terça-feira, 20 de junho de 2023

 

Defensores, invasores e jornalistas

Imagine o desafio que enfrentam todos os dias os que defendem os direitos humanos em um país que tem medo até de usar essa expressão e que vive a desigualdade a ponto de tremer diante da possibilidade de todas as pessoas - sem exceção - terem direitos. 

O relatório “Na linha de frente: violações contra quem defende direitos humanos”, lançado na quarta-feira passada, dá a medida da vulnerabilidade de mulheres e homens que enfrentam a injustiça e a ilegalidade no país: entre 2019 e 2022 foram registrados 1.171 casos de violência contra os defensores de direitos humanos no Brasil. Entre eles, 169 assassinatos. 

O estudo, feito pelas ONGs Justiça Global e Terra de Direitos, teve o cuidado de definir quem são os defensores: pessoas, grupos, povos, movimentos sociais ou qualquer coletividade que atue contra todas as violações de direitos e em defesa dos direitos humanos – sejam eles individuais ou coletivos (políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais). 

Um exército pela paz e o bem viver: entre os que sofreram violência, 78,5% defendiam a terra, o território e o meio-ambiente; já os indígenas correspondem a quase um terço das vítimas de assassinato: 50 casos, 17 deles em 2022.

Os pesquisadores, que se debruçaram sobre relatórios de diversas organizações, notícias de jornais, redes sociais e dados de entidades como o Conselho Nacional de Direitos Humanos e o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, também buscaram os agentes agressores. Em 44,4% dos casos foi impossível identificá-los, até por falta de investigações policiais; em 32,7% das violações, o responsável foi um agente privado - garimpeiros, fazendeiros, seguranças; no restante dos casos os agressores foram a polícia. Como pano de fundo, conflitos por terra, invasões, grilagem, exploração ilegal de minérios e madeira. 

Esta é a realidade que o Congresso ignora ou endossa com iniciativas como o Marco Temporal, CPI do MST - e agora, possivelmente, a CPI das ONGs - investigando as vítimas e não os violadores de direitos. Um outro levantamento publicado na terça-feira, o dossiê “Invasores”, feito pelos jornalistas do “De Olho nos Ruralistas", dá uma mostra de quão íntimas são as relações entre invasores e congressistas: 42 políticos e seus familiares são titulares de imóveis em sobreposição a terras indígenas. Em bom português, ocupam áreas que não lhes pertencem, protegidas pela Constituição Federal.

Os que defendem o sagrado direito à propriedade - um cânone tão intocável no Brasil quanto o silêncio que cerca as mortes dos defensores de direitos humanos - estão apenas mentindo em tribunas, jantares e coletivas de imprensa. Não pode existir cobertura neutra enquanto defender que todas as pessoas têm direito à vida, à dignidade, a não sofrer maus tratos nem ameaças for visto como subversão. 

Neste ano, o relatório da Linha de Frente passou a monitorar também jornalistas e comunicadores que trabalham, sob risco de vida, para disseminar informações de promoção e defesa dos direitos humanos. E incluiu a desinformação no contexto da violência, pelas ofensas e hostilidades criadas por notícias falsas contra os defensores de direitos humanos. Quatro exemplos são citados: o da vereadora Marielle Franco, que teve a reputação atingida, depois de assassinada, por gente como a desembargadora Marília Castro Neves, que a chamou de “defensora de bandidos”; as perseguições e ameaças contra a pesquisadora Débora Diniz e o ex-parlamentar Jean Wyllys, ambos vítimas de campanhas de ódio que tiveram que deixar o país; e o MST, há décadas alvo de mentiras e desinformação, inclusive propagadas pela dita imprensa profissional, com o objetivo de criminalizar o movimento.

Depois de 40 anos de profissão, em que convivi, felizmente, com muitos defensores e defensoras de direitos humanos - pessoas que coloco no alto da minha “pirâmide social” -, não tenho dúvida de que a Agência Pública fez a escolha certa desde sua fundação: o compromisso intransigente com os direitos humanos, nosso farol entre tantas dúvidas e riscos que cercam o jornalismo neste país tão desigual.



Marina Amaral
Diretora executiva da Agência Pública

marina@apublica.org

 

As próximas eleições presidenciais


Se a votação da inelegibilidade de Bolsonaro pelo TSE pode ser considerada o primeiro ato das próximas eleições, falta atenção a um elemento, talvez o mais importante da equação: o impacto da inteligência artificial na campanha de 2026. 

Assim como no último pleito, os novos truques sujos serão testados antes nas eleições americanas em 2024 e logo vão migrar para cá. Em especial, deve ser avassalador o impacto das plataformas de inteligência artificial (IA) generativa como o Chat GPT e o Bard, do Google. O impacto será maior pelo modelo de negócios adotado, o da disponibilização gratuita para uma massa de usuários que ajudam a melhorar o produto através de seu trabalho não remunerado. Estratégia essa que segue o modelo adotado pelas redes sociais, de “winner takes all” – domina-se primeiro o mercado e depois se pensa em como ganhar dinheiro com aqueles que já estão dependentes.     

(Vale sempre lembrar que este é apenas um modelo adotado por alguns senhores que decidiram que seria assim; haveria muitas outras maneiras da humanidade ter contato com essa tecnologia inovadora). 

A grande mudança em relação às campanhas eleitorais do passado é justamente a capacidade da IA generativa de inventar narrativas, roteiros, ou histórias, a custo quase zero. Afinal, para as redes criadoras de desinformação, é apenas o custo que importa.   
  

Se usar a mentira como arma política é algo tão velho quanto andar pra frente, o avanço das redes sociais e serviços de mensageria, que se tornaram efetivamente mediadores quase exclusivos do debate público, permitiu que ela fosse produzida de maneira massiva, industrial, e a preço baixíssimo. 

É algo que, uma e outra vez, acaba surpreendendo quem investiga os criadores de fake news: os valores empregados e desviados nessas redes é muitas vezes inferior ao que se pagava, no passado, aos estrelados marqueteiros políticos, por exemplo. Foi isso que permitiu a ascensão de Jair Bolsonaro e sua família, que sempre foram ladrões comezinhos, uma mistura de milicianos de subúrbio com ladrões de galinha. 

Bem. Desde que começamos aqui na Pública e investigar as narrativas desinformacionais, ali pelos idos de 2014, há grupos que criam sites de fake news nos meses anteriores às eleições. Já então havia muitos sites de esquerda e de direita que existiam temporariamenre e se valiam narrativas infladas e enviesadas. Naquela época e nas eleições seguintes, a coisa ainda era um pouco precária e custosa: era preciso um grupo de pessoas que fizessem o site e o mantivesse, que reescrevesse as notícias da imprensa com um título que causasse estranheza ou dúvida, que escolhesse as fotos que seriam usadas e as tags que atrairiam a atenção dos algoritmos de busca. 

Eu estou falando de sites porque eles ainda são uma parte essencial da cadeia de desinformação. É dali que vem os links e títulos que são compartilhados em grupos de Telegrama, Whatsapp, é dali que saem prints para serem comentados em vídeos no Youtube e TikTok. Ainda hoje, são sites pretensamente noticiosos que fornecem uma roupagem de veracidade às teorias mais malucas que são aventadas pelas redes de desinformação. 

Sabemos que as campanhas de fake news e desinformação, hoje, são multi-plataformas, mas precisam de elementos unificadores que transitem entre esses “locais públicos”. É o serviço essencial que os sites desinformacionais prestam. No entanto, a infraestrutura de disseminação da desinformação não vem dos sites; ela está nos influenciadores das redes sociais. E pouco importa quais são as redes sociais da vez. Vimos o mesmo modelo migrar do Facebook para o Twitter e agora para o TikTok; a desinformação apenas acompanha para onde vão as pessoas e ali se instala como erva daninha. 

Com o tempo e o monitoramento do STF e TSE, alguns desses sites foram adotando estratégias de maior nuance sobre as desinformações que propagam – em especial, aqueles que viram uma oportunidade de negócios real em manter a operação funcionando. É difícil ver um site bolsonarista por exemplo pedindo golpe de Estado, nesses termos.  

Pois, agora, a nuance não é mais necessária em um admirável mundo novo de sites anônimos e feito por robôs a custo baixo, que podem existir por um mês, um dia ou trinta minutos, tanto faz. O que importa é a quantidade – para melhorar o ranqueamento no Google –  a verossimilhança – cuja barreira é bem mais baixa do que em um site jornalístico normal – imagens fortes e títulos clicáveis. A mentira dali se espalhará de maneira vigorosa pelos perfis influenciadores e depois, mesmo que seja retirada do ar, terá se tornado verdade, ou mais importante, dúvida, poluição informativa. 

Hoje isso já é realidade, conforme foi demonstrado em um levantamento feito em maio pela organização NewsGuard, que detectou 49 sites de fake news totalmente criados por robôs. 

Esses sites usavam truques que são velhos conhecidos de quem acompanha notícias de baixa qualidade na internet: muitas matérias sobre temas insólitos como “por que o bocejo é contagioso”, fotos de gatinhos, histórias de celebridades que teriam morrido – muitas delas falsas. São temas que costumam atrair buscas no Google, levando mais leitores para esses sites. 

Outros truques para convencer os algoritmos a levar o leitor pra essas páginas são o número exagerado de textos publicados e o uso intenso de Google Ads nas páginas via publicidade programática (Se o Google ganha, o Google recomenda. Trata-se de robôs convencendo outros robôs de que apresentar e monetizar esse conteúdo vale a pena). 

Dentre os sites encontrados no levantamento não havia ainda nenhum feito sob medida para campanhas de desinformação política. Mas a descoberta acende o alerta para o que já é possível e deve, irremediavelmente, ser visto nas próximas eleições presidenciais nos EUA e no Brasil.  

Além dos sites-fantasma-robôs, vamos passar a ver, ainda, redes de perfis e avatares totalmente criados por IA.  Imaginem o custo que é passar um tempo criando um nome, editando uma foto de perfil, escrevendo um resumo e uma lista de pessoas com quem um perfil falso deve se conectar. Como sabemos, os avatares falsos são uma das mais comuns ferramentas das redes de desinformação. E uma IA faz isso em minutos. Todo o custo do labor humano evaporou-se.   

Além da facilidade na criação de infraestruturas de invenção de mentiras, tudo indica que teremos a adoção da narrativa sobre uma pretensa “perseguição” do sistema contra Bolsonaro – a mesmíssima que Trump tem usado –  e com isso a aposta em dobro nos ataques ao STF, TSE e às urnas eletrônicas. Como Bolsonaro, se inelegível, pretende evitar apontar um sucessor, sua aposta maior será mais uma vez no caos. Olho: conforme a Lupa informou, as fake news golpistas voltaram a circular nos grupos de Whatsapp bolsonaristas, insuflando mais uma vez a um golpe militar. O golpismo não morreu.  

Assim, com a adoção irrefreada da inteligência artificial generativa, é possível que nós vejamos, além de sites de desinformação sobre candidatos em si, um exército de robôs atacando nossa democracia, espalhando teses amalucadas sobre a ditadura do STF, sobre a autocracia da Toga. 

Se eu fosse o TSE, eu estaria pensando desde já em como vamos sobreviver a isso.


Natalia Viana
natalia@apublica.org
Diretora Executiva da Agência Pública

segunda-feira, 19 de junho de 2023

REPORTAGEM DA PÚBLICA COLOCA O GENERAL HELENO NO BANCO DA CPI

 



Olá, 

Não é todo dia que um general de quatro estrelas tem de prestar contas à sociedade brasileira. Muito pelo contrário: nos últimos anos foram muitos os abusos cometidos pelos militares, pouquíssimas as investigações e zero as punições. 

Mas, há duas semanas, todos os jornais do Brasil repercutiram a ida do general Augusto Heleno para prestar esclarecimentos à CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal.
 
O general – um dos ministros mais fortes do governo Bolsonaro à frente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) – teve que encarar os representantes do povo e responder perguntas sobre a invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro. 

O pedido para a oitiva do general foi feito com base em uma reportagem publicada pela Agência Pública mostrando que um dos presos no 8 de janeiro e outros acampados golpistas foram ao gabinete de Heleno antes da posse de Lula. 

Esse jornalismo criterioso e que leva a ações concretas só é possível graças aos leitores que apoiam mensalmente o nosso trabalho. Foram eles que se mobilizaram para nos apoiar no especial Caixa-Preta do Bolsonaro, uma batelada de pedidos pela Lei de Acesso à Informação que levou a revelações como essa. 

 
TAMBÉM APOIO O JORNALISMO CRITERIOSO DA PÚBLICA
Nossos apoiadores sabem que o jornalismo que a gente faz leva tempo e custa caro. É preciso estudar muito os fatos para saber exatamente que informações pedir, por exemplo, num requerimento de acesso à informação. Neste caso, tivemos que fazer listas de todos os acusados pela invasão para perguntar especificamente se esses golpistas estiveram no GSI.  

Mesmo com esse indício importante de ligação com os golpistas, não foi fácil para a CPI do Distrito Federal levar o general ao banco dos inquiridos. Um depoimento chegou a ser marcado para abril deste ano, mas foi cancelado pelo general para “não colocar mais gasolina” sobre o assunto. 

Depois, em junho, o depoimento só aconteceu após uma longa negociação dos deputados distritais com o novo Comandante do Exército. Uma delegação de militares chegou a ser enviada para ir à Assembleia Legislativa do DF para fechar o acordo. 

“O general Tomás garante a vinda dos generais”, afirmou o parlamentar distrital Chico Vigilante (PT).

Heleno usou o espaço para falar barbaridades. Disse que os acampamentos golpistas eram “locais sadios” e que era exagero chamar o movimento de golpismo. Defendeu, ainda, a ditadura militar de 64. Mas também teve que responder a questionamentos duros, como ser confrontado com um áudio em que ele diz que precisava tomar calmante para evitar que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tomasse "medidas mais drásticas" contra o STF. Ele deu pra trás e disse ter sido apenas “uma brincadeira”. 

Agora, pense comigo: quando foi a última vez que você viu um general que fala essas bravatas tendo que responder perguntas duras em um ambiente público? Isso ainda é raro na nossa sociedade também porque a imprensa durante décadas deixou de investigar o poder militar. 

Nós, da Pública, reunimos um time de jornalistas que cobre o tema há tempos, como Marina Amaral, Rubens Valente, Bruno Fonseca, eu mesma e o Caio Freitas Paes. Mas mais do que isso, transformamos a cobertura dos militares em um tema transversal, levado em conta por todos os editores e repórteres da nossa redação. Só assim é possível monitorar de perto esta que ainda é uma das instituições menos transparentes e mais perigosas para a nossa democracia. 

Ainda há muito para descobrir sobre as digitais dos militares na conspiração para reverter a eleição de Lula. Além disso, temos a plena consciência de que a questão militar não foi resolvida e ainda será preciso muito esforço para que eles voltem de vez para a caserna.


Por isso, peço ajuda de você, leitor, que acha que esse tema é crucial para o futuro do Brasil. Precisamos de mais Aliados do nosso lado para termos cada vez mais resiliência ao cobrir um tema sensível como esse. Apoie a Pública hoje!
 
EU APOIO O JORNALISMO INDEPENDENTE
Um abraço,

Natalia Viana
Diretora Executiva da Agência Pública

 

Siqueira: "Reunião com Prates foi boa, resta saber se o que foi dito será cumprido"

Siqueira: "Reunião com Prates foi boa, resta saber se o que foi dito será cumprido"

Publicado em 16/06/2023

Prates quer cumprir contratos e acha difícil recuperar ativos sem prova de que foram subavaliados

No Programa Faixa Livre do último dia 12 de junho, o diretor administrativo, Fernando Siqueira, avaliou como positivo o encontro da diretoria da AEPET com o presidente da Petrobrás, Jean Paul Prates. Siqueira, no entanto, considera prematuro comemorar, já que Prates considerou difíceis algumas das principais reivindicações da AEPET, como a retomada de ativos estratégicos e algumas vendas já realizadas, pois pretende garantir ao "mercado" (sistema financeiro" o cumprimento de contratos.

"Prates prometeu interromper algumas privatizações, como a dos campos terrestres do Nordeste, mas o que já foi vendido depende de auditoria para provar que os preços foram subavaliados", disse.

Além do fim da entrega de patrimônio do povo brasileiro, a AEPET pediu também um novo acordo para o equacionamento na Petros, já que as atuais regras são consideradas "leoninas" pelo diretor da AEPET, que já foi conselheiro eleito no Conselho de Administração do fundo de pensão dos petroleiros.

Na mesma reunião foram abordados temas estratégicos, como o fim da PPI e a retomada do Cenpes enquanto órgão de pesquisa.

Clique abaixo para assistir

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Propostas da AEPET levadas à reunião como o presidente da Petrobrás

Em cerca de duas horas, foram tratados os seguintes pontos da pauta proposta pela associação:

1. Reestatização das Refinarias da Petrobrás – Importância do Refino, do Transporte e da Distribuição do Petróleo e de seus Derivados para o Brasil e a Petrobrás;

2. Alteração da Política de Preços dos Combustíveis da Petrobrás, Preços Paritários de Importação (PPI) – Proposta de Nova Política de Preços do Diesel para a Petrobrás;

3. Reestatização das Malhas de Gasodutos da Petrobrás – Nova Transportadora do Sudeste (NTS), Privatização Lesiva e Reestatização;

4. Reestatização da BR Distribuidora;

5. Conclusão da construção da RNEST (PE) e da UFN-III (MS), retomada da produção de fertilizantes da Araucária Nitrogenados (ANSA-PR), FAFEN (SE) e FAFEN (BA) e do biodiesel nas unidades da PBIO (BA, MG e CE);

6. Reestruturação do CENPES, com a volta ao modelo de Pesquisa Desenvolvimento e Engenharia (PD&E), adotado entre 1976 e 2016, e a recuperação da Engenharia Básica no centro de pesquisas;

7. Alternativas para equacionamento dos planos da Petros.

terça-feira, 13 de junho de 2023

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE ARTHUR LIRA

 


REPORTAGEM

Todos os homens do presidente Arthur Lira

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Entenda os três principais escândalos que envolveram assessores diretos do presidente da Câmara entre 2007 e 2023


13 de junho de 2023

14:00

Alice Maciel, Rubens Valente, Thiago Domenici

PODER

Arthur Lira

corrupção

Judiciário

MPF

Polícia Federal

política

Há 30 anos na política, na qual ingressou por ser filho de um deputado estadual que se tornou um influente senador em Alagoas, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), coleciona pelo menos três grandes escândalos na carreira. Em comum, todos envolveram assessores diretos do parlamentar.


Os três trabalhavam muito próximos de Lira, um deles chegou a ter a senha do cartão de crédito pessoal do parlamentar. Numa demonstração de resiliência, de uma defesa jurídica bem montada e de muito bom trânsito no Judiciário, contudo, Lira saiu praticamente incólume das investigações, pelo menos até aqui, enquanto seus assessores suportaram o ônus das acusações.


É possível resumir a três as pessoas que trabalharam estreitamente com Lira e depois caíram em descrédito, mas que têm resistido sem emitir nenhuma palavra contrária contra o deputado ao longo de todas as investigações: Djair Marcelino da Silva, hoje com 67 anos; Jaymerson José Gomes de Amorim, 47; e, mais recentemente, Luciano Ferreira Cavalcante, 44.


Em 2023, a Operação Hefesto

O mais novo escândalo ainda está em andamento. Em 1o de junho, a Polícia Federal (PF) desencadeou a Operação Hefesto, que levou o nome de Cavalcante ao noticiário. Lotado formalmente na liderança do PP na Câmara, o assessor parlamentar é reconhecido como alguém muito próximo de Lira e que o acompanha em diversas agendas e viagens. Sua mulher, Gláucia Maria de Vasconcelos Cavalcante, também já foi assessora do deputado, e sua filha, Maria Luiza Cavalcante, é sócia do primogênito do político, Arthur Lira Filho, na empresa de publicidade Omnia 360 Comunicação e Mídia. Morador de um condomínio de alto padrão em Marechal Deodoro (AL), Cavalcante preside o partido de direita União Brasil em Alagoas.


O nome de Cavalcante apareceu na investigação, aberta em 2022, no momento em que os policiais passaram a averiguar as movimentações financeiras da Megalic, empresa que vendeu “kits de robótica” para escolas no Nordeste. A empresa pertence a Edmundo Leite Catunda Júnior, pai do vereador de Maceió João Pedro Loureiro Pessoa Catunda (PP), conforme foi revelado pela Agência Pública em abril do ano passado. Ambos são aliados políticos de Lira no estado. Recentemente, João Catunda declarou ao podcast Política sem Off que Lira é seu padrinho político. “Não escondo isso de ninguém. Nós temos uma relação de muitos anos. É uma pessoa que sempre me ajudou, me deu a mão na política. Costumo dizer que, sim, é meu padrinho político.”


Reprodução Instagram Arthur Lira

Arthur Lira (PP-AL) e seu agora ex-assessor Luciano Cavalcante (de branco) em Alagoas em 2022

No caso Megalic, a PF suspeita de superfaturamento e pagamento de propina nas aquisições feitas pelo Ministério da Educação a partir de emendas parlamentares dentro do chamado “orçamento secreto”.


São muitos os pontos de interrogação sobre Cavalcante, que foi exonerado do gabinete da liderança do PP no início do mês, após seu nome ter ganhado manchetes como alvo da Hefesto. A PF apurou que a Megalic fez pagamentos a empresas pertencentes a um casal de moradores de Águas Claras, na região metropolitana de Brasília, Pedro Magno Salomão Dias e Juliana Cristina Batista. A polícia logo descobriu que o casal fazia saques em agências bancárias no Distrito Federal e, na sequência, supostamente entregava esses valores em espécie em diferentes locais da capital federal. A PF passou a acompanhar Magno e Juliana, fotografando e filmando tanto os provisionamentos de saque, dentro das agências bancárias, quanto a movimentação do casal nas quadras de Brasília.


Um desses endereços, posteriormente alvo de busca e apreensão da PF, foi um quarto de hotel no Complexo Brasil 21, local “em que Luciano se hospeda quando está em Brasília”, diz um relatório da PF. O apartamento 217 “foi visitado pelo motorista de Luciano, Wanderson Ribeiro Josino de Jesus”, após um encontro com Pedro Magno. No dia do encontro, diz a PF, houve uma “intensa troca de mensagens” e “inúmeras chamadas de áudio” entre Cavalcante e Magno.


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A PF detectou que Cavalcante e Magno trocaram 83 mensagens de 9 a 21 de maio passado. Além disso, eles se falaram “51 vezes por chamada de áudio” no aplicativo WhatsApp.


A PF descobriu ainda que existia um grupo no WhatsApp denominado “Robótica Gerenciamento”, do qual faziam parte seis pessoas, incluindo Cavalcante e Roberta Lins, a segunda sócia da Megalic, ao lado de Edmundo Catunda.


A polícia apurou que um carro utilizado pelo casal Magno e Juliana em Alagoas, uma camionete Toyota Hilux, está registrado em nome de um policial civil aposentado e empresário, Murilo Sérgio Jucá Nogueira Júnior, porém os “seus reais utilizadores/proprietários” seriam Luciano Cavalcante e sua mulher, Gláucia. Por fim, a PF levantou dúvidas sobre a casa utilizada por Cavalcante e Gláucia. Ela foi “recentemente construída pela construtora EMG”, empresa que recebeu “mais de meio milhão de reais da Megalic”. No mesmo período, Edmundo Catunda, sócio da Megalic, “teria transferido R$ 550 mil” para o policial dono da Hilux.


Na decisão que autorizou buscas e apreensões em diversos endereços, o juiz federal substituto da 2ª Vara Federal de Maceió (AL), Sérgio Silva Feitosa, escreveu que “a PF enaltece que o casal Gláucia e Luciano Cavalcante figura como ‘prováveis’ [sic] beneficiários finais do fluxo de dinheiro originado na empresa Megalic, transferido para as empresas de fachada do casal de operadores financeiros e usufruídos por meio da utilização do veículo Hilux e da magnífica casa construída no luxuoso Condomínio Laguna”.


Nas poucas vezes em que falou em público sobre a operação da PF, Lira nada explicou sobre essas atividades do seu assessor. À GloboNews, ele disse que cada um é responsável pelo seu CPF. “Eu não vou comer essa corda, vou me ater a receber informações mais precisas, e cada um é responsável pelo seu CPF nesta terra e neste país.”


Apesar das ligações entre os investigados e seu assessor Luciano Cavalcante, e deste com o parlamentar, Arthur Lira não é alvo da Operação Hefesto, inclusive por uma razão legal: parlamentares detentores de foro especial por prerrogativa de função, o chamado “foro privilegiado”, só podem ser processados pela  Procuradoria Geral da República (PGR) no Supremo Tribunal Federal (STF). Em algum momento, se a PF considerar ter encontrado indícios suficientes sobre uma eventual participação de Lira, o caso relativo ao deputado poderá ser transferido para o STF por iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) e da Justiça Federal em Alagoas, após um eventual relatório da PF informar os achados.


Em 2007, a Operação Taturana

Arthur Lira já esteve na mira da PF em outras ocasiões. Em 2007, quando ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa de Alagoas, foi deflagrada a Operação Taturana, que levantou indícios de que o parlamentar liderava um suposto esquema de “rachadinhas”, de acordo com denúncia do MPF. Assim como na Operação Hefesto, na época as investigações também chegaram a um assessor muito próximo do político, Djair Marcelino da Silva, apontado como o operador do esquema. 


Itawi Albuquerque Ascom TJ/AL

A Operação Taturana, de 2007, investigou um esquema envolvendo a Assembleia Legislativa de Alagoas

Treze anos depois do escândalo, ele voltou a trabalhar no gabinete de Arthur Lira, desta vez na Câmara dos Deputados, onde está lotado até hoje.  


A PF identificou que parte dos recursos que teriam sido desviados do Legislativo de Alagoas de 2001 a 2007 saía do salário de funcionários fantasmas, e seria Djair, então chefe de gabinete de Lira, supostamente o responsável por retirar o dinheiro na boca do caixa — uma espécie de “entreposto financeiro” da organização, segundo a denúncia do MPF. 


A ação, que começou com o MPF, foi parar nas mãos do Ministério Público Estadual em 2018, após decisão do STF que limitou o foro privilegiado a crimes durante e em função do cargo.


Conforme depoimento prestado por um gerente do banco Bradesco em 2007, Djair teria descontado “aproximadamente dez cheques nominais” de servidores comissionados contratados por Lira. “Eu fui envolvido nessa questão lá atrás, mas não ficou nada comprovado. Se tivesse, eu teria dito”,  afirmou o assessor em entrevista concedida à Pública em 2021. Ao ser questionado se existe a prática da “rachadinha” no gabinete do presidente da Câmara, ele respondeu: “Pelo que eu conheço do Arthur, há muito tempo, ele não permitiria esse tipo de coisa, tá certo? Nem eu permitiria”.


Lira e Djair se conheceram em 1989, quando o político promovia vaquejadas no Parque Arthur Filho, no município de Pilar (AL) e Djair trabalhava na TV Gazeta de Alagoas. O parlamentar contratou Djair para cuidar dos eventos no parque. Ao longo do tempo, Djair se transformou em “faz-tudo” de Lira. 


“O Djair toma conta do escritório de Arthur Lira em Maceió. Pensão alimentícia de Arthur Lira, quem paga é Djair, ele pagava o colégio do filho do Arthur Lira quando o menino vivia em Maceió; cartão de saúde, quem renovava era ele, tudo! Até quando o pai tinha que comparecer no colégio, quem ia era o Djair”, revelou à Pública uma pessoa próxima aos dois, que prefere não se identificar.


Reprodução

Ao longo de seu mandato na Câmara, Lira nomeou ao menos sete parentes de Djair (na imagem)

A PF revelou ainda que parte do dinheiro que teria sido desviado da Assembleia de Alagoas foi depositada na conta da ex-mulher de Arthur Lira, Jullyene Lins. Ela confessou, no processo, ter sido funcionária fantasma do ex-marido e de ser proprietária da conta que recebia o dinheiro. Além dela, as investigações apontaram que Lira também teria usado dois funcionários de seu gabinete à época como laranjas “para depositar em suas contas-correntes os valores indevidamente desviados”. Segundo os procuradores, os supostos laranjas “cediam suas contas para que, por meio delas, transitassem recursos destinados ao deputado”. 


As provas levantadas durante a operação renderam a Lira duas condenações na esfera cível por improbidade administrativa — em primeira instância, em 2012; em segunda instância, em 2016 –, mas elas foram anuladas em abril deste ano por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Humberto Martins. Na esfera criminal, ele foi absolvido depois que a investigação foi anulada sob a justificativa de que deveria ter sido realizada pela Justiça Estadual, e não pela Federal. O Ministério Público de Alagoas tenta até hoje reverter a sentença.


Lira aparentemente não se intimidou com as denúncias. Ao longo de seu mandato na Câmara dos Deputados, ele nomeou ao menos sete parentes de Djair em seu gabinete,  sendo que um deles tem indícios de ser funcionário fantasma, conforme revelou reportagem da Pública em março de 2022. Posteriormente, o próprio Djair voltou ao posto de chefe de gabinete do parlamentar. De 2011 a 2021, Lira empregou dois filhos, três sobrinhos, a ex-mulher e uma prima de seu assessor. “Todo político tem que ter as pessoas [em] que ele possa confiar”, justificou Djair à Pública. 


O caso se assemelha ao de Luciano Cavalcante, que teve a mulher empregada no gabinete de Lira e depois indicada por ele para um cargo na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), assim como seu irmão, Carlos Jorge Ferreira Cavalcante. A empresa pública é vinculada ao Ministério de Desenvolvimento Regional e teria influência política de Arthur Lira. Um dos filhos de Djair, André Marcelino Loureiro Viana Silva, depois de ter passado pela Câmara, também foi indicado na CBTU.


O único parente de Djair que continua lotado no gabinete de Lira até hoje é seu sobrinho Luciano José Lessa de Oliveira, mas há indícios de que ele dá expediente em outro local. Lessa, que é dono de uma gráfica em Maceió (AL), a Sete Comunicação Visual, foi flagrado por nossa reportagem em 2021 cinco vezes no local em horário comercial. 


O horário de atendimento divulgado nas redes sociais da Sete Comunicação é das 9 horas às 22h30. Lessa coloca na calçada uma placa com seus contatos e a divulgação do seu trabalho: “banners, adesivos, placas e faixas”. Segundo vizinhos ouvidos pela Pública, “ele costuma passar o dia na gráfica”. 


Ele foi nomeado por Lira no início do primeiro mandato do deputado na Câmara, em 7 de fevereiro de 2011. Nessa época, José Lessa já tocava a Sete Comunicação havia um ano, conforme registro na Receita Federal. Abordado por nossa reportagem, ele contou que trabalhou na campanha de Lira nas eleições de 2010, a convite do tio Djair, e que posteriormente foi convidado a integrar o quadro de funcionários do gabinete. Luciano disse, no entanto, que não vai a Brasília. “Eu lido aqui direto, com o pessoal daqui de Maceió”, afirmou.


Em 2012, o dinheiro no aeroporto

Haviam se passado apenas cinco anos do escândalo da Operação Taturana quando o nome de Arthur Lira voltou aos jornais de forma não exatamente honrosa. Em fevereiro de 2012, o brasiliense Jaymerson Amorim foi parado pelos agentes de fiscalização do aeroporto de Congonhas (SP) ao tentar embarcar para Brasília com cédulas em dinheiro presas ao corpo ou escondidas nos bolsos do paletó. Foram apreendidos R$ 106,4 mil.


A princípio, nos primeiros depoimentos aos agentes do aeroporto e à PF, Jaymerson desconversou e evitou a todo custo fazer qualquer ligação de seu nome com Lira, mas logo a PF descobriu que ele era um assessor do deputado, aliás, um dos mais próximos, e as passagens aéreas haviam sido bancadas com o cartão de crédito pessoal de Lira.


Reprodução/Agência Pública

Ofício da empresa aérea GOL confirma que cartão de crédito pessoal de Arthur Lira pagou passagem de Jaymerson

Num espaço de três anos, Jaymerson apresentou duas versões contraditórias sobre a origem do dinheiro. A PF e a PGR também apontaram contradições nas manifestações de Lira, conforme a Pública relatou em reportagem na semana passada.


Reprodução/Agência PúblicaReprodução/Agência Pública

Inquérito da PF reproduz conversa por WhatsApp que Lira manteve com seu assessor minutos antes de ele ter sido parado no aeroporto

Em 2018, a PGR denunciou Lira por supostas corrupção e lavagem de dinheiro. Um ano depois, o STF aceitou apenas a primeira imputação, mas Lira recorreu. Quatro anos depois, a PGR voltou atrás e “desdenunciou” o presidente da Câmara. Com isso, os ministros do STF na Primeira Turma rejeitaram a denúncia no último dia 6 de junho. Tanto Lira quanto Jaymerson agora se encontram isentos de qualquer investigação ou acusação pelo transporte do dinheiro. Agora Jaymerson, que voltou a trabalhar na Câmara, já avisou que pretende receber de volta o valor apreendido — corrigido pelo índice IPCA, são R$ 207 mil.


No depoimento e na defesa que apresentou ao STF, Arthur Lira confirmou que Jaymerson era seu assessor na época da apreensão do dinheiro, mas negou qualquer participação. A exemplo do que Luciano Cavalcante fez na semana passada, Jaymerson também se desligou, na época, da Câmara dos Deputados. Lira disse ao STF que a presença do seu então assessor em São Paulo estava relacionada a um “assunto pessoal” de Jaymerson. 


Precisamos te contar uma coisa: Investigar uma reportagem como essa dá muito trabalho e custa caro. Temos que contratar repórteres, editores, fotógrafos, ilustradores, profissionais de redes sociais, advogados… e muitas vezes nossa equipe passa meses mergulhada em uma mesma história para documentar crimes ou abusos de poder e te informar sobre eles. 


Agora, pense bem: quanto vale saber as coisas que a Pública revela? Alguma reportagem nossa já te revoltou? É fundamental que a gente continue denunciando o que está errado em nosso país? 


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JORNALISMO INDEPENDENTE PARECIA SER UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

 


Me mudei para São Paulo em maio de 2013. Vinda do interior do Paraná e recém formada em jornalismo, resolvi agarrar a primeira oportunidade de trabalho que apareceu, em uma grande agência de assessoria de imprensa. 

Fora do horário comercial, eu acompanhava atentamente e via crescer a cada dia um novo tipo de jornalismo feito nas ruas, no meio dos movimentos sociais e nas redes. Foi nessa época que topei com as primeiras matérias da recém-criada Agência Pública. O jornalismo estava em crise, com grandes veículos demitindo às dezenas em sucessivos passaralhos, e o jornalismo independente parecia ser uma luz no fim do túnel. 

Em uma manhã, encontrei uma convocação no fim de um texto do Bruno Torturra sobre aqueles passaralhos: “Semana que vem, terça-feira, dia 11 de junho, vou ajudar a promover junto com o Fora do Eixo e o Existe Amor em SP, uma reunião aberta com profissionais de mídia, desempregados ou a fim de se desempregar, para apresentar um projeto que vem sendo elaborado em fogo brando há mais de um ano. E que agora está no ponto para receber todos os que se animarem com a ideia: Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação).”

No dia 11 de junho, saí do trabalho e peguei o metrô rumo ao centro. Mas não consegui chegar ao evento porque, naquela noite, o centro de São Paulo foi tomado por uma névoa de gás lacrimogêneo. Essa era uma das táticas que a polícia usava para reprimir as milhares de pessoas que há alguns dias protestavam contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus

Pelo meu primeiro smartphone, acompanhei a cobertura feita pela Mídia Ninja e percebi que havia uma diferença grande entre o que aparecia na tela do celular e na tela da TV. No celular, o foco eram as reivindicações e a violência policial; na TV, o destaque era para “vândalos” e “baderneiros” que pioravam o “trânsito”. 

Nos dias seguintes, as manifestações cresceram. Jornalistas foram feridos pela polícia, pessoas foram presas por carregar vinagre na mochila para diminuir a ardência causada pelas bombas de gás. 

Em poucos dias, tudo mudou. Lembro de me ver refletida num prédio da Avenida Faria Lima no meio de uma multidão de verde e amarelo, um grupo diferente daqueles que originalmente protestavam contra os 20 centavos. Hoje a gente sabe onde aquilo ia dar. 

Passado junho de 2013, me aproximei da Mídia Ninja. Ouvia e observava muito, mas tentava não me expor. Passei a acompanhar as atividades e manifestações de movimentos sociais, de indígenas, de professores. Fazia algumas fotos com meu celular e trocava impressões e informações com outros midiativistas por um chat. 

No dia 15 de outubro, encontrei com um amigo no metrô Faria Lima para ir a um ato de dia dos professores. Logo que chegamos na Marginal Pinheiros, perto de uma loja Tok&Stok, as bombas começaram. Fomos para a rua de trás e sentamos numa escadaria, esperando o tumulto passar para ir embora. Um vendedor ambulante tentou nos vender capas de chuva.

Mas as bombas começaram a estourar na rua em que estávamos. Entramos junto com outras pessoas no estacionamento da Tok&Stok. Um helicóptero passou e, em seguida, uma fileira de uns 20 policiais passou correndo, entrou no estacionamento e nos mandou sentar no chão. Nos colocaram deitados de barriga pra baixo, enfileirados. Fui separada do meu amigo e colocada no porta-malas de uma viatura com outras três mulheres. A garota do meu lado segurou minha mão. Um dos policiais viu e fez comentários homofóbicos.
 
Quando chegamos à delegacia da Polícia Civil em Pinheiros, éramos dezenas de detidos. Inclusive o meu amigo e o vendedor de capas de chuva. Vimos quando policiais civis comentaram indignados sobre a polícia militar trazer tanta gente para eles ouvirem e ficharem. Ficamos esperando no pátio da delegacia sem saber o que ia acontecer. 

Uma prima advogada veio me socorrer. Contei a história. Disse que não sabia por que estava ali. Não tinha quebrado nada, estava apenas seguindo a manifestação quando as bombas começaram e tive que entrar no estacionamento para me proteger e me distanciar da confusão. Não fui agredida, também não fui revistada. Mesmo assim fui fichada, embora os advogados presentes tenham tentado argumentar com o delegado que aquilo era inconstitucional. Prestei depoimento e fui embora.

Naquela mesma noite, 70 manifestantes foram detidos no Rio de Janeiro. No dia seguinte, enquanto eu trabalhava, recebi uma ligação de uma repórter do jornal O Globo. Com medo, disse que não daria entrevista. A manchete do jornal no dia seguinte foi “Lei mais dura leva 70 vândalos para presídio”. Abaixo do título, fotos e pequenos perfis de três manifestantes detidos no Rio, com frases como “defende o anarquismo” e “coleciona participações em protestos”, como se isso justificasse as detenções. 

Uma das pessoas com o rosto estampado na capa do jornal era Elisa Quadros, que em 2013 ficou conhecida como “Sininho”. Elisa foi presa em Bangu duas vezes e teve a vida destruída. “A mídia é muito mais poderosa do que a prisão. A destruição da identidade é eterna”, disse em uma entrevista à Pública em 2017. Quase três anos depois, a entrevista de Elisa bateu forte em mim. Quando perguntada sobre quando virou a “Sininho”, respondeu que foi em 15 de outubro de 2013.

Apesar de detidas no mesmo dia, o que aconteceu comigo foi muito pouco comparado ao que Elisa e tantas outras pessoas passaram naqueles meses. Mas foi suficiente para me deixar com muito, muito medo. Parei de conversar com midiativistas e de fazer posts no Facebook. Adotei um protocolo de não exposição na internet que me acompanha até hoje. Ainda é medo. Em dez anos, é a primeira vez que escrevo um relato sobre 2013.

No início de novembro de 2013, recebi uma intimação para depor no DEIC, o Departamento de Investigações Criminais da Polícia Civil de São Paulo. As oitivas faziam parte do “Inquérito black bloc”, instaurado naqueles dias pela polícia comandada pelo então governador Geraldo Alckmin. O inquérito buscava enquadrar como “associação criminosa” grupos de pessoas que tinham participado de manifestações, em vez de investigar individualmente cada delito de vandalismo. No meu caso, e no de muitos outros, nem vandalismo tinha.  

No dia 14 de novembro, fui ao DEIC, acompanhada de minha prima advogada. As pessoas detidas no mesmo dia que eu também estavam lá. A primeira coisa que reparei foi a diferença no tratamento dispensado a mim, uma mulher branca de classe média, acompanhada de uma advogada, e aos rapazes negros, acompanhados por suas mães, com quem os policiais eram bastante estúpidos.

As primeiras perguntas feitas a mim foram onde eu morava, quem me sustentava e onde eu trabalhava. Depois dessas respostas, a conversa mudou. O policial passou a fazer as perguntas meio que se desculpando. Até que ele apareceu com uma edição da revista IstoÉ com uma mulher supostamente adepta da tática black bloc na capa. Abriu a revista na reportagem e começou a me perguntar se eu conhecia aquelas pessoas, se já tinha feito algum treinamento armado em um sítio no interior de São Paulo. Respondia que não, incrédula. Em fevereiro de 2014, a Pública fez uma reportagem que explica perfeitamente o “Inquérito black bloc” e traz relatos parecidos com o meu. O inquérito foi encerrado em janeiro de 2016, sem acusados. 

Me lembro de questionar muito a cobertura da mídia tradicional sobre os atos de 2013 antes, mas principalmente depois de ser detida. Tive que convencer familiares de que não tinha nada de errado em ir a manifestações e participar de iniciativas de transformação da minha própria profissão. No fundo, era isso que mais me interessava e foi isso que me levou a estar ali. 

O jornalismo no Brasil já estava mudando antes de 2013, mas me parece que a partir dali ficou tudo muito exposto: enquanto as grandes empresas, em crise, demitiam aos montes e tentavam viabilizar a transição do impresso para o digital, veículos recém-criados, como a própria Pública, mostravam que dava sim pra fazer jornalismo de qualidade fora das grandes redações.

Muitos novos veículos surgiram depois de junho de 2013. Em 2016, a Pública lançou o Mapa do Jornalismo Independente, em que mapeamos 79 iniciativas em todo o Brasil. De 2013 para 2014, o número de novas organizações jornalísticas havia saltado de 5 para 18. Em 2015, foram criados 21 novos veículos de jornalismo independente.

Foi nessa época, em 2014, que tive o privilégio de começar a trabalhar em uma redação que contava histórias diferentes das que apareciam nas TVs e nos jornais. Uma redação que, meses antes de eu chegar, já tinha contado melhor que eu toda essa história que relembro hoje, quando investigou o “Inquérito black bloc”. Que fez questão de chamar Elisa Quadros por seu nome.

Uma redação que acaba de publicar um especial sobre os ecos de 2013 que sentimos na pele até hoje. Como a direita tomou gosto pela rua e foi se radicalizando até invadir as sedes dos três poderes em 2023? Qual o perfil dos manifestantes que protestaram nos últimos dez anos? O que aconteceu com o Movimento Passe Livre, que deu o pontapé inicial nos atos de 2013? E o que aconteceu com estudantes que ocuparam universidades em repúdio à PEC do teto de gastos, aprovada durante o governo Temer em 2016? Essas foram algumas das perguntas que procuramos responder no especial “10 anos do Brasil nas ruas”, que você confere no site da Pública. 

Nos últimos dez anos, pude ver de perto aquilo que eu achava mais legal no jornalismo crescer, se organizar, se multiplicar, transformar o campo. E arrisco dizer que, sem isso, teria sido impossível resistir à ofensiva contra a democracia que veio depois. 

Aqui na Pública, a gente se orgulha de fazer um jornalismo que escancara as contradições do país, expõe injustiças e ajuda os brasileiros a lutarem por um país melhor. Sem informação não tem luta. E sem Aliados não tem Pública. Apoie a Pública hoje e faça parte deste movimento!

 
QUERO AJUDAR NA LUTA POR UM PAÍS MELHOR
Um abraço,

Marina Dias
Diretora de Comunicação da Agência Pública

 

13 de junho, dez anos depois 


Na semana passada, publicamos na Agência Pública um bacaníssimo especial sobre a década em que o Brasil foi às ruas. Estamos à beira de 13 de junho de 2023, dez anos depois da manifestação que marcou a história do Brasil para sempre. Desde então, o “gigante acordou” e não mais dormiu, os brasileiros foram às ruas – sejam de direita, sejam de esquerda, sejam de extrema direita ou abertamente golpistas. 

Não há como nós, jornalistas, abster-nos de refletir sobre essa jornada, e sobre como o que vivemos ainda hoje é fruto daquela catarse. 

Há algum tempo as tecnologias da informação deixaram de nos trazer esperanças para, em vez disso, criar angústias. Mas houve uma época em que não era assim, e essa época está na raiz de tudo o que estamos vivendo hoje. 

Doze anos atrás, o mundo vivia um período de profunda expansão da disrupção que a internet causaria. Eu vivi isso muito de perto. O fenômeno do WikiLeaks, um grupo de ativistas, jornalistas e desenvolvedores, surpreendeu o mundo todo ao publicar vazamentos massivos de informações enviadas por cidadãos que estavam cansados de serem manipulados pelos seus governos. Como vocês sabem, eu participei disso como jornalista convidada por Julian Assange para coordenar o vazamento dos documentos brasileiros. 

E vi de perto a potência revolucionária que aqueles dias traziam. Na época, havia um enorme movimento pelo compartilhamento livre de informação, pelo copyleft – modelo de direito autoral que estimula a cópia e a distribuição em vez da concentração – pela criação de blogs e perfis que ajudavam a espalhar informações que antes não tinham espaço para entrar no debate público. E pela facilidade de coordenar manifestações e ações políticas pelas redes sociais.  

Isso era especialmente potente no Brasil, onde a mídia sempre foi muito concentrada, com seis famílias controlando a maior parte do mercado e o modelo preponderante tendo sido, sempre, o comercial. Lembremos que não temos um sistema público pungente e que a EBC sempre sofreu ataques dos mesmos grandes grupos econômicos. Qualquer tentativa de estabelecer um canal como a BBC, por exemplo, é taxado de “censura” ou “manipulação” dos políticos da vez.  

No começo dos anos 2010, houve uma explosão de novos meios de comunicação digital. A Agência Pública nasceu neste momento de expansão e otimismo; temas como machismo, racismo, a questão indígena, conflitos de terra, raramente apareciam nos jornais. Havia um apetite da população por histórias que falassem dessas questões, mas o jornalismo tradicional, ainda dominado pelos mesmos atores de sempre, não enxergava isso. Esse jornalismo digital usou muito as redes sociais como o Facebook para dar visibilidade a esses temas. 

Por outro lado, a expansão da internet permitia outra coisa: a promessa era que agora todo mundo poderia entrar no debate público. Passamos de um modelo de comunicação massiva onde alguns experts diziam o que importava e o resto recebia, passivamente, para um modelo em que todo mundo fala com todo mundo, e portanto qualquer um pode (em teoria) influenciar o seu destino e o destino da sua comunidade e do seu país. 

A primeira expressão disso foram os protestos massivos que ocuparam praças no mundo todo, e até derrubaram governos, como na Primavera Árabe; e ocuparam também o centro do poder financeiro mundial com o Occupy Wall Street. 

Aqui no Brasil, esses ventos de libertação chegaram com os protestos de maio de 2013. Era o sentimento que a internet aproximaria e daria poder às pessoas como nunca antes. 

De certa forma, isso aconteceu. Surgiram ali novos políticos, ativistas, movimentos e influenciadores. Nasceu também uma geração de meios digitais fundados por jornalistas que trouxeram para as suas pequenas redações independentes algumas das inquietudes que tinham em jornais maiores, onde havia temas que não eram abordados, onde as decisões seguiam sendo tomadas por um grupo pequeno – e homogêneo – de executivos, a grande maioria homens e brancos. 

Surgiram mídias feministas, de jornalistas negros, sites investigativos, sites locais independentes, coletivos que se especializaram em transmitir protestos ao vivo, como o Midia Ninja, uma das grandes estrelas de 2013. 

Aos poucos, nós, que fundamos meios nessa explosão do começo dos anos 2010, percebemos uma enorme mudança no mundo digital. A internet se plataformizou, como já discutimos nesta newsletter tantas vezes. Google, Facebook/Meta, Amazon, Twitter, TikTok, se tornaram verdadeiros atravessadores de tudo o que é falado entre os seres humanos. E como são uma praça pública na qual está todo mundo, nós, jornalistas, quem produz informação de maneira profissional, temos que estar lá. 


 

Se antes chegávamos ao nosso público tranquilamente através das redes sociais, essas empresas decidiram que fazia mais sentido reduzir o alcance do nosso jornalismo e cobrar mais para entregá-lo ao nosso público.  
  

A plataformização da internet significou ainda que o debate público é norteado pelos algoritmos que premiam o que gera ódio, o que gera êxtase, o que gera escândalo. E isso é bem o oposto do que deveria ser o bom jornalismo. 

O bom jornalismo tem de explicar as coisas, tem de investigar as coisas e gerar uma conversa. Conversa, diálogo, debate, são cada vez menos presentes nas plataformas de redes sociais – como sabemos, isso não é por acaso, mas pelo design das plataformas ultracapitalistas que querem apenas manter o leitor grudado na tela pelo máximo de tempo.  

Se as camadas de controle que transformaram a internet num oligopólio são invisíveis, duas potencialidades estão à vista de todos. Por um lado, a chama, a demanda por participação, por voz, por uma democracia mais inclusiva – o combustível para as jornadas de junho – segue viva. 

Por outro, a revolta contra as instituições e sistemas que tradicionalmente impediram essa voz. 

São esses os sentimentos que têm impulsionado o crescimento de movimentos extremistas no mundo todo. 

Quem melhor se aproveitou dessa mistura de fomento ao ódio pelo algoritmo que quer nos manter presos nas redes sociais e o desejo de ser sujeito da própria história foi a extrema direita. 

Aprendendo a fomentar o escândalo e a revolta, as gangues digitais trabalham cotidianamente para pautar o debate, perverter a agenda pública e corroer a democracia para dar espaço a governos autoritários impulsionados por grupos militantes fanatizados. São incansáveis.

Essa é uma das raízes do bolsonarismo no Brasil. E atacar o jornalismo, como se ele fizesse parte das instituições que geram essa revolta, faz parte dessa estratégia. 

Há que se admitir que a indústria das Fake News, organizada e bem financiada, consegue entregar o que até hoje nós, jornalistas, não conseguimos: uma certa participação social.  

A promessa das Fake News é permitir ao sujeito “desvendar” por si mesmo a verdade escondida por supostas elites manipuladoras. As Fake News são participativas, enquanto o jornalismo, em que pese todas as transformações da última década, continua sendo um processo de entrega unilateral, dos jornalistas para o público. 

Assim, o que o bolsonarismo entrega é a ilusão de uma autodeterminação. Mas é uma ilusão tão real, tão excitante, que leva pessoas a cometerem atos de violência e crimes, como vimos na invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. 

É uma manipulação perigosíssima à qual, temo, o jornalismo ainda não conseguiu compreender e muito menos se opor. 

Muitas vezes, pelo contrário, ao impulsionarmos notícias em busca de clicks, ou até fofocas, irrelevantes sobre figuras da extrema direita – passeios da família Bolsonaro, por exemplo –, estamos apenas fomentando o circo. A política se tornou também espetáculo participativo.

Por isso, o jornalismo nesse cenário de acosso à democracia precisa ser reflexivo. O jornalista tem que se perguntar a todo momento o que importa ser falado, o que não merece receber atenção – isso se chama “silêncio estratégico” – e o que tem que ser explicado de novo e de novo ao público. 

Agora, defender a democracia, explicar a democracia, é a tarefa cotidiana de todo jornalismo que se pretende sério.

Tenho receio de, assim como aconteceu ao longo desses últimos dez anos, em que deixamos o 13 de junho “na geladeira” como se nunca tivesse acontecido, estarmos vendo nossa memória coletiva rapidamente esquecendo dos seríssimos eventos golpistas, terroristas e de sabotagem das eleições que ocorreram apenas 5 meses atrás. 

Mas, se há um remédio para isso, ele se chama jornalismo. Por isso, fecho a newsletter de hoje recomendando a reportagem de Allan de Abreu na Revista Piauí mostrando que há mais digitais de militares na tentativa de golpe do que imaginamos. Antes de pensarmos num futuro, ainda temos muito o que descobrir sobre nosso recente passado.


Natalia Viana
natalia@apublica.org
Diretora Executiva da Agência Pública