quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 

Mais que militância, uma tecnologia social

17 de agosto de 2026
7min
Mais que militância, uma tecnologia social
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Por Rômulo Sckaff

Em 2026, novos desafios se colocam diante de nós. Um deles são as eleições de outubro. O Brasil inteiro vai escolher novos rumos, enfrentar novas disputas e decidir que país querenos construir nos próximos anos.

E, há mais de 40 anos, o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular do Rio Grande do Norte — CDHMP-RN — não se desvia desse debate.

Mas os tempos são efêmeros. Não esperam. E não adianta levantar os troféus do passado como se aquilo que fizemos ontem fosse suficiente para responder ao presente.

Por isso, vamos novamente para as ruas, desta vez, com um novo Boneco de Lula.

E aí vem a pergunta: como assim, um novo? Não existe aquele boneco que esteve nas mobilizações, nas caravanas, nas greves e nas campanhas? O que aconteceu com ele?

Existe. E ele tem uma história.

Quando Lula estava preso, tudo parecia caminhar para um ambiente mais sóbrio, pesado. Havia uma espécie de depressão coletiva na militância. Lembro de Mário Takeia, numa reunião na DHnet, dizendo algo muito simples:

— Tudo está ruim. Precisamos fazer alguma coisa.

Imediatamente me veio o passado que a DHnet já tanto organizou, os bazares. Os teatros de rua, as campanhas feitas sem dinheiro. As inúmeras vezes em que tivemos de inventar alguma coisa porque simplesmente não havia estrutura para fazer de outro jeito.

Se tudo estava ruim, um dia já tinha sido pior, passamos pela ditadura.

E continuávamos aqui.

A primeira ideia foi voltar para a rua fazendo teatro em cima de um caminhão. Já tínhamos feito aquilo outras vezes. Mas não conseguimos os atores. Talvez estivessem atingidos pela mesma depressão coletiva que tentávamos combater.

Então fomos inventar outra coisa.

Vendemos canecas, livros doados, roupas usadas. Fizemos bazar. Juntamos dinheiro como dava.

Não havia patrocínio. Não havia emenda parlamentar. Não havia empresa financiando.

Era militância.

E foi assim que conseguimos pagar nosso amigo João Antônio para construir um boneco de Lula. Não era a primeira vez que João colocava sua arte a serviço dessa história: ainda na campanha presidencial de 1989 ele já havia feito um boneco.

Quando ficou pronto, fomos buscá-lo.

Roberto Monte, Rômulo Sckaff e George Fernandes, rumo a Currais Novos ni ateliê de João Antônio.

Voltamos com um Lula de aproximadamente quatro metros de altura.

E ele começou a andar e andou muito.

Esteve em caravanas, festas, greves, mobilizações, reuniões, atos políticos e campanhas.

Talvez sua grande apoteose tenha acontecido no Recife. Lula já estava solto e foi para a Praça do Carmo. E lá estava também o nosso boneco.

Na terra dos bonecos gigantes, aquele Lula de quatro metros brilhou.

Depois ainda veio a campanha de 2022.

Era utopia ou barbárie.

O tempo passou. Lula foi eleito presidente. Uma certa normalidade democrática começou a se recompor.

E o Boneco de Lula deu cria.

João Antônio se encantou. Hoje o artista está em outra dimensão, certamente formando gente no bom e no justo. Mas seus filhos artísticos ficaram por aqui.

Em 2021, ano do centenário de Luiz Maranhão, Assis Costa, herdeiro artístico de João, produziu um novo boneco.

Luiz Maranhão, desaparecido político pela ditadura, precisava ser lembrado no Rio Grande do Norte no ano em que completaria cem anos.

Caminhamos pelas Rocas. Produzimos e lançamos documentário. Levamos aquela figura novamente para as ruas.

E ali nasceu outra coisa.

A Turma do Boneco.

Agora já éramos dois.

O que até então era uma experiência em torno do Boneco de Lula começou a se transformar na ideia de um grande bloco político e cultural, no qual personagens de nossa história poderiam voltar simbolicamente às ruas.

A ideia cresceu.

Em 2025, nos 90 anos da Insurreição de 1935, caminhamos pelo centro de Natal acompanhados por uma nova turma.

Veio José Praxedes, o sapateiro.

Veio Giocondo, o Cabo Dias.

Veio Amélia Reginaldo, uma das figuras centrais da organização política da Junta Popular.

E veio Leonila Félix, a capitã do batalhão feminino

Foi um carnaval bonito, político e profundamente emocionante.

Não caminhávamos apenas com bonecos.

Caminhávamos com personagens que a história oficial tantas vezes tentou deixar imóveis, escondidos em algum parágrafo esquecido ou simplesmente fora dos livros.

E terminamos o percurso justamente na vila onde, durante cinco dias de novembro de 1935, trabalhadores e militantes instalaram uma experiência de governo popular no Rio Grande do Norte.

Depois veio mais uma integrante para a Turma.

Mércia Albuquerque.

A advogada dos presos políticos. A mulher que enfrentou a ditadura nos tribunais e nas delegacias, defendendo gente que muitas vezes sequer tinha condições de pagar seus honorários. A advogada de Gregório Bezerra e de tantos outros perseguidos.

Mércia também ganhou corpo.

Também voltou para a rua, inclusive em sua terra onde participou da peça Lady Tempestade

E chegamos novamente a 2026.

O primeiro Boneco de Lula envelheceu. O material sofreu com tantos anos de estrada. E o próprio Lula mudou.

Decidimos, então, que era hora de fazer outro.

Um Lula mais velinho, como ele é hoje. Mais representativo desta nova etapa. Um Lula novamente militante, enfrentando uma época em que a política também se faz de imagens fabricadas, rostos endurecidos e caras pintadas de laranja.

Não estamos aposentando nossa história.

Estamos fazendo aquilo que sempre fizemos, atualizando nossas ferramentas para enfrentar o tempo presente.

Talvez seja isso que chamamos de tecnologia social.

Porque um boneco não é apenas um boneco.

Ele mobiliza pessoas para construí-lo. Junta artistas, militantes, pesquisadores e amigos. Produz conversa. Ocupa a rua. Recupera personagens. Recria lugares de memória. Provoca quem passa. Faz alguém perguntar quem foi aquela pessoa gigantesca que está caminhando no meio da multidão.

E, a partir dessa pergunta, começa a formação.

Essa lógica atravessa tudo aquilo que construímos.

Está na DHnet, nosso braço virtual.

Está na Pós-TV DHnet, levando memória, entrevistas e formação para o audiovisual.

Está nos livros da Potiguariana, transformando pesquisa e documentação em publicação.

Está nas placas que espalhamos pelos lugares de memória.

Está nos cursos, nos arquivos, nas caminhadas, nos vídeos, nas experiências de cartografia e agora também no uso da inteligência artificial.

Tudo isso compõe aquilo que chamamos de nossa Universidade Popular.

Uma universidade que não depende de prédio.

Sua sala de aula pode ser um site, uma praça, um livro, um vídeo, uma caminhada ou um carnaval.

E seu professor, às vezes, pode ter quatro metros de altura.

Há mais de quarenta anos seguimos fazendo isso praticamente sem estrutura, sustentados sobretudo por trabalho voluntário, por algumas pessoas que permanecem e por muitas outras que vão se agregando ao longo do caminho.

Talvez por isso tenhamos mais projetos que funcionários, mais memória que orçamento e mais teimosia que estrutura.

Agora vem aí um novo Lula.

E seguiremos caminhando.

Com a DHnet, com a Pós-TV, com os livros da Potiguariana, com a Turma do Boneco e com a certeza de que um mundo melhor não se constrói apenas esperando.

Um mundo melhor se faz caminhando.

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