segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

 

Fundase rebate Carla Dickson, que chamou medida de reintegração de “bolsa crime”

29 de dezembro de 2025
7min
Fundase rebate Carla Dickson, que chamou medida de reintegração de “bolsa crime”
Fotos: Alisson Almeida / Reprodução Câmara dos Deputados
QR Code

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

A deputada federal Carla Dickson (União), em publicação nas redes sociais, chamou de “bolsa crime” a portaria da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Norte (Fundase-RN) que trata do pagamento de uma bolsa de R$ 500,00, durante até um ano, para adolescentes e jovens que concluírem medidas socioeducativas. Herculano Campos, presidente da Fundase, rebateu Carla Dickson ressaltando que a medida “não é bolsa crime, mas sim uma bolsa para sair do crime”.

A iniciativa integra o Programa Pós-Medida Horizontes Potiguares, que tem como objetivo evitar a reincidência, a permanência escolar e inserção em ações de profissionalização e empregabilidade.

Na publicação, a parlamentar bolsonarista afirma que “adolescentes e jovens infratores vão ganhar R$ 500 do Governo do RN”. Ela, no entanto, diz em seguida que o valor do benefício poderia ir de R$ 1.350,00 a R$ 1.500,00, mas esses valores não estão previstos na portaria da Fundase.

“O Governo do RN, sob a gestão de Fátima Bezerra, aliada de Lula, cria uma bolsa de R$ 1.350 a R$ 1.500 para jovens que cometeram crimes e infrações, enquanto ignora milhões de brasileiros que estudam, trabalham e cumprem a lei sem qualquer apoio”, escreve a deputada evangélica.

Carla Dickson assegura ser a favor da reintegração social, “mas jamais”, segundo ela, “às custas de quem faz o certo”. A deputada também declara que “políticas assim invertem valores, enfraquecem a autoridade do estado e alimentam a sensação de injustiça social”.

Presidente da Fundase rebate Carla Dickson

Foto: Isabela Santos

Em resposta à Carla Dickson, o presidente da Fundase, Herculano Ricardo Campos, afirmou que a medida “não é uma bolsa crime”.

“Na verdade”, ponderou ele, “é uma bolsa para sair do crime, para construção de vida, uma bolsa dignidade – é o inverso da lógica que eles estão insistindo em disseminar”.

Herculano afirmou que, ao contrário do que disse Carla Dickson, “o benefício não é pago para quem está em conflito com a lei, mas sim para quem já cumpriu a medida socioeducativa e aceita voluntariamente continuar sendo acompanhado pela Fundase e pelo sistema de Justiça, sendo encaminhado para políticas públicas diversas, que incluem programas de empregabilidade”.

Saiba MaisJovens em conflito com a lei no RN podem receber bolsa para evitar reincidência

Styvenson também atacou programa de reintegração social

Além de Carla Dickson, o senador Styvenson Valentim (PSDB) também havia atacado a portaria da Fundase, insinuando que a bolsa paga aos adolescentes e jovens egressos do sistema socioeducativo estimularia o crime.

O Governo do Estado rebateu a desinformação afirmando que o senador fazia “alarmismo” ao “dar a entender falsamente que o benefício será pago indiscriminadamente, quando, na verdade, além de temporário, é condicionado ao cumprimento de critérios rígidos – tanto que, atualmente, há apenas um adolescente elegível a receber o apoio financeiro”.

“A medida integra o Programa Pós-Medida Horizontes Potiguares. Além disso, a portaria se alinha às diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e legislações nacionais, que orientam o acompanhamento de egressos do sistema socioeducativo”, reforçou o governo, em publicação na plataforma oficial de checagem de notícias “RN Fato ou Fake”.

O analista socioeducativo pedagogo da Fundase, Matheus Lucas Souza, explicou que os adolescentes e jovens elegíveis para o recebimento da bolsa passam por um acompanhamento de seis meses, que pode ser renovado por mais seis.

Ele detalhou que, quando o adolescente ou jovem “não tem mais débito”, a medida socioeducativa é extinta. Neste caso, eles podem aderir ao programa no dia seguinte.

Já quando a medida socioeducativa é substituída pela liberdade assistida, eles só podem aderir ao programa após a conclusão do meio aberto, que geralmente dura seis meses. Após esse período, o adolescente ou jovem passa a ser acompanhado pelos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que são de responsabilidade dos municípios.

Matheus Lucas Souza reiterou que o acompanhamento de adolescentes e jovens egressos do sistema socioeducativo não é uma política exclusiva do Rio Grande do Norte. A medida foi lançada em 2023, mas começou a ser colocada em prática experimentalmente em 2024 em outros estados do Brasil.

“Alguns estados têm programas recentes, como o nosso da Fundase. Já outros criaram há mais tempo. Em alguns, há 20 anos. O movimento ganhou força pelo Conselho Nacional de Justiça. É um programa intersetorial, com participação da Sethas [Secretaria Estadual do Trabalho, Habitação e Assistência Social] e da 1ª Vara da Criança e Juventude, além da Fundase”, completou.

O acompanhamento dos egressos é feito por uma equipe formada de novos servidores concursados que entraram a partir de 2023. “Isso permitiu formamos uma equipe exclusiva para o programa, que, atualmente, abrange apenas os 15 municípios da Região Metropolitana de Natal”, disse Matheus.

Projeto “Aprendendo a Aprender”

Foto: Alisson Almeida

A Fundase também fez a entrega recentemente de certificados a 17 adolescentes e jovens da comunidade socioeducativa, formada de socioeducandos dos meios aberto e fechado, egressos e seus familiares, que concluíram o curso de pré-aprendizagem profissional “Aprendendo a Aprender”.

O curso teve carga horária superior a 60 horas/aula, incluindo atividades teóricas e práticas sobre formação humana, inclusão digital, consumo consciente, planejamento financeiro, matemática, língua portuguesa e segurança e saúde no trabalho.

Herculano Campos, presidente da Fundase, enfatizou a importância do projeto para, além de promover a perspectiva educacional, assegurar a inserção profissional dos socioeducandos.

“O projeto tem como objetivo habilitar os adolescentes e jovens para a entrada no contexto do trabalho. Isso é fundamental, porque todos eles, quando chegam numa certa idade, desejam ter autonomia, ter acesso ao mundo do consumo e sonham em comprar suas próprias coisas”, comentou, ressaltando a iniciativa, voltada a esse público em situação de vulnerabilidade, é uma “alternativa de projeto de vida e à infração”.

O projeto é resultado da parceria entre a Fundase, Ministério Público do Trabalho e o Instituto Estadual de Erradicação do Trabalho Infantil (Infoca-RN), com apoio da Secretaria Estadual do Trabalho, Habitação e Assistência Social (Sethas), do Ministério Público do Estado do RN (MPRN), do Sistema Nacional de Emprego (Sine-RN) e dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e Especializada (Creas) de Natal.

O procurador do MPT-RN, Luís Fabiano, destacou que o objetivo das instituições parceiras do projeto é preparar os adolescentes e jovens do sistema socioeducativo para o início da vida profissional.

“O projeto prevê que, na sequência, a gente faça o encaminhamento daqueles que tiveram bom aproveitamento para as empresas, para eles serem contratados como aprendizes, que é a porta de entrada para a inserção no mercado trabalho, mas um trabalho protegido, com registro, carteira assinada e permanência nas atividades escolares, para que eles consigam a profissionalização e a permanência no emprego”, frisou.

A iniciativa incluiu, ainda, o pagamento de uma bolsa no valor de R$ 400, além de auxílio com vale-transporte e lanche. A etapa de pré-aprendizagem, segundo a Fundase, é considerada fundamental no preparo para a futura contratação dos socioeducandos, ao reforçar competências básicas e recompor conhecimentos essenciais.

Saiba MaisProjeto “Aprendendo a Aprender” dá a adolescentes e jovens o direito de recomeçar

Nenhum comentário:

Postar um comentário