quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ELES TENTARAM, A GENTE NÃO DEIXOU

 

Olá,

Na metade do ano passado, recebi uma mensagem no WhatsApp que acendeu um alerta. “Dá uma olhada no edital do CBD”, escreveu uma fonte, se referindo à compra de canabidiol pela prefeitura de São Paulo. A oferta do produto na rede municipal de saúde era aguardada há anos e poderia beneficiar pacientes com dor crônica, epilepsia, ansiedade, depressão e outras doenças em que o uso de CBD demonstra benefícios. Bastou uma primeira leitura para perceber que havia algo errado.

O contrato previa um gasto de mais de R$ 500 milhões por ano com o produto de uma fabricante do Paraguai, sem histórico de participação em licitações no Brasil. Para efeito de comparação, esse valor é equivalente ao orçamento anual de alguns órgãos da prefeitura, como a Procuradoria-Geral do Município.

Passei semanas estudando o edital, conversando com pesquisadores e procurando literatura especializada. Em setembro, publicamos a reportagem que revelou que a administração de Ricardo Nunes (MDB) estava pagando oito vezes o preço de mercado pelo CBD. E que isso só foi possível por um direcionamento do edital, que exigia componentes na composição do óleo que não traziam nenhum benefício para o produto, mas resultou na eliminação das outras concorrentes da licitação.

Agência Pública foi a primeira a noticiar os problemas dessa compra.

A partir da reportagem, o Ministério Público de São Paulo e o Tribunal de Contas do Município abriram investigações. A Anvisa interditou lotes do produto. Na semana passada, a prefeitura mandou os médicos suspenderem a prescrição e cancelou o contrato.

Foi um grande impacto para uma reportagem, que evitou um rombo gigantesco no caixa do município. Fiscalizar o poder público e lançar luz sobre irregularidades é uma das funções do jornalismo em que acreditamos – e que só é possível por causa dos leitores que sustentam nosso trabalho.

Depois da Pública, outros veículos também publicaram matérias sobre o assunto – muitas vezes sem citar quem descobriu a história. Pode parecer frescura nossa querer reivindicar autoria. Mas não é questão de ego. Somos um veículo independente, sem anunciantes e sem rabo preso com ninguém. Fazemos nosso trabalho bem feito, apesar das dificuldades, e por isso é tão importante que os leitores saibam quem investigou e quem revelou fatos que  os poderosos queriam deixar escondidos.

É importante dizer que essa não era a notícia que gostaríamos de dar. Reportagens anteriores da Pública já mostraram que o acesso ao canabidiol ainda é bastante difícil no Brasil: cada frasquinho pode custar mais de R$ 1 mil e mais de 80% dos pedidos de acesso gratuito ao produto são negados pela Justiça.

Irregularidades como a que revelamos atrasam ainda mais o acesso de quem precisa. Isso é grave, mas não pode ser justificativa para malfeitos.

Seguimos fazendo jornalismo para defender o direito à saúde, mas sem abrir mão da moralidade pública. E isso só é possível porque temos apoio de nossos leitores. Considere ser nosso Aliado para que mais investigações como essa vejam a luz do dia.

CORRA, PERNA CABELUDA

 

Olá,

Perdoem o “amostramento”, sou pernambucano. E como os quase 10 milhões de seres agraciados com a sorte de nascer nesta terra, quase não piso no chão nesta semana. A lista de motivos para se orgulhar de ser do centro cultural do universo sempre foi a maior em linha reta da galáxia e vai além do sotaque mais bonito do país, mas sempre há quem tente reduzir a região a uma farofa de pobreza e sertão, consumida com camadas de bolo de rolo ao som de um frevo que não toca nas rádios.

O Globo de Ouro premiar “O Agente Secreto” duas vezes é um recado gringo sobre o que sai da capital do cinema, título que mesmo os compatriotas brazucas há anos rejeitam.

Não é exagero, nem figura de linguagem, é pernambucanidade. Pode chamar de arrogância.

E ainda assim, minha emoção, sentida ao assistir ao filme pela primeira vez, experimentada novamente ao ver Kleber Mendonça Filho no palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, tinha menos a ver com meu estado e mais com meu ofício.

Pra mim, “O Agente Secreto” sempre foi sobre jornalismo.

Eu acompanhava Kleber no Caderno C, do Jornal do Commercio, enquanto eu começava na profissão, no Diario de Pernambuco. Eu o achava um chato. Ele não curtia um filme sequer que eu gostava, detonava com elegância e falava belamente de obras que eu teria, no mínimo, como 26ª opção para o fim de semana. E trocava ideia com o hoje também cineasta Júlio Cavani, nosso repórter de cinema no jornal “mais antigo em circulação na América Latina” – sim, nosso abuso não é só marketing, é identidade também. E acompanhava cada resenha dos dois. Muitas vezes para chegar à conclusão “eu só posso estar doido”, ao vê-los concordar sobre alguma obra que eu havia detestado.

Mas essa é a questão: é possível discordar, achar chato e, ainda assim, reconhecer a importância, a competência, admirar o trabalho, mesmo envolto no Fla-Flu, ou melhor, no Sport x Santa Cruz jornalístico. No último domingo, vibrei como num estádio. Me emocionei com a imagem de amigos fazendo o mesmo, aos montes. Com bares cheios, gente chorando. Pernambuco numa Copa do Mundo, meus caros. E vencendo!

Ser pernambucano é lidar com uma realidade fantástica que te assombra em cada referência. A Perna Cabeluda, inserida em “O Agente Secreto” de modo magistral (que até agora eu não entendo como pode uma loucura daquela “funcionar” na telona), por exemplo, aterrorizou de verdade famílias pernambucanas. E quase levou um outro colega, da Rádio Jornal, Jota Ferreira, à prisão. A ele é creditada a criação da figura mítica que atacava amantes no Parque 13 de Maio, no Centro do Recife.

A fábula acabou sendo usada também como uma cifra, uma forma de dar cara de sobrenatural ao trabalho de militares a serviço da ditadura e fazer o absurdo ser aprovado pela censura em forma de notícia. Uma mentira, publicada nos jornais, que fez muitas crianças chorarem, e que estrela a obra que deve levar o estado (eu sei, o país, me deixe) ao Oscar.

Minha antiga casa, o Diario, também é personagem no filme. Vai ali ajudando a ditar o tempo e fornece pistas sobre a história do professor Armando, em sua derradeira tentativa de fuga. É a ficção usando a credibilidade documental para dar veracidade ao que se ouve e vê.

São a recortes e registros em áudio que duas pesquisadoras recorrem para juntar cacos da história do protagonista para tentar desbravar o que seria apenas mais uma vítima da ditadura – a real, que muitos insistem em chamar de ficção e que, todos os anos, insistimos aqui na Pública em revisitar, lembrar e descobrir novos detalhes pouco humanos. As duas quase vão fazendo o que nossa redação faz todos os dias: catando informações, juntando pontas soltas, investindo em personagens, ouvindo gente e com um esforço coletivo de registrar a história, dando nome aos pistoleiros, latifundiários do agro,  engravatados, desmatadores e violadores dos direitos humanos, em vez de atribuir qualquer terror a pernas sem donos, com pelos ou sem. E se em plena democracia estamos censurados há mais de 2 anos, o que imaginar do tempo dos orelhões de fichas?

Em tempos de amnésia seletiva e verdades relativas, para mim, “O Agente Secreto” é sobre jornalismo, sobre a busca e a recusa ao esquecimento e à negação do passado. Kleber, jornalista, criou um Armando/Marcelo como lembrete das vidas não apenas perdidas, mas protagonistas de histórias que poderiam facilmente deixar de ser contadas e passar a eternidade desconhecidas até por famílias desavisadas.

É sobre se importar de levar informações até a quem simplesmente não a deseja, bem como a quem se incomoda com ela, porque alguém tem que fazê-lo e porque merecem ser contadas. É sobre isso que fazemos todos os dias, mesmo quando parece sem valor, para que o futuro tenha curadoria, contexto, emoção e realidade, do Brasil, do mundo e de Pernambuco (sim, nessa ordem). A quem se pergunte até agora onde estaria o agente secreto do filme, apresento os nossos aqui da Pública, uma equipe inteira, cheia de molho, apresentando roteiros reais que valeriam outros globos de ouro só de pirraça.

Se você acredita no valor das nossas histórias e no roteiro que a gente ajuda a escrever pro Brasil — um roteiro soberano, sem censura e sem amarras com o poder — considere que sua contribuição é um globo de ouro pra gente. Você não tem ideia do quanto valorizamos os nossos Aliados e apoiadores. Chega mais!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

 

Especialistas dissecam ação dos EUA na Venezuela

Em sua Doutrina de Segurança Nacional, Trump reforçou indiferença à soberania dos países, tratados como uma extensão de seu território

Publicado em 16/01/2026
Manifestação em frente ao consulado dos EUA em São Paulo no dia 5 de janeiro Foto – Paulo Pinto\Agência Brasil

A operação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no sábado, 3 de janeiro, abriu um perigoso precedente na América do Sul. Para especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp, os Estados Unidos estão em busca de “disciplinar governos” na região, e a Venezuela foi a primeira pedra do dominó de uma partida geopolítica calcada na renovação de objetivos imperialistas.

“A Doutrina de Segurança Nacional, divulgada em novembro passado pelo governo de Donald Trump, já atualizava em teoria suas preocupações com o avanço dos imperialismos na região, mas, a partir de agora, os temores certamente chegam a um novo patamar”, afirma Josianne Cerasoli, professora do departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

Vale destacar, segundo ela, que a Doutrina de Segurança se refere, em tom de ameaça, ao destino imaginado para o que denomina Hemisfério Ocidental. “A escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo, no qual são influenciados por países do outro lado do mundo,” diz trecho do documento.

“O documento faz uma escolha muito significativa para nomear o continente americano, que ocupa grande parte de suas mais de 30 páginas: Hemisfério Ocidental, atualizando com termos geográficos uma ideia que reforça certa indiferença à soberania e às especificidades da região, como se esta fosse uma extensão dos Estados Unidos, um quintal”, completa Cerasoli.

O historiador José Alves, professor do IFCH especializado em América Latina, lembra que, “de fato, há uma agressão a um Estado soberano no momento em que você não tem uma declaração de guerra nem qualquer outro dispositivo legal que a justifique”, diz. “Trump age como um ditador clássico, ignorando a imprensa, a lei e os limites institucionais. Se fosse um presidente latino-americano agindo dessa forma, certamente seria chamado de ditador. É o reverso da imagem tradicional que se construiu dos Estados Unidos.”

“Vejo esse cenário com enorme preocupação, porque temos três grandes forças – EUA, China e Rússia – com pretensões de domínio territorial e de controle sobre riquezas naturais. Não voltaremos ao mesmo cenário do século 20 no sentido positivo: há uma mudança para pior em relação à expectativa de um mundo multilateral, no qual diferentes países podiam ter voz”, completa Alves.

Pedro Paulo Zahlut Bastos, professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, ressalta que o objetivo dos EUA não é necessariamente invadir países, já que enfrentaria forte resistência interna. “É exercer pressão máxima por meio de sanções, bloqueios e intimidação, tornando a governabilidade e a inserção internacional desses países extremamente difíceis. No caso da Venezuela, trata-se de disciplinar o governo, não de promover uma troca clássica de regime. Uma ocupação militar seria custosa e politicamente desastrosa.”

Nesse contexto, a América Latina ganha importância estratégica, não apenas pelo petróleo, mas pelos minerais críticos, como as terras raras, fundamentais para a indústria de defesa, automobilística e de tecnologia. “E a Venezuela aparece como peça-chave nesse processo”, completa.

André Kaysel, professor do departamento de Ciência Política do IFCH, destaca que, apesar da prisão de Maduro, o regime permanece intacto. “A vice-presidente, Delcy Rodríguez, uma chavista histórica, assumiu o governo com respaldo da Suprema Corte e dos militares. Não há, até o momento, qualquer sinal de reviravolta interna”, ressalta.

Para Kaysel, qualquer acesso ao petróleo exigirá negociação. “Os Estados Unidos querem praticamente tudo: acesso privilegiado ao petróleo e o afastamento da Venezuela de China, Rússia e Cuba, países que têm investimentos significativos no país. Impor isso sem presença militar direta é um enorme desafio. Há negociações em curso, isso está claro, tanto pelo discurso do Trump quanto pelo da nova presidente. A questão é o que está sendo negociado”, completa.

O professor chama a atenção para o descarte explícito, por parte de Trump, de María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz 2025, promovida pela imprensa internacional como grande liderança da oposição venezuelana. “Ela foi simplesmente descartada quando deixou de ser útil. Isso reforça que ser aliado da extrema-direita norte-americana é um mau negócio no médio prazo.”

Contexto econômico

Segundo Bastos, é importante lembrar que a ordem internacional baseada em tratados foi estimulada e liderada pelo próprio Estados Unidos após a Guerra Fria. “A primeira guerra do Iraque, por exemplo, foi aprovada pela ONU e contou com amplo apoio internacional. Nos anos 1990, esse movimento se expandiu sob a retórica das chamadas intervenções humanitárias, como nos Bálcãs e em partes da África, já com certo alargamento do mandato da ONU”, afirma.

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O professor de Economia destaca que a segunda guerra do Iraque rompeu totalmente com o sistema de tratados, afirmando a ideia de que os Estados Unidos deveriam agir como um império, acima de qualquer limitação jurídica internacional. “A partir daí, consolidou-se também a noção de que o combate ao terrorismo autorizaria ações militares sem a necessidade de aprovação do Congresso.”

Para Bastos, esse movimento não é apenas político, mas também econômico. “Não se trata somente da relação entre Estados Unidos e Venezuela por causa do petróleo, mas de uma questão estrutural mais ampla: a posição da América Latina no confronto estratégico entre Estados Unidos e China. A globalização liderada pelos Estados Unidos se baseou em tratados econômicos que favoreciam corporações ocidentais, especialmente norte-americanas, criando cadeias produtivas globais nas quais nenhum país poderia desenvolver um modelo autônomo. A expectativa dos EUA era que essa integração econômica levasse a mudanças políticas internas, especialmente na China, o que não aconteceu.”

A partir da crise de 2008, ficou evidente para a China que as redes financeiras, informacionais e logísticas da globalização podiam ser usadas como instrumentos geopolíticos, ressalta Bastos. “Sanções contra países como Irã, Coreia do Norte e Rússia mostraram que o controle dessas redes permitia retaliações econômicas severas. A emergência da China foi decisiva para que países como Rússia e Brasil reduzissem sua dependência estrutural dos Estados Unidos.”

No caso brasileiro, as exportações para a China cresceram de forma exponencial nas últimas décadas, tornando o país o principal parceiro comercial do Brasil. “Isso deu ao Estado brasileiro maior autonomia relativa, algo que não existia no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.”

“É inegável que os Estados Unidos estão em processo de decadência relativa. A China já se tornou o principal parceiro comercial da maioria dos países do mundo e domina a maior parte dos setores tecnológicos avançados. O poder norte-americano hoje se apoia crescentemente no poder militar, enquanto a China prioriza o desenvolvimento econômico e tecnológico, sem um projeto imperial clássico, mas com objetivos claros de longo prazo”, completa.

Escalada contra a Venezuela

A escalada contra a Venezuela começou em agosto passado, quando Trump publicou uma legislação designando cartéis de drogas como organizações terroristas. O governo ainda aumentou a recompensa pela captura de Maduro de US$25 milhões para US$50 milhões, retomando uma ordem de captura que já existia no primeiro mandato de Trump.

O aumento da presença da Marinha e dos fuzileiros navais próximos às costas venezuelanas foi um exemplo claro das intenções dos EUA. “Nesse contexto, começam ataques a embarcações supostamente carregando drogas, embora nenhuma prova tenha sido apresentada. Do ponto de vista do direito internacional, trata-se de uma sequência de execuções extrajudiciais”, afirma Kaysel.

Em dezembro, o bloqueio naval a petroleiros que saíam da Venezuela rumo a Cuba, China e outros destinos, com embarcações de diversas bandeiras detidas em águas internacionais, intensificou a escalada. “Durante todo esse processo, houve contatos entre a administração Trump e o governo Maduro, inclusive com notícias de conversações diretas, embora não esteja claro quem participou delas, nem seu conteúdo. É sintomático que, dois dias antes da virada do ano, Maduro tenha declarado publicamente estar disposto a negociar com os Estados Unidos sobre petróleo e cooperação no combate ao narcotráfico”, destaca o professor.

É importante registrar que a Venezuela nunca foi uma das principais rotas de drogas para os Estados Unidos. “A rota central passa pela Colômbia, América Central e México, pelo Oceano Pacífico. Existe algum tráfico passando pela Venezuela, mas não é uma rota relevante. Por isso, essas alegações sempre foram frágeis. Na coletiva de imprensa do Trump no sábado, isso ficou claro: ele sequer mencionou o problema das drogas e se concentrou no que realmente lhe interessa, o petróleo e o domínio americano sobre o hemisfério ocidental. Essas sempre foram as duas questões centrais.”

Para Alves, a acusação de narcoterrorismo é frágil e construída dentro de um contexto político específico. “O pragmatismo substituiu completamente qualquer discurso ideológico ou democrático. Os Estados Unidos convivem muito bem com ditaduras, como a da Arábia Saudita, desde que haja fornecimento de petróleo”, lembra.

Na tarde desta terça-feira (6), o Departamento de Justiça dos Estados Unidos recuou em acusar Maduro de liderar o suposto Cartel de Los Soles. A nova peça da denúncia contra o venezuelano por narcotráfico, apresentada após o sequestro de Maduro pelos EUA, excluiu a acusação feita na peça anterior, apresentada em 2020. Na primeira denúncia, o termo “Cartel de Los Soles” aparece 33 vezes e Maduro é apontado como líder dessa suposta organização.

Há limites?

Logo após a prisão de Maduro, Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha criticaram em declaração conjunta a “gravidade dos eventos ocorridos na Venezuela” e afirmaram que as ações “criam um precedente extremamente perigoso para a paz, para a segurança regional e colocam a população civil em risco”.

Para Cerasoli, essa declaração faz mais do que alertar sobre a gravidade dos fatos. “Ela sublinha como ações militares executadas unilateralmente pelos EUA contrariam os princípios fundamentais do direito internacional. Apesar de muito cuidadosa na escolha das palavras, como é usual na diplomacia, a preocupação de fundo sem dúvida é o imperialismo”, destaca.

“A omissão não é uma opção”, destaca a professora de História. “Ainda que a diplomacia possa passar a impressão de uma ação apenas protocolar, ela sinaliza limites e define espaços para alianças. O Brasil tem sido atento a isso. E possivelmente nossa diplomacia cultiva a paciência histórica de traçar estratégias que ao mesmo tempo respondem prontamente à urgência da situação e respaldam ações mais duradouras, que fortaleçam o caminho do diálogo e do multilateralismo, contraposto aos imperialismos de toda ordem”, completa.

“Como o Brasil não dispõe de força militar, o caminho é intensificar a pressão diplomática e buscar articulação. A América Latina, infelizmente, está dividida, com governos que apoiam incondicionalmente as ações de Trump. Ainda assim, qualquer governo do mundo deveria estar alarmado com o recado enviado pelos Estados Unidos: na sua zona de influência, vão destituir quem quiserem. Isso é inaceitável para qualquer Estado soberano”, lembra Kaysel.

“No Brasil, não há espaço para uma confrontação militar com os Estados Unidos”, reforça Bastos. “A estratégia correta é a defesa de uma ordem internacional baseada em regras e tratados, pois o Brasil depende desse sistema para preservar sua autonomia. Embora dependa menos dos Estados Unidos do que no passado, ainda depende. Por isso, a política externa brasileira precisa combinar o pragmatismo econômico com a defesa do multilateralismo”, ressalta.

Conflitos e concorrências

Cerasoli destaca que há dois espectros que rondam as narrativas políticas no continente há mais de um século: o anti-imperialismo e o anticomunismo. “São duas ideias mais ou menos plásticas, que vão sendo moldadas nos discursos, ajudando a agregar e mobilizar diferenças. O primeiro vem sendo usado pelas lutas anticolonialistas, sobretudo pelas esquerdas, e teve momentos muito fortes no continente, nos anos 1920, 1960, 1980 pelo menos. O segundo tem sido ativado sempre que direitos sociais avançam no continente, e parece revigorado pelos movimentos conservadores e de extrema-direita mais recentes.”

“A América Latina, apesar de ser extremamente desigual e apesar de seu passado autoritário, não é uma região marcada por conflitos bélicos entre países. De forma geral, é possível dizer que se trata de uma zona de paz”, ressalta Alves. “Esse é um mérito histórico importante. Não somos uma região de corrida armamentista ou de confrontos diretos entre Estados nacionais, embora tenhamos conflitos internos gravíssimos.”

“É preocupante pensar que a América Latina, que desde os anos 1980 vive seu período mais longevo de experiências democráticas, volte a ser tratada como espaço de intervenção direta. Apesar das desigualdades, houve avanços importantes em indicadores sociais e na valorização da democracia. Agora, o discurso da segurança e do superpoder retorna com força”, diz Alves.

Fonte(s) / Referência(s):

Jornalismo AEPET