS”, explica o presidente do
Conselho Nacional de Secretariais Municipais de Saúde (Conasems), Mauro
Guimarães Junqueira. “O plano vai fazer a cobertura barata, do
atendimento médico, e depois o usuário volta para o sistema público de
saúde. Isso desorganiza o nosso sistema.”
Não é só a proposta que desagrada às mais
diversas entidades de saúde. A forma como o ministro vem conduzindo o
debate também provoca reações contrárias. No começo de agosto, Barros
publicou uma portaria em que cria um Grupo de Trabalho para apresentar,
em até 120 dias, um relatório sobre o assunto. Do grupo, participarão
membros do Ministério da Saúde, da ANS e da Confederação Nacional das
Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde
Suplementar e Capitalização.

A própria ANS, em
todo caso, emitiu uma nota oficial dizendo que “não tinha conhecimento
prévio” sobre o assunto. Desde o constrangimento, só quem tem falado a
respeito é o próprio ministro. A ANS tem direcionado os questionamentos
ao ministério, mas nega que seja ordem dada por Barros.
Até mesmo o Conselho Federal de Medicina
uniu-se contra a proposta. A entidade divulgou uma nota em que diz que a
ideia só beneficia “os empresários da saúde suplementar, setor que
movimentou, em 2015 e em 2016, em torno de 180 bilhões de reais”. “O
Conselho não vai participar da discussão sobre a implementação de uma
proposta que não concorda”, explica o presidente Carlos Vital Tavares.
No dia 18 de agosto, o Conselho Nacional
de Saúde, colegiado formado por entidades representantes das mais
diversas áreas da saúde, também aprovou uma moção contra os “planos
acessíveis”. Decidiu ainda, em reunião, não participar do grupo de
trabalho.
O ministro Barros estava presente, mas
foi embora antes que o assunto entrasse em discussão. “Trata-se de uma
falsa solução que coloca na conta do trabalhador o subfinanciamento da
saúde”, diz o presidente do Conselho, Ronald Ferreira dos Santos.
A proposta ainda guarda na reeleição de Ricardo Barros,
para deputado federal em 2014, parte de seu descrédito. O maior doador
individual da campanha do ministro foi Elon Gomes de Almeida, presidente
do Grupo Aliança, administradora de benefícios de saúde.
Foram 100 mil reais declarados ao Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). Em resposta, a assessoria do ministro rebate que essa
doação correspondeu a apenas 3,1% do total recebido por Barros na
campanha.
“O ministro está vendo nesse processo uma janela de
oportunidade para que ele possa, de alguma forma, retribuir”, critica o
ex-diretor-presidente da ANS, antes de lembrar que Barros foi relator da
Lei Geral das Agências Reguladoras. “Ele viu oportunidade de formular
uma proposta que quebra a espinha dorsal da regulamentação dos planos de
saúde.”
Procurado por CartaCapital, o
ministro nega ter a intenção de beneficiar os planos de saúde. Acentua:
ninguém é obrigado a aderir aos seguros. E critica as entidades que se
recusaram a participar do debate. “Quem tem cabeça aberta pode
participar e discordar. Não é com estas pessoas que tenho de me
preocupar. Tenho com as que querem discutir e contribuir.”
*Reportagem publicada originalmente na edição 916 de CartaCapital, com o título "O ministro dos planos de saúde". Assine CartaCapital.
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