segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

 Fernando Siqueira

Vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Réquiem pela paz no mundo

Mesmo o ditador venezuelano sendo um ser abominável, não justifica violar a soberania do país, colocando em risco toda a América Latina

Publicado em 05/01/2026

A guerra representa o mais grave e profundo retrocesso da humanidade. É a supremacia do instinto primitivo de sobrevivência — o “cérebro reptiliano” — sobre a empatia, a razão e a consciência ética. Nada há de civilizado em bombardear populações, matar crianças pela fome ou pela violência direta, como ocorre em Gaza e na Palestina; nem em prolongar conflitos como o da Ucrânia; tampouco em forçar migrações em massa de pessoas de países pobres e rejeitadas como indesejáveis nos países ricos, muitas vezes condenadas à morte em travessias em barcos em condições precárias. Tudo isso é vergonhosamente desumano.

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Segundo relatório da ONU (2024), o mundo gastou cerca de US$ 2,7 trilhões em armamentos em um único ano — valor suficiente para erradicar a fome global por décadas. Sem guerras, não haveria tamanha miséria nem desigualdade extrema. Ainda assim, o país mais rico do planeta, os Estados Unidos, abriga 43 milhões de pobres, dos quais 18 milhões vivem em extrema pobreza. Se isso ocorre no centro do sistema, o que esperar dos países periféricos? O capitalismo selvagem produz indiferença, destrói o humanismo e deforma as mentes, tornando normal e aceitável o sofrimento alheio.

O ser humano é a única espécie que elege líderes idiotas, incompetentes, narcisistas e destrutivos. A história recente está repleta de exemplos. Animais escolhem os mais aptos para os liderar; nós, frequentemente, escolhemos os piores. Não é surpresa que o mundo esteja tão desestruturado, à deriva. O presidente dos EUA acaba de violar as leis internacionais invadindo um país para lhe tomar o petróleo. Os EUA estão numa insegurança energética, pois tem uma reserva de 40 bilhões de barris e consomem 8 bilhões por ano. Mesmo o ditador venezuelano sendo um ser abominável, não justifica violar a soberania do país, colocando em risco toda a América Latina. Até a Marine Le Pen, ultradireitista francesa condenou a invasão: “A soberania dos estados é inegociável...Ela é inviolável e sagrada”. O “pretenso xerife” atropelou todos os escrúpulos possíveis.

O astronauta Ron Garan, após 178 dias no espaço, afirmou que a humanidade vive uma ilusão: “da órbita terrestre não se veem fronteiras, raças ou religiões — apenas uma nave frágil, única, abrigando oito bilhões de pessoas. Não há outro lar possível, não há plano B”, afirmou ele.

A ciência moderna confirma o que antigas tradições espirituais já ensinavam há milênios: tudo está interligado. A física quântica demonstra que partículas permanecem conectadas mesmo a distâncias inimagináveis. Isto só é possível porque existe um campo permeando e interligando tudo. Campo eletromagnético, matriz divina. Não importa o nome dado a esse campo universal — ele existe e nos une. Somos feitos das mesmas partículas; compartilhamos a mesma origem e o mesmo destino. Tudo é energia, tudo vibra, tudo se relaciona.

O psiquiatra e neurocientista David Hawkins demonstrou que estados como amor, compaixão, perdão e gratidão elevam a vibração da consciência humana, enquanto ódio, medo, ganância e ego exacerbado a degradam. A violência coletiva é reflexo de uma humanidade que vibra em frequências baixas, com falta de amor fraternal.

Somos, portanto, irmãos — física, biológica e espiritualmente conectados. O sofrimento de um reverbera em todos. As bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki deveriam ter sido um ponto final na insanidade bélica. Não foram. A indústria da guerra, altamente lucrativa, transformou a destruição em negócio. Países competem em arsenais capazes de exterminar a vida no planeta várias vezes. Quem autorizou essa elite armamentista a brincar com o destino da humanidade?

A falácia de que a paz se impõe pelo poder das armas sustenta apenas o lucro de poucos. Eles ignoram que caixões não têm gavetas. Nada se leva para a outra dimensão além do legado deixado — e esse legado hoje é de destruição, desonra e vazio moral.

Racismo, desprezo pelos pobres, violência contra as mulheres, devastação ambiental e crescimento do crime organizado são sintomas do mesmo colapso ético. Muitas vezes, já não se distingue o crime organizado das práticas do “mercado” global. A lógica da ganância corrói tudo o que toca.
A concentração de riqueza é obscena: 1% da população detém cerca de 50% da renda mundial. Os outros 99% disputam o restante. Essa desigualdade não é natural; é construída. Ela alimenta conflitos, medo, que incentiva o consumismo, portanto o lucro e a submissão.

Somos partes de uma mesma sinfonia, ondas do mesmo oceano, células de um mesmo organismo vivo. Temos 36 trilhões de células executando milhares de reações por segundo, 42 trilhões de bactérias positivas e 86 bilhões de neurônios. Portanto a vida não é fruto do acaso cego, mas de uma inteligência altamente criativa, o que exige responsabilidade, não exploração. A ambição de poucos e a ignorância de muitos nos fazem viver como ilhas isoladas, quando somos partes de um só corpo.

É hora de romper esse ciclo. É hora de priorizar a paz, a justiça social, o respeito aos direitos humanos e a harmonia com a natureza. Viver com dignidade, amor e igualdade é possível e extremamente necessário. Que a antiga mensagem dos hippies, dos anos 1970 continue atual e urgente: façamos o amor, não a guerra.

 Vladimir Safatle

O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial

O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal

Publicado em 05/01/2026

Entre 1884 e 1885, as principais potencias ocidentais se reuniram em Berlim para decidir como elas partilhariam o território africano entre si. O evento foi conhecido como “Conferência do Congo”. Não faltaram discursos edificantes sobre tirar tais países da servidão, do atraso a fim de trazer o progresso e a liberdade. O resultado final foi a consolidação de uma segunda fase do processo colonial europeu, que durou até os anos setenta do século passado, quando as coloniais portuguesas na África, as últimas pertencentes a uma potencia europeia, enfim se libertaram. Durante esse quase um século, os africanos e asiáticos conheceram bem o que o “progresso e a liberdade” europeus efetivamente significavam. Saque de suas riquezas, genocídios, massacres administrativos, humilhação colonial. Nada muito diferente do que eles haviam feito séculos antes nas Américas, neste momento em que, pela primeira vez, o direito europeu se impôs como direito global.

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Para quem imaginava que essa lógica abertamente colonialista e imperial havia ficado para os livros de história, o dia 03 de janeiro de 2026 está aí para desmentir. Pois poderíamos o recente ataque dos EUA a Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da “descoberta” das Américas e da “incursão civilizatória” na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre.

Acuado diante de uma crise do capitalismo global que simplesmente não passará mais, os EUA entenderam que o momento histórico exigia uma redivisão do globo a partir das principais potências nucleares a fim de permitir o retorno das práticas mais explícitas de pilhagem e saque que fizeram a história da acumulação primitiva. Isso significava que não fazia mais sentido perder tempo em guerras contra potenciais nucleares, como a Rússia, nem fazia sentido fingir multilateralismo escutando seus impotentes aliados europeus. Na verdade, pela primeira vez na história, a ordem global se reconstruiria sem a hegemonia europeia. Assim, a Ucrânia foi deixada nas mãos de Putin e a América Latina voltou a ser visto como espaço livre para todo o tipo de intervenção norte-americana a fim de deixar os chineses longe. Não por outra razão, a primeira ameaça internacional de Trump foi contra o Panamá a fim de impor seus interesses na circulação de seu estratégico Canal. Agora, acordamos com o ataque a Venezuela e o sequestro de seu presidente.

Isso significa que se consolida paulatinamente uma nova desordem mundial, com a Europa com mero coadjuvante, a Rússia restabelecendo sua zona de interesse mais imediata, a China como potência que se prepara para retomar Taiwan e os EUA explicitando seu papel de vampiro da América Latina.

2.

Ações norte-americanas dessa natureza na América Latina não são novidades. Basta lembrar do sequestro do então presidente do Panamá, Manuel Noriega, em 1989. Algo semelhante havia sido feito em 1983 contra a pequena ilha caribenha de Granada e seus líderes ou contra o Haiti de Jean-Baptiste Aristide. Poderíamos acrescentar nessa lista todos os golpes de estados patrocinados pelos EUA na região com suas montanhas de cadáveres, seus aparelhos de tortura, de censura, de espoliação de recursos da região. No entanto, por um tempo parecia que a experiência catastrófica das ditaduras latino-americanas havia deixado as intervenções mais explícitas para o passado. Agora, temos a prova de que não é mais o caso. No momento do colapso do capitalismo fóssil, Elon Musk já tinha dado a deixa de que os EUA iriam atrás do resto de energia que restava no globo, independente de onde estivessem, seja na Bolívia ou na Venezuela.

Não é difícil entender como essa ação destrói, de uma vez por todas, com o quadro jurídico internacional que fora criado a partir da Segunda Guerra. Tal quadro já havia sido seriamente abalado com a Guerra do Iraque de George W. Bush, quando EUA e Reino Unido invadiram o Iraque sem nenhuma autorização da ONU e com a justificativa do dever de destruir supostas Armas de Destruição de Massa nas mãos de Sadam Hussein. Armas que até hoje ninguém viu. Na verdade, o que o mundo viu foi como apagar um país do mapa até reduzi-lo a um entreposto comercial de empresas norte-americanas. Depois, o resto da ordem mundial foi massacrada com a inação diante do genocídio em Gaza e com a perseguição norte-americana a juízes de Cortes Internacionais de Justiça: um dos poucos dispositivos de ordem internacional que se demonstraram ativos diante de tamanha catástrofe. Agora, vemos como funcionará esse novo momento global.

Na justificativa de ações dessa natureza, pode-se usar os velhos argumentos surrados de sempre: que Maduro é um ditador, que fraudou eleições e coisas similares. De fato, seu governo foi catastrófico e repito o que já escrevi em outra ocasião: não cabe a esquerda apoiar governos que atiram contra sua própria população e que criam milhões de refugiados. Mas esse é um problema a ser resolvido pelos venezuelanos em seu direito de auto determinação e auto governo. Tão ruim quanto Maduro é a oposição venezuelana que vive de tentar dar golpes desde 2000.

3.

Digo isso apenas para salientar que o fato de Maduro ser quem é não muda em nada o fato de nenhum país ganhar com isso autorização de invasão e de tomada de governo. Se assim fosse, o primeiro país a cair deveria ser exatamente um dos maiores aliados dos EUA, a saber, a Arábia Saudita. Um país que faz o Irã parecer uma democracia escandinava. Ou poderíamos falar do estado genocida de Israel e seu apartheid, pois se tem alguém nesse mundo que merecia um Tribunal Internacional, esse alguém é Benjamin Netanyahu. Ou da Hungria, ou da Turquia, ou… Ou seja, faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído. E o critério é simplesmente não estar mais alinhados aos interesses das potencias coloniais. Quem quer fortalecer uma ordem mundial com princípios elementares de justiça estaria nesse momento procurando fortalecer Cortes Internacionais, e não procurando destruí-las como faz os EUA.

No entanto, há algo ainda mais dramático para nós, brasileiros. É claro que nesse novo colonialismo norte-americano da América Latina, os dois países que colocam problemas para tal estratégia são México e Brasil. E dentre esses dois o problema principal é o Brasil, que tem sua estratégia geopolítica própria e mostrou ser capaz de pratica-la sem precisar do aval dos EUA, isso enquanto o México tem uma economia muito dependente para pensar em voos maiores. Ou seja, o alvo principal nessa fase de retorno ao imperialismo explícito é o Brasil. O ataque contra a Venezuela, não foi apenas contra a Venezuela: foi contra o Brasil.

Os EUA já tentaram nos desestabilizar no ano passado, mas sem sucesso. Eles certamente tentarão de novo, já que contam com o auxílio não apenas da extrema-direita local com seu sonho orgiástico de estar sob a bota de um império mas, e não podia deixar de ser, dos nossos queridos “liberais”. Se me permitem, de toda a fauna que compõe a direita latino-americana, o “liberal” é a mais exótica. Sempre com uma tirada contra a “polarização”, contra a “cultura do cancelamento” e outras “divisões da sociedade”, ele nunca deixa de apoiar um golpe ou ver como natural que uma potencia ocidental invada um país, sequestre seu presidente e diga que a partir de agora vai tomar conta de seu petróleo.

Nesse momento, abre-se um horizonte de guerra contínua a nossa frente. O capitalismo não consegue mais iludir ninguém com suas antigas promessas de estabilidade e de governança mundial. Promessas essas que nunca foram reais, mas que mobilizavam milhares de discursos e de “análises” sobre espaços multilaterais paulatinamente construídos, de “guerras justas” e de coalizões de defesa da “razão” e de “intervenções humanitárias”. Ao menos agora não vamos ter que lidar com tamanho cinismo. Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. As defesas também terão de ser.

Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Autêntica)

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