quinta-feira, 25 de junho de 2026

 

Após "ação simbólica", moradores de Comuna seguem em surto de bicho de pé

13 de junho de 2025
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Moradores da Comuna Produtiva Maria de Fátima, no bairro Malvinas, em Extremoz (RN), denunciam que a situação de infestação por bicho de pé, abandono institucional e insegurança alimentar continua sem qualquer resolução efetiva. Mesmo após uma ação realizada pela Prefeitura no último dia 17 de maio, que, segundo relatos da coordenação local, teve caráter paliativo e ocorreu fora do território da ocupação, o cenário segue de desassistência total, com agravamento dos problemas sanitários e sociais.

“A realidade do povo é agora. É de agora, não é do dia 17”, destaca Sérgio Luiz, militante do MST e integrante da coordenação da comuna. Ele contesta o uso político das imagens feitas naquele dia pela gestão municipal: “Aquelas fotos bonitas foram feitas só pra dizer que fizeram alguma coisa. Apareceram só pra tirar foto. Depois sumiram”.

Ação limitada e fora do território

A única ação promovida pela Prefeitura ocorreu na comunidade Alto da Bela Vista, localizada a cerca de um quilômetro da comuna. De acordo com Sérgio, a justificativa repassada informalmente a alguns moradores foi de que não era possível realizar a atividade dentro da Comuna Maria de Fátima por se tratar de área não desapropriada e por não haver piso adequado para montagem de estruturas móveis.

A ação "Aqui Tem Cuidado" foi promovida pela Secretaria Municipal de Extremoz no último dia 17 de maio. Foto: Cedida

"Fizeram a gente sair do nosso território pra receber um atendimento mínimo. Disseram que não dava pra fazer lá, e levaram a população pra outro canto. Lá ofereceram só pequenas cirurgias, pouca coisa. Acho que estavam com nojo da gente", relata o coordenador, que também afirma que a ação não foi articulada com as lideranças da ocupação, e teria tido o objetivo de enfraquecer o movimento e desmobilizar os moradores.

“Fizeram um cadastro, prometeram cesta básica, limpeza da área com caçamba, um retorno pra dedetização. Nada foi cumprido. Não voltaram. Não deram resposta nem pra gente que está à frente da situação. Só mesmo a campanha de um sábado e mais nada. Queriam calar o povo”, completa.

Infestação e uso de remédios veterinários

A comuna, que existe há um ano e sete meses, é uma ocupação organizada por famílias sem teto, em torno da produção agroecológica e da luta pela terra. Ainda assim, não recebe nenhum tipo de assistência regular da Prefeitura de Extremoz. Crianças, idosos e pessoas com baixa imunidade são os mais afetados pela infestação do parasita, e muitos moradores têm recorrido a remédios veterinários, como "espirro de onça" e pomadas para bicheira animal, como forma desesperada de tentar conter a infecção.

Sem dedetização, sem atendimento médico, sem saneamento básico e em moradias improvisadas — muitas delas em barracas sob calor extremo — a população resiste com o que tem. “Prometeram limpar os lixões. Como é uma comuna produtiva, não podemos colocar fogo nos resíduos, tem que haver coleta. Nem isso foi feito. Estamos aguardando até hoje”, relata Sérgio.

Abandono, silêncio e tática de invisibilização

A comunidade também afirma que, desde o início do surto, tem buscado contato direto com representantes da Prefeitura, inclusive com assessores da prefeita Jussara Sales (PSD), mas nada foi encaminhado de fato. Segundo os relatos, o único órgão a comparecer brevemente foi o CRAS, apenas para fazer um cadastro inicial, que não teve desdobramentos práticos.

"Até o povo do CRAS sumiu. Diziam que iam voltar. Nada foi feito na comuna. Nada mesmo", reforça Sérgio.

Diante da falta de resposta, os moradores veem a postura do poder público como uma estratégia para enfraquecer o movimento de luta por moradia. A remoção dos atendimentos para fora do território e a ausência de continuidade das promessas feitas são encaradas pela comunidade como táticas de esvaziamento simbólico e institucional da ocupação.

O que é bicho de pé e os riscos

O Tunga penetrans, popularmente conhecido como bicho de pé, é um parasita que penetra a pele humana, provocando coceira intensa, inflamações, dor e lesões. Quando não tratado, pode gerar infecções secundárias, dificuldade de locomoção, risco de tétano e infecções generalizadas, especialmente em pessoas com saúde fragilizada.

A infestação está associada a condições de extrema pobreza, solo seco, falta de calçado e ausência de saneamento básico, como é o caso da Comuna Maria de Fátima.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Extremoz solicitando esclarecimentos sobre a ausência de continuidade das ações prometidas, mas novamente não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

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