Seria ótimo que, além de punir quem não fez a lição de casa, os eleitores usassem o critério ambiental para escolher deputados e senadores para que o Congresso pare de destruir as leis, como fez com a aprovação do pacote da Destruição (Lei Geral do Licenciamento Ambiental), agora com a constitucionalidade em julgamento no STF (sobre isso leia a coluna de Gustavo Faleiros desta semana) assim como a lei do Marco Temporal, que voltou ao STF depois de o próprio tribunal ter se pronunciado no sentido contrário.
Sabemos que as opções não são muitas - daí o destaque dado pela imprensa especialista no tema à candidata ao Senado Marina Silva. Mas quem se preocupa com o clima, o ambiente e a democracia no país, tem alternativas de escolha para a Câmara Federal e Assembléias Legislativas - a começar pelas candidaturas indígenas já anunciadas para concorrer a cargos de deputado estadual e federal, além de outros candidatos com histórico confiável na área ambiental em partidos como Rede, PSOL, PCdoB e PT.
Já em relação à presidência, as opções se afunilam. Em uma conversa social, outro dia, ouvi de uma pessoa que não quer reeleger Lula mas se considera democrata, feminista e ambientalista, o nome de Ronaldo Caiado, que anda circulando em algumas rodas “climáticas” como confirmei com outras pessoas envolvidas com o tema.
Uma surpresa e tanto para essa jornalista com mais de 40 anos de profissão, que lembra do atual governador de Goiás como fundador da UDR - União Democrática Ruralista - em 1985, inaugurando as milícias armadas no campo na redemocratização - e também da bancada ruralista, até hoje a principal articuladora de pautas contra a fiscalização e a proteção ambiental e o respeito aos direitos indígenas.
O próprio candidato continua a ostentar orgulhosamente seu compromisso com o agronegócio, responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa no país, e, para não deixar margem à dúvida, colocou o ex-comunista Aldo Rebelo, como coordenador de sua campanha. Rebelo vem se posicionando contra o ambiente desde que foi relator do Código Florestal, quando atuou para flexibilizar regras sobre o desmatamento e para anistiar criminosos ambientais, alegando que a culpa pelas infrações dos produtores rurais eram as leis excessivamente rigorosas (!). Depois passou a perseguir ONGs ambientalistas e indígenas na Amazônia.
Caiado também não pode ser considerado um democrata, não apenas pela violência contra agricultores familiares sem terra e indígenas, por ele defendida já na fundação da UDR, mas também pelas atitudes tomadas como governador. Desde a violência policial, que esteve sempre acima da média nacional durante o seu mandato, até a decisão de transformar o estado em laboratório das bigtechs ao aprovar em 48 horas leis regulamentando temas que o Congresso Nacional ainda discute - minerais críticos, datacenters e inteligência artificial como revelou a Agência Pública nesta semana.
Isso sem falar que, assim como Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, também inimigos da proteção ambiental e adeptos ferrenhos da economia predatória como já demonstraram na prática, Caiado defende a anistia para os golpistas. O negacionismo climático, assim como o autoritarismo, o desprezo pelos direitos humanos e pelo multilateralismo - sem os quais não se constroem políticas climáticas - são característicos da extrema direita. Donald Trump e Jair Bolsonaro estão aí para nos lembrar.
Para quem se julga ambientalista e não quer reeleger Lula, como disse minha interlocutora, a situação não está fácil. Meu conselho é: caprichem nas escolhas para o Legislativo. Embora Lula, entusiasta do petróleo, não seja nenhuma Marina Silva, ao menos teve a coragem de colocá-la como ministra, reduzindo drasticamente o desmatamento na Amazônia e recolocando o país como liderança climática global.
Vamos ver como ficará a temperatura do debate eleitoral quando o El Niño bater à porta trazendo tempestades, seca, ondas de calor. Afinal, até agora, mesmo com bons resultados para mostrar, nem o governo colocou o clima como bandeira eleitoral. É hora de se comprometer.
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