Ao permitirmos que o vício na tecnologia aniquile o aprendizado da paciência, tenho medo de que as crianças crescidas com o digital não sejam capazes de lidar com as frustrações mais básicas da vida – como o fato de que tem coisas que a gente não consegue aprender mesmo, todo mundo é demitido na vida, há crushs que não gostem da gente, e o fato que as pessoas e os cachorros e os sonhos morrem. Daí vem o excesso de medicalização: para lidar com a vida (mas isso é assunto para outra coluna).
Neste momento, nos EUA, o vício das redes sociais está sob julgamento. Desde o começo do mês, um tribunal de Los Angeles está julgando um processo inicado por uma jovem de 19 anos, conhecida como Kaley, que, obstinada como nossa Gracie Kelly, pede uma indenização e punição ao Google e à Meta por deliberadamente arquitetarem seus produtos para serem viciantes para crianças. Snapchat e Tiktok, também réus no processo inicialmente, decidiram entrar em acordo secreto com a reclamante.
Kaley conta que começou a usar o YouTube aos 6 anos e o Instagram aos 9. Fixou-se nos modelos de beleza ali propagados, viciou-se em fazer selfies e usar filtros de embelezamento, o que contribuiu para o desenvolvimento de dismorfia corporal e outros problemas de saúde mental. Vieram a depressão e os pensamentos suicidas.
O processo aponta recursos como filtros de beleza, rolagem infinita e reprodução automática como equivalentes a um “cassino digital”.
No último dia 18, o próprio Mark Zuckerberg foi até o tribunal para testemunhar. Disse que se preocupa com o bem-estar dos adolescentes. “Se você construir uma comunidade e as pessoas não se sentirem seguras, isso não é sustentável e, eventualmente, as pessoas vão embora e se juntam a outra comunidade.”
Mas, em meio a respostas evasivas, ele teve que olhar demoradamente para centenas de selfies de Kaley no Instagram, novinha, posando, obcecada, numa colagem orquestrada pelo seu advogado, Mark Lanier.
Lanier mostrou ainda alguns documentos internos da Meta que são profundamente reveladores, de dar náusea. Em um e-mail interno de 2017, um diretor explica que, por decisão de Mark, “nosso objetivo estratégico geral é todo tempo gasto por adolescentes na rede” – ou seja, apostar em qualquer produto que aumentasse a quantidade de tempo que os adolescentes passam na plataforma.
Em outro documento, de 2015, a empresa estima que 30% das crianças norte-americanas de 10 a 12 anos usem Instagram – e outro documento mostra que a empresa tinha como meta ampliar o tempo gasto por crianças de 10 anos. “Se quisermos ganhar muito com os adolescentes, precisamos trazê-los para a plataforma ainda quando são pré-adolescentes”, explicava um executivo.
O caso judicial atualmente em julgamento em Los Angeles é fruto da união de 1.600 processos semelhantes movidos por famílias e por distritos escolares do estado. A decisão do júri deverá influenciar a resolução de todos esses casos pendentes.
Há ainda milhares de processos acontecendo em tribunais estaduais e na corte federal americana.
Este é apenas o primeiro passo – vale lembrar que foram necessários quase 15 anos para que os processos judiciais contra as empresas de tabaco resultassem em uma mudança de política governamental dos EUA, alertando sobre os riscos do fumo e criando restrições à expansão da indústria.
Estamos, portanto, apenas no início da jornada que levará ao controle social das Big Techs. O que também exigirá tempo – e paciência.
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