quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

 

“O ataque dificilmente teria ocorrido se a Venezuela fosse membro dos BRICS”, diz analista venezuelano ao GGN

Sequestro de Maduro pelo governo Trump revela um erro estratégico tomado pelo presidente Lula, diz o escritor Juan Ramón Guzmán

Publicado em 21/01/2026
Foto: Paulo Pinto Agencia Brasil

O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump, líder dos Estados Unidos, dificilmente teria acontecido se a Venezuela não tivesse sido rejeitada no BRICS com voto do Brasil sob a presidência de Lula. É o que avalia o escritor, analista político e ativista Juan Ramón Guzmán, que concedeu uma entrevista diretamente da Venezuela à advogada, mestre em Direitos Humanos e doutoranda em Ciências Jurídicas, Dora Nassif, colaboradora do GGN.

Na entrevista, Guzmán atacou duramente o imperialismo, argumentando que o verdadeiro interesse das potências globais é o controle das vastas reservas de petróleo e ouro da Venezuela. Ele também apontou que a instabilidade econômica que atinge o país é fruto de uma “guerra financeira e de sanções econômicas”, e não de falhas internas da gestão atual. O convidado alertou que a queda da soberania venezuelana pode gerar um efeito dominó em toda a América Latina, instando líderes regionais a buscarem união e independência. Ele criticou pontualmente o presidente Lula por ter impedido a entrada da Venezuela nos BRICS, o que, em sua visão, teria esvaziado o cerco de Trump.

“Tenho duas queixas contra Lula. A primeira é que ele se opôs quando Rússia e China já haviam acordado em ter a Venezuela como membro dos BRICS. Se opôs porque ele queria provas das eleições do ano passado, nas quais Maduro venceu. Mas por causa de erro tático, dessa formalidade, isso agora se converteu em um erro estratégico. O ataque dificilmente teria ocorrido – nem o assédio [de Trump à Venezuela] de quase 5 meses – se a Venezuela fosse membro dos BRICS. Há aí um erro tático por parte da burguesia latino-americana, que para agradar aos Estados Unidos, se opôs veementemente, e agora estamos pagando por isso”, avaliou Guzmán.

O segundo erro supostamente cometido por Lula, na visão do analista, foi ter pedido “democratização da participação nas eleições do ano passado”, com a entrada de María Corina Machado. A líder de oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz é considerada uma golpista pelo governo Maduro.

Apesar das críticas, Guzmán elogiou a resposta de Lula ao ataque dos Estados Unidos e ao sequestro de Maduro. Oficialmente, Lula afirmou que os bombardeios à Venezuela “ultrapassam uma linha inaceitável” e representaram uma “afronta gravíssima à soberania”.

Novas eleições

Durante a entrevista, Guzmán explicou que o povo venezuelano não espera por uma nova eleição porque não há, em tese, previsão constitucional. Segundo ele, a norma prevê eleições extraordinárias dentro de 30 dias a partir da vacância do cargo de presidente em hipóteses específicas: quando o presidente renuncia voluntariamente; quando uma junta médica comprova incapacidade mental para seguir no poder, ou quando o presidente recebe uma imputação de delito grave. Na visão de Guzmán, a Constituição não se aplica ao “sequestro violento e abrupto” de Maduro por outro Estado.

Na terça-feira, 7 de janeiro, a Casa Branca afirmou à imprensa que ainda é muito cedo para falar de eleições na Venezuela. Além disso, Guzmán lembrou que um decreto da Venezuela, já avalizado pela Justiça venezuelana, reafirma Maduro como o presidente legítimo no poder, mas na condição de “presidente sequestrado”. Seu mandato termina em 2030. Em sua ausência, governará a vice-presidente Delcy Rodrigues, com apoio do governo Trump – uma prova de que a intenção é criar as condições para explorar ao máximo o petróleo venezuelano, pouco se importando em tirar o chavismo do poder.

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Sentimento geral

De acordo com Guzmán, hoje a Venezuela vive um “sentimento geral de indignação e impotência”. “Há uma pequena elite que ficou feliz que se livrou de Maduro”. Mas a grande parte da população ainda não digeriu o ataque dos EUA. Ele contou de um episódio chocante: uma família inteira morreu dentro de um carro que foi atingido por uma das bombas jogada sobre Caracas pelas forças estadunidenses. “A bomba derreteu a família e esse carro como se tivesse caído no fundo de um forno siderúrgico. Transformou-se em líquido, em brasa.”

Cavalo de Tróia

Guzmán ainda disse que o ataque dos EUA só teve sucesso porque, pela primeira vez na história, os norte-americanos contaram com um Cavalo de Tróia. “Para se tomar uma fortaleza, sempre foi necessário ter ajuda interna. Isso aconteceu na Venezuela. Um povo conscientizado, politizado, não pode ser destruído nem pelas forças mais poderosas do mundo. Veja o povo cubano. Veja os palestinos. O que aconteceu na Venezuela, aconteceu porque os imperialistas tiveram ajuda para interceptar aeronaves [que saíram em defesa de Maduro]. Toda a força de segurança de Maduro foi assassinada para se chegar a ele. Os gringos não são gênios, é que eles contaram com cumplicidade interna. O Estado venezuelano tem obrigação de encontrar esses traidores”, disparou o entrevistado.

Clique aqui para assistir a entrevista completa

Fonte(s) / Referência(s):

Jornalismo AEPET

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ELES TENTARAM, A GENTE NÃO DEIXOU

 

Olá,

Na metade do ano passado, recebi uma mensagem no WhatsApp que acendeu um alerta. “Dá uma olhada no edital do CBD”, escreveu uma fonte, se referindo à compra de canabidiol pela prefeitura de São Paulo. A oferta do produto na rede municipal de saúde era aguardada há anos e poderia beneficiar pacientes com dor crônica, epilepsia, ansiedade, depressão e outras doenças em que o uso de CBD demonstra benefícios. Bastou uma primeira leitura para perceber que havia algo errado.

O contrato previa um gasto de mais de R$ 500 milhões por ano com o produto de uma fabricante do Paraguai, sem histórico de participação em licitações no Brasil. Para efeito de comparação, esse valor é equivalente ao orçamento anual de alguns órgãos da prefeitura, como a Procuradoria-Geral do Município.

Passei semanas estudando o edital, conversando com pesquisadores e procurando literatura especializada. Em setembro, publicamos a reportagem que revelou que a administração de Ricardo Nunes (MDB) estava pagando oito vezes o preço de mercado pelo CBD. E que isso só foi possível por um direcionamento do edital, que exigia componentes na composição do óleo que não traziam nenhum benefício para o produto, mas resultou na eliminação das outras concorrentes da licitação.

Agência Pública foi a primeira a noticiar os problemas dessa compra.

A partir da reportagem, o Ministério Público de São Paulo e o Tribunal de Contas do Município abriram investigações. A Anvisa interditou lotes do produto. Na semana passada, a prefeitura mandou os médicos suspenderem a prescrição e cancelou o contrato.

Foi um grande impacto para uma reportagem, que evitou um rombo gigantesco no caixa do município. Fiscalizar o poder público e lançar luz sobre irregularidades é uma das funções do jornalismo em que acreditamos – e que só é possível por causa dos leitores que sustentam nosso trabalho.

Depois da Pública, outros veículos também publicaram matérias sobre o assunto – muitas vezes sem citar quem descobriu a história. Pode parecer frescura nossa querer reivindicar autoria. Mas não é questão de ego. Somos um veículo independente, sem anunciantes e sem rabo preso com ninguém. Fazemos nosso trabalho bem feito, apesar das dificuldades, e por isso é tão importante que os leitores saibam quem investigou e quem revelou fatos que  os poderosos queriam deixar escondidos.

É importante dizer que essa não era a notícia que gostaríamos de dar. Reportagens anteriores da Pública já mostraram que o acesso ao canabidiol ainda é bastante difícil no Brasil: cada frasquinho pode custar mais de R$ 1 mil e mais de 80% dos pedidos de acesso gratuito ao produto são negados pela Justiça.

Irregularidades como a que revelamos atrasam ainda mais o acesso de quem precisa. Isso é grave, mas não pode ser justificativa para malfeitos.

Seguimos fazendo jornalismo para defender o direito à saúde, mas sem abrir mão da moralidade pública. E isso só é possível porque temos apoio de nossos leitores. Considere ser nosso Aliado para que mais investigações como essa vejam a luz do dia.

CORRA, PERNA CABELUDA

 

Olá,

Perdoem o “amostramento”, sou pernambucano. E como os quase 10 milhões de seres agraciados com a sorte de nascer nesta terra, quase não piso no chão nesta semana. A lista de motivos para se orgulhar de ser do centro cultural do universo sempre foi a maior em linha reta da galáxia e vai além do sotaque mais bonito do país, mas sempre há quem tente reduzir a região a uma farofa de pobreza e sertão, consumida com camadas de bolo de rolo ao som de um frevo que não toca nas rádios.

O Globo de Ouro premiar “O Agente Secreto” duas vezes é um recado gringo sobre o que sai da capital do cinema, título que mesmo os compatriotas brazucas há anos rejeitam.

Não é exagero, nem figura de linguagem, é pernambucanidade. Pode chamar de arrogância.

E ainda assim, minha emoção, sentida ao assistir ao filme pela primeira vez, experimentada novamente ao ver Kleber Mendonça Filho no palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, tinha menos a ver com meu estado e mais com meu ofício.

Pra mim, “O Agente Secreto” sempre foi sobre jornalismo.

Eu acompanhava Kleber no Caderno C, do Jornal do Commercio, enquanto eu começava na profissão, no Diario de Pernambuco. Eu o achava um chato. Ele não curtia um filme sequer que eu gostava, detonava com elegância e falava belamente de obras que eu teria, no mínimo, como 26ª opção para o fim de semana. E trocava ideia com o hoje também cineasta Júlio Cavani, nosso repórter de cinema no jornal “mais antigo em circulação na América Latina” – sim, nosso abuso não é só marketing, é identidade também. E acompanhava cada resenha dos dois. Muitas vezes para chegar à conclusão “eu só posso estar doido”, ao vê-los concordar sobre alguma obra que eu havia detestado.

Mas essa é a questão: é possível discordar, achar chato e, ainda assim, reconhecer a importância, a competência, admirar o trabalho, mesmo envolto no Fla-Flu, ou melhor, no Sport x Santa Cruz jornalístico. No último domingo, vibrei como num estádio. Me emocionei com a imagem de amigos fazendo o mesmo, aos montes. Com bares cheios, gente chorando. Pernambuco numa Copa do Mundo, meus caros. E vencendo!

Ser pernambucano é lidar com uma realidade fantástica que te assombra em cada referência. A Perna Cabeluda, inserida em “O Agente Secreto” de modo magistral (que até agora eu não entendo como pode uma loucura daquela “funcionar” na telona), por exemplo, aterrorizou de verdade famílias pernambucanas. E quase levou um outro colega, da Rádio Jornal, Jota Ferreira, à prisão. A ele é creditada a criação da figura mítica que atacava amantes no Parque 13 de Maio, no Centro do Recife.

A fábula acabou sendo usada também como uma cifra, uma forma de dar cara de sobrenatural ao trabalho de militares a serviço da ditadura e fazer o absurdo ser aprovado pela censura em forma de notícia. Uma mentira, publicada nos jornais, que fez muitas crianças chorarem, e que estrela a obra que deve levar o estado (eu sei, o país, me deixe) ao Oscar.

Minha antiga casa, o Diario, também é personagem no filme. Vai ali ajudando a ditar o tempo e fornece pistas sobre a história do professor Armando, em sua derradeira tentativa de fuga. É a ficção usando a credibilidade documental para dar veracidade ao que se ouve e vê.

São a recortes e registros em áudio que duas pesquisadoras recorrem para juntar cacos da história do protagonista para tentar desbravar o que seria apenas mais uma vítima da ditadura – a real, que muitos insistem em chamar de ficção e que, todos os anos, insistimos aqui na Pública em revisitar, lembrar e descobrir novos detalhes pouco humanos. As duas quase vão fazendo o que nossa redação faz todos os dias: catando informações, juntando pontas soltas, investindo em personagens, ouvindo gente e com um esforço coletivo de registrar a história, dando nome aos pistoleiros, latifundiários do agro,  engravatados, desmatadores e violadores dos direitos humanos, em vez de atribuir qualquer terror a pernas sem donos, com pelos ou sem. E se em plena democracia estamos censurados há mais de 2 anos, o que imaginar do tempo dos orelhões de fichas?

Em tempos de amnésia seletiva e verdades relativas, para mim, “O Agente Secreto” é sobre jornalismo, sobre a busca e a recusa ao esquecimento e à negação do passado. Kleber, jornalista, criou um Armando/Marcelo como lembrete das vidas não apenas perdidas, mas protagonistas de histórias que poderiam facilmente deixar de ser contadas e passar a eternidade desconhecidas até por famílias desavisadas.

É sobre se importar de levar informações até a quem simplesmente não a deseja, bem como a quem se incomoda com ela, porque alguém tem que fazê-lo e porque merecem ser contadas. É sobre isso que fazemos todos os dias, mesmo quando parece sem valor, para que o futuro tenha curadoria, contexto, emoção e realidade, do Brasil, do mundo e de Pernambuco (sim, nessa ordem). A quem se pergunte até agora onde estaria o agente secreto do filme, apresento os nossos aqui da Pública, uma equipe inteira, cheia de molho, apresentando roteiros reais que valeriam outros globos de ouro só de pirraça.

Se você acredita no valor das nossas histórias e no roteiro que a gente ajuda a escrever pro Brasil — um roteiro soberano, sem censura e sem amarras com o poder — considere que sua contribuição é um globo de ouro pra gente. Você não tem ideia do quanto valorizamos os nossos Aliados e apoiadores. Chega mais!