quarta-feira, 11 de junho de 2025

BOLSONARO DE AGORA " DEU PARA FRAQUEJAR"

Podemos usar muitas palavras, mas talvez a mais assertiva seja: fraquejada. O ex-presidente Jair Bolsonaro se sentou no banco dos réus no Supremo Tribunal Federal ontem, 10 de junho, com a Constituição de 1988 sobre a mesa. Disse que nunca atacou as urnas eletrônicas. Argumentou que era retórica. Perdeu a ordem dos papéis que segurava. Chamou Alexandre de Moraes para ser seu vice. Disse que errou muitas vezes na vida pública. Pediu desculpas.

Como bem apontou a repórter Alice Maciel, Bolsonaro tentou atenuar tudo o que fez nos quatro anos de governo e as ações que hoje o levaram a estar no centro da acusação de tentativa de golpe de Estado. E ainda o fez em tom de brincadeira.

Você sabe bem que nenhuma dessas acusações são brincadeira. O que está em jogo no STF é uma denúncia grave de que o presidente e figuras de primeiro escalão das Forças Armadas teriam tramado dar um golpe após perderem as eleições.

O próprio Bolsonaro se contradiz, quando admite que cogitou decretar estado de sítio. Nas palavras ensaboadas do ex-presidente, “foi conversado hipóteses de dispositivos constitucionais”. Ora, dispositivos constitucionais discutidos às sombras e à revelia do Supremo, que é o guardião da Constituição, têm um nome: golpe.

Mas o sempre agressivo Bolsonaro não poderia repetir no STF o mesmo tom que usou durante seus anos de governo, ou gritar como fez no ato na Avenida Paulista, em 7 de setembro de 2021, que “qualquer decisão do ministro Alexandre de Moraes esse presidente não mais cumprirá”. O Bolsonaro de agora, quatro anos depois, fraqueja – para usar um termo que o próprio já usou de forma machista contra sua filha – , pois sabe que seu futuro está nas mãos de um poder que ele tanto desdenhou.

Agora, o julgamento segue para que o Judiciário decida qual o envolvimento de Bolsonaro e de cada um dos agentes nessa trama. A acusação e as defesas terão um período para pedir novas diligências. Em seguida, um prazo de 15 dias para as últimas alegações. Só então o processo deve terminar na 1ª Turma do STF, com as sentenças e eventuais absolvições.

Nós vamos seguir acompanhando o julgamento na Agência Públicaato a ato. Mas a verdade é que só esperar o importante papel da justiça institucional não basta. Se Bolsonaro está no bando dos réus, o jornalismo teve um papel fundamental ao denunciar e revelar camadas indesejadas que personagens da trama golpista não queriam que você soubesse.


A Pública existe para fiscalizar o poder. Mas só consegue seguir firme nessa missão se tiver você ao lado. Alie-se à nós e invista em um jornalismo investigativo, independente e de interesse público.

 
✊🏾 Quero estar ao lado da Pública!
Um abraço,

Bruno Fonseca
Chefe de redação da Agência Pública

 

domingo, 1 de junho de 2025

 

Respeito à Marina Silva: ela é coerente, o governo Lula, não muito


Os ataques em série de senadores à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e ao licenciamento ambiental revelam que a única frente ampla que está realmente funcionando nesse país é a que mira um futuro que vai no sentido oposto ao esperado das Conferências do Clima da ONU, como a COP30, que será realizada em Belém no fim deste ano. 

Enquanto o presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, faz uma romaria por todo o mundo convidando governos, empresas e sociedade civil a se engajarem em um mutirão pelo combate à mudança do clima, o mutirão que se formou no Parlamento nas últimas semanas atropela o principal regramento ambiental do país. Um movimento que pode, em última instância, ajudar a acelerar a mudança do clima, ao abrir espaço para desmatamento e mais exploração de petróleo.

A tentativa de flexibilização do rito do licenciamento não vem de agora. Durante o governo Temer, quase foi à votação, mas foi contida pela oposição, com importante atuação da Frente Parlamentar Ambientalista e da sociedade civil. Nos anos Bolsonaro, avançou um passo importante, ao ser aprovada em 2021 na Câmara, então comandada por Arthur Lira (PP-AL), mas parou no Senado, à época liderado por Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que atendeu aos apelos da oposição e desacelerou a tramitação.

Por que, então, a boiada – que havia sido contida no governo que agia claramente em prol do desmonte ambiental – passa justamente sob o presidente Lula, que desde a campanha eleitoral de 2022 tenta se posicionar como um grande líder mundial que vai salvar o planeta? 

(Esse, aliás, é o tema do episódio desta semana do nosso podcast Bom Dia, Fim do Mundo. Convido todo mundo a ouvir.)

Muitas análises políticas de colegas jornalistas já deram conta do poder de fogo do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), em sua empreitada pela liberação de petróleo no litoral do seu estado, na Foz do Amazonas. E também sobre como parte do governo quer acelerar obras, como a pavimentação da BR-319, e vê no Ibama um entrave para isso. O próprio Lula acusou o órgão de agir contra o governo e de fazer lenga-lenga em relação à autorização para a prospecção de petróleo na Foz do Amazonas.

A questão, e parece que às vezes Marina Silva é a única a enxergar isso com clareza, é que não dá para querer um desenvolvimentismo sem freios, a todo custo, e ao mesmo tempo impedir o colapso planetário. Uma coisa vai na contramão da outra.

Os impressionantes ganhos da gestão atual no combate ao desmatamento da Amazônia, que caiu quase 50% em dois anos, podem sucumbir se obras de estradas forem feitas na região sem o devido cuidado, por exemplo. 

Fora o impacto em emissões de gases de efeito estufa que o consumo desse combustível pode causar – é mais do que toda a emissão evitada pela queda do desmatamento.

O PL do licenciamento ambiental tem um artigo que parece ter sido feito sob medida para liberar o fatídico asfaltamento da BR-319, rodovia de cerca de 900 km que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM), cujo “trecho do meio”, de mais ou menos 400 km, está em estado de calamidade e fica intransitável em períodos de chuva.

Asfaltar esse trecho é prioridade dos políticos locais e foi uma das questões por trás dos ataques de senadores à Marina nesta terça-feira (27). O senador Osmar Aziz (PSD-AM) disse que ela “está atrapalhando o desenvolvimento do nosso país”. Ponto sobre o qual ela fez questão de retrucar lembrando que ficou 15 anos fora do governo e a obra não saiu do papel do mesmo jeito. Porque, óbvio, ali o risco é gigantesco.

Ninguém nega que a pavimentação é importante para as comunidades que vivem no entorno, muito menos Marina, mas ela sempre diz que, para ser feita, essa obra precisa de muitas salvaguardas, de todo um esforço para blindar a região do efeito mais perverso – e extremamente bem conhecido – de se abrir rodovias na Amazônia, que é o desmatamento promovido não só pela obra em si, mas pelo efeito de espinha de peixe que ele cria no entorno.

Convido o leitor a fazer uma busca rápida na internet de imagens de satélite de rodovias como a Transamazônica. A partir da via principal, a espinha dorsal, se abrem vias transversais, bem como uma espinha de peixe mesmo, por onde avançam grileiros e exploradores de madeira. 

Ocorre que o tal “trecho do meio” da 319 – uma rodovia aberta durante a ditadura militar, que foi asfaltada à época, mas com os anos, sem o devido cuidado, acabou tendo trechos tomados pela mata – corta uma das áreas ainda mais bem preservadas do estado do Amazonas

Uma mata extremamente rica em biodiversidade que ainda resiste contra o avanço do arco do desmatamento justamente porque o acesso ali é difícil. O asfalto pode reverter isso. Um cálculo feito por pesquisadores da UFMG estimou que a obra pode quadruplicar o desmatamento nessa região.

Mas perder a vegetação ali pode acelerar o chamado ponto de não retorno da floresta. E a gente poderá testemunhar a Amazônia reduzindo muito sua capacidade de produzir chuva e regular o clima. 

O PL diz que o licenciamento ambiental de pavimentação em instalações preexistentes será realizado mediante emissão de uma simples licença de adesão e compromisso LAC, sem realização de estudo de impacto ambiental. O texto abre a possibilidade também para que estradas secundárias sejam licenciadas pelos estados pela chamada Licença por Adesão e Compromisso (LAC), uma espécie de licenciamento autodeclarado, sem medidas preventivas, nem mitigadoras. 

Fora o efeito simbólico. Só de a lei ser aprovada, já vai ter grileiro se antecipando na especulação de terra no entorno. E isso, gente, não só vai ser o fim dos planos de zerar o desmatamento da Amazônia como ainda vai ser um tiro no pé do agronegócio.

Há uma desconexão clara entre as discussões no âmbito global e no âmbito nacional. Combater o desmatamento é a principal contribuição que o Brasil pode entregar no curto prazo para os esforços globais de combate às mudanças climáticas – resultado que Lula vai querer mostrar na COP30. Mas ele não vai se sustentar pelo rumo que as coisas estão tomando.

De fato é mérito deste governo a queda do desmatamento. Assim como tinha ocorrido na passagem anterior de Lula pelo Palácio do Planalto. Em 2012, já sob Dilma, o desmatamento na Amazônia chegou à menor taxa histórica.

Porém, em uma dinâmica muito parecida com o que estamos vendo agora, naquele ano, também sob forte pressão da bancada ruralista, houve no Congresso a alteração do Código Florestal. Muitos especialistas atribuem àquela mudança, que anistiou desmatamentos antigos, o início da inversão da curva do desmatamento, que chegaria ao ápice depois com Bolsonaro. 
 
Outra similaridade entre as duas leis é que o novo Código Florestal criou o Cadastro Ambiental Rural, o CAR, que é autodeclaratório e abriu a porteira pra grilagem, do mesmo modo que o PL do licenciamento cria a LAC, também uma autodeclaração por parte do empreendedor. É mais uma lei jogando contra o programa de combate ao desmatamento.

“É um governo cheio de contradições e na agenda ambiental não dá pra ter contradição, tem de ter linha unificada de ação, porque momentos ruins invalidam os momentos bons”, me disse Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. O fato de o desmatamento ter caído ainda deixa o governo bem na fita, mas se voltar a subir, disse ele, a conversa muda de patamar, e aí a pressão, inclusive internacional, pode crescer. 

Marina, que não só é muito coerente, como também fiel, costuma dizer que os resultados bons até o momento só foram obtidos porque o governo todo agiu para conter o desmatamento (o plano de combate na Amazônia, o PPCDAm, é composto por 19 ministérios). É sua forma de argumentar que não está sozinha, apesar das contradições dos companheiros de Esplanada. 

Mas ela bem sabe que só mesmo uma enorme mobilização social pode agora parar o desmonte em curso, como Marina mesma disse ao sair do Senado: “O licenciamento ambiental é uma conquista da sociedade brasileira. Neste momento, sinceramente, só o povo brasileiro pode evitar esse desmonte que está sendo proposto. Eles pensam que estão agredindo uma pessoa. Estão agredindo um povo. O futuro de um povo. Os direitos de um povo. E até mesmo os interesses econômicos e estratégicos de um povo com esse tipo de atitude. Eu quero ver como a gente vai continuar conseguindo os mesmos resultados positivos (…) se demolirem a vértebra da proteção ambiental, que é a lei do licenciamento.”


Giovana Girardi
giovana.girardi@apublica.org
Chefe da Cobertura Socioambiental

TÁ TODO MUNDO FALANDO AGORA, MAS E DAQUI A 1 ANO?

 

Você também deve estar vendo: tá todo mundo falando de bets. Desde que grandes influenciadores digitais como Virgínia Fonseca e Rico Melquíades foram prestar depoimento à CPI das Bets, parece que todo dia surge uma notícia nova relacionada ao tema. Na semana passada, o presidente do Corinthians, Augusto Melo, foi indiciado por furto, lavagem de dinheiro e associação criminosa em contrato com a Vai de Bet. Ele foi afastado do cargo nesta semana. Na quarta-feira, o Senado aprovou um projeto de lei que restringe as propagandas de bets, proibindo a participação de atletas, artistas e influenciadores.

É ótimo que o assunto esteja na boca do povo e ocupando as manchetes dos jornais.

Mas o que nos perguntamos aqui na Pública é: será que esse tema vai continuar no noticiário daqui um mês? E daqui um ano? O que vai acontecer depois que as bets saírem das manchetes?

Porque, mesmo com regulação, as bets não vão sumir. Elas vão continuar operando e lucrando com a perda de milhões de brasileiros. Agora, imagina na Copa? Ano que vem tem Copa do Mundo e claro que as bets estarão lá, para lucrar com esse megaevento.

Aliás, fui agora fazer uma pesquisa sobre lucros das bets em ano de Copa do Mundo. Não encontrei a informação que queria, mas sabe o que achei na aba “notícias” do Google? Diversas “notícias” em sites “informando” aos leitores sobre as melhores odds (probabilidades de resultados) e como apostar em determinado torneio de futebol. 

Muitos desses sites estão cobrindo as notícias relacionadas às bets nas últimas semanas, mas também ganham com elas. Será que quando o tema for soterrado por outros, ainda vai ter alguém de olho nas bets?

Se depender da Pública, vai. Mas depende de você também.

Nossa equipe quer se debruçar sobre a atuação das bets no Brasil e investigar a fundo. Para fazer isso, precisamos arrecadar R$ 100 mil até o fim de junho. O tempo está passando rápido. Você pode se juntar a essa força-tarefa para não deixar esse assunto cair no esquecimento enquanto mais pessoas se endividam. 

Apoie o jornalismo que vai investigar as bets, e não ganhar dinheiro com elas. Faça um pix para contato@apublica.org ou considere fazer doações mensais em apoie.apublica.org para ganhar recompensas. 

Aposta na gente?
Sim, quero reportagens da Pública sobre bets!
Um abraço,

Marina Dias
Diretora de cmunicação da Agência Pública

 

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Ed. #392 | Sexta-feira, 30 de maio de 2025.
 
Senadores, ouçam a ministra, vocês podem aprender muito com ela
Sou fã de podcasts, como ouvinte e como jornalista. Aquela voz, que parece estar falando diretamente com a gente, tem o encanto do bate-papo, em que a simpatia e a curiosidade vem antes do julgamento. Você não precisa concordar para se informar, se divertir, se indignar, pensar e até criticar quem fala – mas precisa ouvir. 

Uma prática social saudável que está faltando no debate político, como se viu nas cenas de violência explícita contra Marina Silva em sua audiência nesta semana no Senado. 

Perdemos muito com isso, não apenas pela agressão a todas as mulheres nas falas misóginas e racistas dos senadores Plínio Valério e Marcos Rogério, mas porque o Brasil precisa cada vez mais da voz de Marina

Voltando aos podcasts, precisamente ao episódio de 10 de agosto de 2023 de “Mano a Mano”, em que Mano Brown entrevista Marina Silva. Para os que gostam de uma boa conversa, daquelas em que a gente se emociona e aprende, é imperdível.
 Se os senadores se pusessem “em seus lugares”, aqueles que ocupam como representantes dos eleitores de seus estados, só teriam a ganhar ouvindo essa mulher, embalada “em caminha de cedro e travesseiro de algodão de samaúma”, que se tornou uma das vozes mais influentes no debate mundial sobre sustentabilidade e emergência climática.
Eu já conhecia Marina há muitos anos como jornalista, já a entrevistei mais de uma vez, e ela sempre me despertou interesse por sua trajetória pessoal e política, que acompanho desde que ela era uma jovem representante dos seringueiros no Acre, formada pelo mestre Chico Mendes e alfabetizada aos 16 anos – mas em 15 dias –, que estudou com freiras católicas e delas se separou para se engajar na militância política.

Mas ouvir a psicopedagoga com pós graduação em teoria psicanalítica, contando aos 65 anos o que aprendeu criança naquele ambiente cultural e natural riquíssimo da Amazônia, me fez entender porque sua voz única e sua disposição ao diálogo – ela rompeu com Lula e o PT, partido que ajudou a criar, mas voltou para desempenhar um papel crucial no governo – representam um trunfo para o Brasil e para todos nós que queremos adiar o fim do mundo

“Eu vim de uma família de matriarcas, minha avó era uma parteira tradicional, e ela fazia todos os partos da região, fez o meu parto também, ela adorava literatura de cordel, cantava e representava os repentes pra mim. Desde pequenininha eu gostava de estar com ela. Meu tio era mateiro, cerameiro, cesteiro, era xamã, foi criado por indígenas no Alto Madeira. E isso foi muito rico na minha vida: eu sou psicopedagoga e sei que eu fui uma criança muito estimulada. Acho que conheço pelo menos quarenta espécies frutíferas nativas da Amazônia, que você pode comer sem nenhum risco, e muitas espécies de árvores, muitas espécies de cipó, muitas espécies de pássaros. Eu sempre brinco que eu fui analfabeta até os 16 anos, mas eu já era PHD em saber narrativo, que é o saber das populações tradicionais”.

O que Marina aprendeu no Seringal do Bagaço, caminhando 14 quilômetros por dia nos viradouros dentro da mata desde os 11 anos, cortando as árvores e recolhendo a seringa, mas sem deixar de brincar com as irmãs, ouvir as histórias da avó e aprender artesanato com o tio, está na raiz de sua trajetória excepcional e mostra a extensão de nossa ignorância sobre a Amazônia e sobre os povos da floresta, como observa Mano Brown, espantado com as histórias da ministra. “Não é uma vida perigosa?”, pergunta. 

“É uma vida difícil e ao mesmo tempo maravilhosa”, ela responde. “Você tem a beleza da floresta, você tem o cheiro da floresta, você tem o encantamento das árvores, da diversidade, dos pássaros. Era divertido tomar banho nos igarapés, onde eu buscava água no meu jamaru (cabaça), mas ao mesmo tempo eu tinha medo da onça pintada, só de ouvir o esturro da bichana, morria de pavor (rs)”.

”Mas a onça é um animal lindo e necessário e toda essa vivência colocou em mim um imenso amor pela floresta”, diz hoje a mulher que aos 35 anos se tornou a senadora mais jovem da história da República, aos 38 anos ganhou o Prêmio Goldman do Meio-Ambiente, o chamado Nobel Verde e, antes de completar 50 anos, já fazia parte de uma lista do jornal britânico Guardian das 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. 

Marina conheceu o machismo e o racismo na cidade, aos 16 anos, quando lhe disseram que ter cabelo de preta era feio e ela descobriu que o matriarcado que prevalecia em sua família era exceção e não regra no mundo. Também descobriu que a leishmaniose, uma zoonose crônica que afeta 12 milhões de pessoas no mundo, é uma consequência do desmatamento (aquela que ela pegou, e a atormenta até hoje, veio com a abertura da BR 164 nos anos 1970), assim como a malária que matou duas de suas irmãs e o tio xamã.
 Mais do que tudo isso, Marina aprendeu que, para além do seu amor, manter de pé a floresta onde nasceu é essencial para toda a humanidade, mesmo para aqueles que desconhecem o seu valor.
“Todo problema dos outros é problema nosso, e nossos problemas são dos outros também”, ela diz, criada na solidariedade comunitária da avó que caminhava quilômetros na floresta e ficava até uma semana fora para atender aos partos, do pai que foi até o terceiro ano do ensino básico mas fazia as contas para os seringueiros analfabetos não serem roubados pelo patrão, do tio xamã que curava “panema” (azar) dos que os procuravam. “Nós éramos uma comunidade de serviço”, ela resume. 

É essa mulher que os senadores, do alto de sua ignorância, tentaram calar. E é essa mulher, presidente Lula, que você tem que ouvir de verdade. Sua voz tem a profundidade e a clareza da sabedoria ancestral aliada ao conhecimento científico; sua trajetória única se reconhece como fruto de um coletivo. É disso que a gente precisa para que o futuro não se transforme em pesadelo para nossas crianças. 

Ouçam Marina Silva, mesmo que seja para discordar. O Brasil só tem a ganhar com isso. 


Marina Amaral
Diretora Executiva da Agência Pública
marina@apublica.org