terça-feira, 24 de maio de 2016

PDT pede no STF anulação de reforma administrativa de Temer

O partido alega que, por ser presidente interino, Temer não poderia mexer em postos-chave da administração pública, como trocar ministros e fundir pastas. Relator da ação é o ministro Luís Roberto Barroso

O PDT entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação da reforma administrativa feita pelo presidente interino Michel Temer (PMDB). Os pedetistas questionam o fato de um governo provisório mexer em postos-chave da administração pública, como trocar ministros e fundir pastas.
O relator do pedido é o ministro Luís Roberto Barroso. O PDT alega que, enquanto Dilma não for definitivamente afastada, Temer deve trabalhar como um governante interino. Segundo a ação, há uma “usurpação das funções da Presidência da República pelo vice-presidente em exercício”.
O PDT pede que a corte conceda uma liminar para suspender qualquer mudança feita por Temer até o julgamento final da presidente Dilma no Senado.

PV pede que Sarney Filho se licencie do Ministério do Meio Ambiente

Após reunião da Executiva Nacional, partido decidiu deixar a base aliada do governo Temer. Legenda sugere que Sarney Filho deixe o Ministério do Meio Ambiente

Após reunião da Executiva Nacional do Partido Verde na manhã de hoje (23), a legenda decidiu deixar a base de apoio do governo de Michel Temer. Assim, o partido sugeriu que Sarney Filho peça licença do Ministério do Meio Ambiente. O senador Alvaro Dias (PV-PR) subiu à tribuna no Plenário do Senado nesta segunda-feira e comunicou a decisão. “A sugestão que se fez hoje de manhã na reunião do Partido Verde foi a licença do ministro, para que o partido possa se posicionar de uma maneira mais confortável e coerente em relação ao atual governo”, disse o senador.
Alvaro Dias destacou que a nomeação de Sarney Filho para o comando da pasta foi uma escolha pessoal do presidente interino Michel Temer, e não houve deliberação partidária sobre o tema.
O senador, que votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, fez críticas ao governo Temer, e disse que o peemedebista “não fez a leitura correta desse manifesto de protestos escritos nas ruas do país pelo povo brasileiro. A população não pediu apenas a substituição de um presidente por outro, pediu a substituição desse sistema de governança que é promíscuo e que abriu as portas para a corrupção”, argumentou Alvaro Dias.
Para o senador, Temer deveria ter afastado Jucá logo pela manhã, quando foram publicados no jornal Folha de S.Paulo os trechos de uma gravação envolvendo o ministro e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. No áudio, Jucá diz que uma “mudança” no governo federal resultaria em um pacto para “estancar a sangria” provocada pela Operação Lava Jato, que investiga os dois peemedebistas.
“Ou o presidente afasta o ministro ou ele transfere para todo o governo a suspeição que pesa sobre ele”, disse Alvaro Dias, algumas horas antes do próprio ministro anunciar que selicenciará do cargo.

E O STF

REALMENTE ESTAMOS VIVENDO UMA CRISE FERRENHA DAS INSTITUIÇÕES OU O DESNUDE TOTAL DO QUE JÁ ERA CONHECIDO POR TODOS, OU SEJA, O JUDICIÁRIO UMA ORGANIZAÇÃO QUE NÃO RECEBE NENHUM VOTO, A NÃO SER A SABATINA QUANDO VAI PARA O STF.
ESSA MUDEZ E FALTA DE ATITUDE DO STF, TRANSPARECE UMA CERTA COMPLACÊNCIA CAPITANEADA PELO SENHOR  GILMAR MENDES, O CUNHA E JUCÁ DO JUDICIÁRIO. REALMENTE OS TEMPOS DE CRISE SERVEM PARA MOSTRAR O VELHO QUEM É QUEM.

Editorial

A chance de Dilma

Como e por que o capítulo final do processo de impeachment ainda não foi escrito
por Mino Carta — publicado 23/05/2016 04h11
J. Batista/Câmara dos Deputados
Temer e Cunha
Quem manda aqui é o da direita. Temer é soberano somente no emprego da mesóclise
Depois de um ano, sete meses e alguns dias, volto ao Palácio da Alvorada para entrevistar Dilma Rousseff, juntamente com dois ótimos companheiros, Sergio Lirio e André Barrocal. 
No mesmo salão, à mesma mesa perfeitamente encerada, na segunda semana de outubro de 2014, ouvimos a presidenta que se preparava a enfrentarAécio Neves no segundo turno das eleições destinadas a lhe entregar seu segundo mandato.
O confronto entre as situações me habilita a duas impressões a respeito do comportamento da entrevistada. Em primeiro lugar, anoto a serenidade em contraste com a tensão da entrevista dos tempos eleitorais.
A presidenta afastada pela manobra golpista está bem mais à vontade do que a candidata ao segundo turno. Mais segura, mais incisiva. A segunda impressão, pelo contrário, confirma aquela que tive no passado.
Vi, melhor, senti uma personagem solitária naquele cenário desmesurado, esmagador antes que imponente. O sentimento, desta vez, gera o impulso da solidariedade humana. A transcender, até, a questão política, a natural repulsa que o golpe de inédito feitio causa em praticantes do jornalismo honesto, ou, por outra, compromissados com a ética profissional e fiéis da democracia.
O retorno de Dilma ao posto conquistado nas urnas, determinado na sessão definitiva deste longo, atormentado processo de impeachment a ser presidida no Senado pelo presidente do STF, representaria um milagre?
Ouço um coro grego de respostas afirmativas. Seria milagrosa, no entanto, a mínima mudança de alguns votos? Entenda-se: basta reverter dois votos para selar a volta da afastada, caso se repita o resultado da votação anterior.
A presidenta tem sido acusada de ter agido amiúde autoritariamente e falhado na lida com o Congresso e com diversos setores empresariais. Teria mostrado inabilidade política nas horas em que o contrário se fazia indispensável.
Daí a dúvida razoável de que ela saiba agora tornar-se uma atilada intérprete da realpolitik. É evidente que a astúcia não faz parte das características de Dilma, enquanto firma-se em determinadas ocasiões uma certa rigidez moral, em nada aparentada com o exercício da arte do possível.
Dilma soube fazer algumas concessões, uma entre elas, talvez a maior, chamar Joaquim Levypara a Fazenda ao ser reeleita, para realizar um ajuste fiscal a toque de caixa, na convicção de que agir às pressas diminuiria o amargor do remédio. Ela admite hoje ter errado, e é um notável avanço de sua parte. De todo modo, lidar com a personagem Eduardo Cunha há de exigir um aparelho digestivo absolutamente fora do comum.
Quem sabe o Ulisses da Ilíada, inventor do cavalo de Troia, fosse capaz de enfrentar uma figura tão desbragadamente mal-intencionada, capaz de se apresentar hoje como dono da Câmara e do próprio governo, a serviço dos interesses da casa-grande, que a mídia estrangeira chama de plutocracia.
Na sua infinita malignidade, Cunha é um vilão de dimensão shakespeariana, a despeito da mediocridade intelectual dos seus comparsas e dele próprio, e é lamentável, para não dizer coisa pior, que um guaxinim possa fazer tantos estragos no quintal nativo.
De agora em diante, de todo modo, a presidenta afastada tem ainda sua chance, e veremos se sabe aproveitá-la. Diz Dilma que Lula vive um momento mais triste do que o dela, e entende-se: o ex-presidente é o alvo final deste espantoso entrecho.
No centro está a disputa do poder, mas resta verificar se os caminhos parlamentares e togados se afinarão daqui em diante. Cabe a hipótese de uma separação, em proveito do caos definitivo. Em cena, as ambições e as vaidades de quantos se atribuem o papel de salvadores da pátria, e não são poucos.
Para o amanhã, no sentido literal, Dilma tem alguma margem de manobra, a despeito de Cunha, e com o favor admissível de um ou outro exame de consciência, talvez ao som do batuque midiático que no exterior condena sem remissão mais um golpe à brasileira. Quanto aos pretensos salvadores, vale dizer que Michel Temer é soberano somente no emprego da mesóclise. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Novo governo

"Quem não conhece o esquema do Aécio?", pergunta Sergio Machado

Diálogo entre ex-presidente da Transpetro e ministro do Planejamento, Romero Jucá, atinge o senador tucano
por Redação — publicado 23/05/2016 11h44
Roque de Sá / Agência Senado
Aécio Neves
Aécio Neves, presidente do PSDB, aparece algumas vezes nas gravações de Jucá
Citado cinco vezes por delatores da Operação Lava Jato, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), aparece com destaque nas conversas entre o ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), e o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado. 
Feitas de forma clandestina, provavelmente pelo próprio Sergio Machado, que estaria negociando um acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato, as gravações foram divulgadas nesta segunda-feira 23 pela Folha de S.Paulo. Os áudios aparentemente indicam que o impeachment de Dilma Rousseff seria parte de uma estratégia para conter a Lava Jato.
Aécio é citado duas vezes nos trechos do diálogo selecionados pela Folha. No primeiro, Machado demonstra preocupação a Jucá a respeito das investigações, que iriam atrás de "todos os políticos", e questiona se "a ficha" do PSDB já teria caído. 
MACHADO - A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado...
JUCÁ - Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...
MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.
JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].
MACHADO - Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?
JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.
Machado cita Aécio como "primeiro" a ser "comido" e faz uma referência à eleição do então deputado federal Aécio à presidência da Câmara. A eleição ocorreu em fevereiro de 2001, na parte final do governo Fernando Henrique Cardoso e provocou uma feroz disputa entre o PSDB e o PFL.
Partido do vice de FHC, Marco Maciel, o PFL (hoje DEM) queria emplacar Inocêncio Oliveira (PE) e Antonio Carlos Magalhães (BA) nas presidências da Câmara e do Senado, mas acabou derrotado pela articulação do PSDB, que emplacou Aécio na Câmara e Jáder Barbalho (PMDB-PA) no Senado
MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.
JUCÁ - Todos, porra. E vão pegando e vão...
MACHADO - [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.
Em entrevista à rádio CBN, Jucá negou que a referência à eleição de Aécio envolvesse algum esquema de corrupção. Segundo o hoje ministro, Sergio Machado fez uma referência ao "contexto político" daquela época.
"Nós construímos um entendimento pro Jáder ser o presidente do Senado e para o Aécio ser presidente da Câmara", afirmou Jucá à CBN. Naquele período, Sergio Machado era senador pelo PSDB e liderava o partido na Casa. Seu vice era Romero Jucá. 
"O esquema do Aécio"
A segunda citação a Aécio é mais contundente. Machado e Jucá estão aparentemente dialogando sobre as futuras eleições presidenciais e o ministro do Planejamento afirma que nenhum "político tradicional" tem possibilidades de vencer um pleito. Machado, então, diz que "Aécio não tem condição" e pergunta: "Quem não conhece o esquema do Aécio?"
MACHADO - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...
JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.
MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...
JUCÁ - É, a gente viveu tudo.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Relações Exteriores

As contradições e ambições de Serra no Itamaraty

Novo chanceler promete diplomacia despartidarizada mas é militante partidário. Início sugere planos eleitorais
por André Barrocal — publicado 20/05/2016 15h49, última modificação 20/05/2016 16h26
Divulgação
José Serra
José Serra em seu primeiro dia no Itamaraty: a política externa mudou
O chanceler José Serra anunciou uma “nova política externa”, cuja primeira diretriz é não se orientar pelos valores “do governo e jamais de um partido”. O discurso de despartidarização segue a ruptura geral promovida pelo governo provisório de Michel Temer. Mas soa estranho, a julgar pelo perfil e as ações iniciais de Serra, as quais já chamam a atenção no Itamaraty. 
O novo ministro das Relações Exteriores é o primeiro em muito tempo a chegar ao cargo tendo filiação partidária. É do PSDB, pelo qual se elegeu senador em 2014. Repete assim o caminho do amigo Fernando Henrique Cardoso, senador tucano quando foi para o Itamaraty em 1992. FHC, aliás, teve um correligionário no posto em seus dois últimos anos de presidente, Celso Lafer. 
Celso Amorim, ministro nos oito anos do ex-presidente Lula (2003-2010), não era do PT. Filiou-se só em 2009, penúltimo ano no cargo, ano também em que foi considerado “o melhor chanceler do mundo” por uma das mais importantes revistas de relações internacionais do planeta, a The New Foreign Policy. 
Amorim é diplomata de carreira, ao contrário de Serra. Como também são os três chanceleres de Dilma Rousseff, Antonio Patriota, Luiz Fernando Figueiredo e Mauro Vieira, todos sem carteirinha partidária.
Para sua cerimônia de posse na quarta-feira 18, Serra convidou vários políticos do PSDB. Entre outros, estiveram ali o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) e o deputado Pedro Vilela (AL), ambos presidentes da comissão de Relações Exteriores de suas respectivas casas legislativas, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, e o deputado Jutahy Junior (BA), um velho amigo de Serra.
O tema “partido” não é única contradição entre a retórica e a prática serristas. A julgar por sua conhecida ambição de disputar a Presidência na eleição de 2018, o chanceler tende a cair na tentação de manejar o cargo com fins político-partidários. E parece que já caiu, pelo que se ouve no Itamaraty. 
Um dia após a posse, foi a São Paulo participar do VII Fórum Nacional do Ministério Público de Contas, no Tribunal de Contas do Estado, onde proferiu uma palestra. Ainda não está claro como a análise de contas estaduais ajuda na “nova política externa” ou se o compromisso foi apenas um ato de interesse pessoal. 
Para quem prometeu valorizar o Itamaraty, desprezado por Dilma a ponto de muitos diplomatas terem vibrado com o discurso de posse do tucano, o chanceler também dá pistas de que tal valorização tem lá seus limites. Por exemplo: há quem diga que ele montou uma equipe paralela, formada por não-diplomatas, para ajudá-lo em assuntos particulares. 
Assuntos mais amplos do que diplomáticos, quem sabe? Consta que, na primeira reunião ministerial do governo provisório com o presidente interino Michel Temer, Serra falou de tudo. Inclusive de política externa.

O Estado de exceção da Cultura

Temer colocou a Cultura no limbo, e isso não se resolve com uma Secretaria Nacional, mas com a recriação do MinC e o fim do governo interino
por Guilherme Varella — publicado 20/05/2016 11h03, última modificação 20/05/2016 11h44
Reprodução/Facebook/Ocupa Funarte SP
Assembleia Funarte SP
Manifestantes que ocupam a Funarte em São Paulo participam de assembleia
Uma das primeiras ações do governo interino de Michel Temer, a quem meu espírito republicano impede chamar de Presidente, foi extinguir o Ministério da Cultura (MinC), incorporando-o ao Ministério da Educação(MEC).
A medida é uma mescla de revanchismo com o setor cultural, que se mobilizou contra o golpe; prestação de contas para a direita e o senso comum, que creem no mito do inchaço da máquina pública; e ignorância, que se manifesta na completa falta de compreensão acerca do papel estratégico da cultura.
Ato contínuo, a resposta do setor cultural foi fortíssima e, hoje, já existem ocupações de espaços do MinC em 14 estados, além do posicionamento contrário à extinção da pasta de grande parcela da classe artística e segmentos culturais.
A pressão continuará grande, é tanta e cada vez maior que, em virtude dela, até se cogita a recriação do MinC pelo governo interino. Como não se pode esperar daí razão e razoabilidade, é melhor colocar as barbas de molho e continuar combatendo o estado de exceção a que foi submetida a Cultura.
MinC extinto, Secretaria indesejada
Primeiramente, não se pode reconhecer e legitimar esta Secretaria Nacional de Cultura, cuja criação é resultado típico do golpe que foi empreendido. Vale mencionar que o MinC foi criado no início da redemocratização (1985) e extinto justamente quando interrompem este ciclo democrático.
Não há como tratar com normalidade este governo interino, nem por sua constituição (o povo brasileiro não é branco, velho, rico e corrupto), nem por sua alçada ao poder, afrontando a ordem democrática do País.
Depois, mais especificamente, não se pode aceitar a redução do Ministério da Cultura, órgão que fundou políticas culturais estruturantes não apenas para os artistas, mas para todo o corpo social brasileiro, a uma institucionalidade vazia e apequenada: esta indesejada Secretaria Nacional de Cultura.
É evidente que reduzir um Ministério a uma Secretaria não é só uma reforma administrativa (desastrada, por sinal), mas também uma visão superficial do trabalho desenvolvido pelo MinC.
Além disso, não há qualquer espírito público e democrático na criação da tal Secretaria, pois ela é o fruto institucional de um golpe aos direitos constitucionais. Sua precária formalização, de maneira temerária (a palavra do momento), dissolve a instituição efetivamente responsável que promove a realização de direitos culturais por meio de políticas públicas: o Ministério da Cultura.
A nomeação do “novo” Secretário Nacional de Cultura não surpreende. A entrada em cena do PMDB do Rio, de sua Prefeitura, antes “aliados” do Governo Federal, foi determinante para a consolidação do golpe. Isso teria um preço.
Claro que foi um erro do Governo e do próprio PT, é importante que se diga. Onde já se viu confiar no PMDB, do Oiapoque ao Chuí, que dirá na Guanabara? O fato é que agora precisavam de alguém para sacar este nobre título de crédito. E de algum lugar para realizar o saque (com o perdão do trocadilho).
Na cultura, o desgaste estava grande: seria preciso alguém que tentasse neutralizar a fúria dos artistas. Preferencialmente onde há muitos e importantes deles: o Rio de Janeiro. Apesar de ninguém da área cultural, sério e republicano, querer, o governo interino se desdobrou para procurar alguém que aceitasse.
Encontraram, ainda que um homem, já que quase uma dezena de mulheres, quando convidada, se negou – mais uma vez, o acerto das mulheres!  Não há surpresa. O aceite do cargo por Marcelo Calero significa cerrar fileira ao lado dos dirigentes golpistas, recriado ou não o MinC posteriormente.

A contramão das políticas culturais estruturantes
É sintomático, contudo, que um gestor municipal de cultura aceite ocupar o espaço de extinção do MinC ou, até, num futuro breve, ser parte do recriado MinC do governo golpista. Seria coerente e responsável, quase óbvio, que um gestor à frente de uma secretaria municipal fizesse o contrário: defendesse o Ministério da Cultura – ou, com ele existindo, lutasse pela sua posição estratégica, o que não acontecerá nessa interinidade temeriana.
Isso porque o MinC é e deve ser espelho e referência institucional para os demais órgãos federativos da cultura. A macro estruturação das políticas culturais orienta – para estimular, complementar e dinamizar, e não simplesmente subordinar - as políticas municipais e estaduais, além dos projetos e programas elaborados pela sociedade civil.
Essa arquitetura é essencial para a configuração de um arcabouço de políticas sistêmicas, estruturantes e perenes num campo tão amplo, diverso e delicado como o da cultura.
Assim se dá com a política de patrimônio, através do Iphan; com as ações voltadas à diversidade cultural; com as políticas para as linguagens artísticas; com o Sistema Nacional de Cultura, que deve servir justamente para catalisar estes processos; com o fomento e a regulação no campo audiovisual; com a elaboração e implementação dos planos estaduais, municipais, setoriais e territoriais, que se baseiam no Plano Nacional de Cultura; com o Sistema Brasileiro de Museus, através do qual se deu, inclusive, a parceria MinC-SMC/Rio que resultou no Passaporte dos Museus Cariocas, em 2015; com as ações relacionadas à economia da cultura; com a promoção dos direitos dos povos indígenas e afrobrasileiros; com a política nacional de fomento e financiamento à cultura; com os programas que ligam cultura e educação, em milhares de escolas e universidades de todo o país; com o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais; dentre tantos outros exemplos.
Funarte São Paulo
Sede da Funarte em São Paulo ocupada por manifestantes que protestam contra a extinção do MinC (Roberto Parizotti/CUT)
A Cultura no limbo
Este limbo a que foi submetido o Ministério da Cultura – extinto, vertido em Secretaria Nacional, ligado marginalmente ao MEC – reforça a incompreensão desse quadro institucional necessário, que amarra programaticamente as políticas culturais em nível nacional.
Mais do que isso, aponta na direção contrária. Na direção de quem quer a substituição de um plano robusto, com centralidade para a Cultura, alcançando todo o espectro da produção cultural brasileira, e tendo-a como dimensão estratégica do desenvolvimento nacional, por um plano mesquinho para a Cultura, reducionista, excludente, subsidiário, com ínfimos instrumentos de intervenção pública e nula possibilidade de transformação da realidade social.
Alguns argumentos de defesa da medida extintora afirmam que o Ministério já não contava com muitos recursos, teve seu orçamento reduzido nos últimos anos e possui muitas dificuldades de operação. Sim, é verdade. E veja que isso ocorreu com um Ministério estruturado, políticas nacionais amparadas por lei, com órgãos legal e constitucionalmente fundados, sete secretarias, quatro diretorias finalísticas, sete instituições vinculadas, um Fundo Nacional de Cultura, um Fundo Setorial do Audiovisual e cerca de quatro mil servidores.
Imagine o que vai ocorrer com uma mera Secretaria, atrelada residualmente ao MEC, oprimida pelos imensos blocos monolíticos, orçamentários e programáticos, daquele Ministério, tendo que reduzir drasticamente as estruturas, funções e número de servidores para se sustentar como órgão único.
Não haverá qualquer capacidade de reação, chance de reabilitação, tampouco, e talvez principalmente, estrutura operacional apta a readquirir grandeza, na execução orçamentária, funcional e programática, já que estará fadado à pequenez.
E nessa pequenez forçada, as questões que residem são: que órgãos do MinC devem ser cortados para se chegar a uma Secretaria? Que áreas finalísticas? Quais áreas-meio (das quais o MinC já é carente)? Que políticas, projetos, programas? Haverá o retorno à clássica política do balconismo? Ou à liberal primazia da renúncia fiscal absoluta, mantendo e operando apenas a Lei Rouanet - como sinalizou o ocupante interino do “novo” MEC, cujo partido foi contra as cotas nas universidades e as verbas do Pré-Sal para a Educação?
Seguirão tentando a reforma da Lei Rouanet, como vinha promovendo a gestão escolhida pelo povo? Em suma, o governo vai simplesmente virar as costas para todos os milhões de produtores de cultura, especialmente das classes mais baixas e segmentos menos valorizados dos rincões do Brasil, finalmente reconhecidos e atendidos pelo Estado?
Faixa Rio
Faixa na janela do prédio coupado do Ministério da Cultura no centro do Rio de Janeiro (Tomaz Silva/ Agência Brasil)
Cultura e democracia
Além disso, extinguir o MinC vai além da dissolução de suas ações. Atuar no campo da cultura não é apenas elaborar e implementar políticas e projetos culturais, no governo ou na sociedade civil. Atuar no campo da cultura é construir e disputar os símbolos e os valores de uma sociedade.
O campo cultural e artístico sempre se destacou, historicamente, por defender os valores democráticos, republicanos, progressistas, ligados às liberdades e aos direitos sociais. Não foi à toa que o setor artístico e cultural se mobilizou e posicionou fortemente contra o Golpe de 2016. E não é coincidência que o beneficiário deste golpe, imediatamente ao assumir, tenha proposto exterminar o promotor das políticas para o setor e ativador fundamental da disputa simbólica e valorativa.
Numa canetada autoritária, na quinta-feira passada (12/5), a medida provisória foi de uma irresponsabilidade ímpar. Colocou MEC e MinC num limbo administrativo que até agora não se resolveu. No MinC, as áreas administrativas, jurídicas e contábeis estão congeladas (foram, na realidade, destituídas) e os processos estão em vulnerabilidade plena: servidores podem não ser pagos; equipamentos podem ser imediatamente fechados; licitações imensas podem vencer em dias, causando transtornos incontornáveis; projetos da sociedade civil não estão sendo pagos.
A interinidade já disse a que veio: começa autoritariamente, sem nenhum respeito pela coisa pública, pelos servidores (muitos nem sabem se estão com ou sem cargo, empregados ou desempregados) e mostrando completa negligência com o setor artístico e cultural brasileiro.
Temer conseguiu colocar a Cultura em estado de exceção. Isso não se resolverá com a criação da Secretaria Nacional, pois se viu que será precária, insuficiente e já nasce fazendo parte dos interesses políticos mais obtusos (como provou a nomeação fruto da jogatina do PMDB carioca).
Também não terá saída com a manutenção do MinC, pois a pasta da Cultura, imbuída de valores e princípios alheios à sua dinâmica, com orientação antirrepublicana e antidemocrática, não se sustentará.
É preciso, primeiramente, lutar pela manutenção do MinC. Depois, para que ele realmente coaduna com os valores e demandas do setor cultural, é preciso que seja fruto de um regime democrático. E, isto, só com a saída desse governo interino. 

*Guilherme Varella é ex-Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura (2015 - maio/2016). Advogado, pesquisador e gestor cultural, é mestre em Direito pela Universidade de São Paulo. É autor do livro "Plano Nacional de Cultura - direitos e políticas culturais no Brasil" (Azougue, 2014). Foi Chefe de Gabinete e Coordenador da Assessoria Técnica da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo de 2013 a 2015.