sábado, 16 de abril de 2016

“Judiciário está sendo substituído pela opinião pública”

Para Roberto Caldas, presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ímpeto punitivista no Brasil é semelhante ao de Honduras
por Marsílea Gombata — publicado 14/04/2016 04h49, última modificação 15/04/2016 11h06
Arquivo/ CIDH
robertocaldas
Caldas é ex-membro da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo
Caldas, ex-membro da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo e à frente da Corte desde o início do ano, alerta para características de um curso similar aos casos da Venezuela em 2002, quando da tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, de Honduras em 2009, quando Manuel Zelaya foi retirado de casa ainda de pijamas e enviado em um avião para a Costa Rica.
“O que está em jogo é a própria democracia”, afirma o juiz sergipano em entrevista aCartaCapital. “A autoridade do Poder Judiciário está sendo substituída por alguém que passa a julgar publicamente”.
Sem citar diretamente a investigação da Operação Lava Jato, a divulgação de depoimentos oriundos de delações premiadas e também de algumas escutas telefônicas, Caldas condena decisões arbitrárias de se grampear alguns suspeitos e, de forma seletiva, escolher quais dessas escutas devem ou não ser divulgadas pela imprensa.
“Ora, se alguém começa a analisar uma prova e dizer que existiu um crime com base nela, tira-se a autoridade do Judiciário de decidir e contrabalancear acusações de outras partes.”
O calor do debate embalado pela mídia é visto com maus olhos por Caldas. Para o jurista, o papel da imprensa fica em xeque quando essa é capaz de influenciar a decisão de atores que devem ter isenção e frieza antes de decidir pelo sim ou pelo não quanto à abertura de umprocesso de impeachment, como o que vem sendo discutido contra a presidenta Dilma Rousseff.
“Será que o parlamentar terá a tranquilidade e a imparcialidade que deve ter qualquer julgador depois de existir uma discussão pública sobre determinados elementos de prova?”, questiona.
Caldas alerta ainda para o fato de “o Judiciário estar sendo substituído pela opinião pública” e não titubeia: a transcrição de um depoimento não é para ficar à disposição de todos, e uma evidência obtida de forma irregular não deveria ser utilizada em uma investigação séria. “Isso não pode se tornar um elemento para fazer parte de um jogo político”, critica. “Uma prova ilícita não pode ser levada em consideração, ela é nula de pleno direito.”
Frente a um cenário arbitrário, em que poderes e funções se confundem, o presidente da CIDH lembra um caso de escutas telefônicas irregulares, que levou o Brasil a ser condenado pela corte internacional em 2009. 
No chamado caso Escher, trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná foram grampeados em 1999. O Estado brasileiro foi considerado culpado pelas escutas realizadas com autorização judicial a pedido da Polícia Militar e também pela posterior divulgação das gravações. No entendimento da Corte vinculada à OEA, houve violação ao direito à privacidade e à honra no caso que deveria servir de lição para o País.  
“É importante processar e punir os culpados pela divulgação, isso não pode continuar acontecendo”, condena. “Praticamente todos os dias há informações de gravações divulgadas. Onde estamos? Dentro de um tribunal, cada um tem direito à defesa por tempo igual determinado, com igualdade de armas. Na arena pública, sem armas, é como jogar esses cidadãos aos leões. E isso leva a uma situação indesejável para os direitos humanos, não apenas individuais, mas para a própria democracia.”
O Brasil vive hoje, segundo Caldas, um clima de polarização e violência semelhante aos que antecederam golpes de Estado recentes. A escuridão imposta ao Brasil de 1964 e 1985 e amargas experiências vivenciadas recentemente por países como Venezuela, Honduras eParaguai - quando em 2012 o Congresso votou em menos de 48h pelo impeachment de Fernando Lugo - acendem um alerta sobre o formato dos golpes atuais.
“Hoje não são as Forças Armadas, mas mecanismos dos próprios poderes constituídos, majoritários ou não, que se movem em uma mesma direção, se aliam a um vazamento para a imprensa, que tem muito mais liberdade que o próprio agente público e gera desestabilização”, observa.
“É importante os meios continuarem com liberdade de expressão e de imprensa, mas quando passam a agir com libertinagem, daí a situação se agrava e evidencia características próprias de um golpe de Estado.


Meire Poza é pivô de provas ilegais na Lava Jato, indicam documentos

A maior investigação da história pode ter passado por cima da lei em nome da justiça, mostram bastidores da operação
por Henrique Beirangê — publicado 16/04/2016 10h17, última modificação 16/04/2016 10h33
Pedro França / Agência Senado
Meire Poza
Meire Poza: a contadora de Youssef
CartaCapital teve acesso a um conjunto de trocas de mensagens, vídeos, fotos e documentos que revelam que integrantes daOperação Lava Jato podem ter feito uso de provas ilegais, vazado informações confidenciais, forjado buscas e apreensões e usado uma informante infiltrada irregularmente. São diálogos entre agentes e delegados da Polícia Federal e Meire Poza, contadora e ex-braço direito de Alberto Youssef, principal delator do escândalo de corrupção na Petrobras.
O que será narrado a seguir mostra que, à margem da lei, a força-tarefa pode ter colocado todo o trabalho de três anos de investigação em risco por conta do "justiça a qualquer preço". Eventualmente, a chamada doutrina jurídica dos frutos da árvore envenenada pode fazer com que todas as provas e missões concluídas sejam questionadas e até invalidadas pela Justiça. Outras operações, entre elas a Castelo de Areia, foram anuladas por supostamente conterem erros de procedimento.
A revista questionou a contadora a respeito dos documentos. Meire ameaçou processar o veículo, caso as conversas e dados fossem divulgados. A contadora publicou um livro faz dois meses expondo sua intimidade com os bastidores da operação, mas não revelou na ocasião todas as conversas e nem explicou à reportagem a omissão de tais fatos.
A revista decidiu tornar pública toda a documentação e revelar os fatos que serão expostos a seguir.
A história que se segue começa a ser contada em meados de 2012, quando a contadora esteve na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Poza, ainda não se sabe o motivo, decide denunciar a existência de um esquema de fraudes em fundos de pensão privados operados em conluio pelo doleiro Alberto Youssef e agentes de vários estados. Um delegado da PF em São Paulo que a recebeu deu de ombros. Nenhum depoimento foi colhido e nada foi feito para apurar as denúncias.
Dois anos mais tarde, quando a investigação da Lava Jato ganhou as ruas, em março de 2014, Meire procurou a PF mais uma vez e desta vez foi ouvida. Ela foi recebida em São Paulo pelo delegado Márcio Anselmo, líder do grupo que investigava lavagem de dinheiro por meio de doleiros a partir de Curitiba. Até aquele momento, a força-tarefa não fazia a mínima ideia onde a Lava Jato iria chegar e sabia-se apenas que era mais uma investigação contra lavagem de dinheiro.
CartaCapital apurou que foi feito um acordo com a contadora: ela forneceria informações dos investigados e vazaria documentações em troco de não ser processada. E há indícios de que isso de fato ocorreu. Embora seu escritório tenha lavado 5,6 milhões de reais de Youssef, Poza nunca foi sequer indiciada. CartaCapital teve acesso a trocas de mensagens, fotos, vídeos e documentos entre Meire e integrantes da força-tarefa que datam de 5 de maio de 2014 a março de 2015.
Um dos diálogos que mais chamam atenção trata da farta documentação escriturária e contábil das empresas de fachada de Youssef. Meire tinha em seu poder caixas de documentos com contratos fictícios da RCI, MO Consultoria, GDF e Empreiteira Rigidez. Companhias que só existiam no papel, mas serviam para Youssef receber propina das maiores construtoras do País.
A força-tarefa não fazia a mínima ideia da existência desses documentos. Era um acervo que identificou que Youssef recebia dinheiro das maiores construtoras do País por serviços que nunca prestou. As caixas foram entregues pela contadora, em março de 2014. No entanto, como a documentação foi entregue de maneira aparentemente ilegal, a força-tarefa precisava “esquentar a documentação” na gíria policial.
Em 5 de maio, o delegado Márcio Anselmo fala com Poza pelo aplicativo de conversas WhatsApp. “Devemos acertar para a prox semana uma viagem a sp para formalizar a apreensão daqueles documentos”. Poza responde: “Te aguardo!!!”. O delegado continua: “Se puder já separe todo o material dos contratos da gfd”.
A busca acabou se dando em 1º de julho de 2014, durante a 5ª fase da Operação Lava Jato. Um indicativo de que a Polícia Federal marcou dia e hora para uma busca e apreensão desnecessária. Uma diligência que deu ensejo ao uso de documentos que municiaram grande parte de tudo o que veio a ser descoberto.
Em um dos diálogos, o delegado indica que buscaria o Ministério Público Federal e que levaria ao conhecimento dos procuradores a relação com a contadora: “Vou conversar c o mpf sobre a sua situação”.
Meire Poza
Delegado avisa contadora que iria tratar da situação de Meire Poza com o MPF
Os agentes também já sabiam em maio de 2014 do envolvimento de parlamentares na investigação. Diferente do que foi dito pelos integrantes da força-tarefa, que só tomaram conhecimento da existência de personagens com prerrogativa de foro ao longo da investigação, um dos diálogos revela que Meire e Márcio Anselmo falam do então deputado federal Luís Argolo.
Em 14 de maio, Márcio pergunta para Meire: “vc sabe se o bebe jhonson tinha alguma relação com o precatório do maranhão?”. Bebê Jhonson era como os investigados se referiam ao ex-deputado Luiz Argolo. Ou seja, naquele momento a força-tarefa investigava um deputado federal sem autorização do Supremo Tribunal Federal.
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Delegado da PF e Meire Poza conversam sobre a situação do deputado Luiz Argolo
Em 15 de maio, Meire dispara: “O Argolo ameaçou um monte de deputado”. Márcio responde: “Eu descobri pq o boato na semana passada”. O delegado continua: “Eu acho que o argolo, mesmo no sdd, distribuía $$$ para o PP”.
Rodrigo Prado
O agente Rodrigo Prado encaminhou esta foto, feita durante ação da Lava Jato, para a contadora
O delegado mostra que a operação visava mais políticos. Márcio pergunta: “Com que outros políticos ele tinha contato?”, a contadora responde: “tem um senador que eu preciso lembrar o nome, tinha o governador da Bahia”. Nos diálogos também há menções à então deputada Aline Correa (PR-CE) e ao senador Cícero Lucena (PSDB-PB).
As conversas não se limitam ao delegado. O agente Rodrigo Prado era quem Meire municiava com informações. A contadora faz gravações escondidas com os investigados da operação, encaminha documentos irregularmente e trocam fotos. Numa delas, o agente mostra uma foto de dentro da viatura com um dos investigados. 
Ao que parece, outros integrantes da força-tarefa em Curitiba tinham conhecimento da utilização da contadora na operação, como indica um email encaminhado por Meire ao delegado Eduardo Mauat. Estão em cópia na mensagem o delegado Igor de Paula, a delega Érika Marena, o agente Prado e o delegado Márcio Anselmo, nomes relevantes da força-tarefa dentro da PF em Curitiba.
Tudo isso com o aparente conhecimento do superintende da PF no Paraná, Rosalvo Ferreira Franco, conforme email de 13 de agosto. Em email encaminhado aos delegados e a Meire, que usava o endereço eletrônico rabellopassos@gmail.com, ele diz estar ciente de uma conversa entre Igor e Meire a respeito da segurança da contadora.
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Troca de mensagem entre delegado, superintendente da PF e Meire Poza
No email, a contadora se diz abandonada pela operação e reclama: “Não vou ficar esperando que algo de ruim aconteça comigo ou com a minha filha. Espero que tenham a sensatez de saber que um erro não justifica o outro. Eu mostrei minha cara, mas foram vocês que colocaram minha vida em risco. Isso eu não vou perdoar nunca.”
Todos os detalhes dessas conversas e mais diálogos que expõem a Lava Jato você acompanha na edição especial de CartaCapital que começa a circular na próxima quarta-feira, 20. Todos os documentos, mensagens, áudios e fotos em poder da revista serão encaminhados ao Procurador Geral da República, ao Ministério da Justiça, à direção da Polícia Federal e à Ordem dos Advogados do Brasil. 

Distribuição desigual

Publicidade federal: Globo recebeu R$ 6,2 bilhões dos governos Lula e Dilma

Entre os jornais, O Globo foi o que mais recebeu verbas; revista Veja recebeu mais de R$ 700 milhões no período
por Redação — publicado 29/06/2015 16h36, última modificação 29/06/2015 16h37

Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula-e-Dilma
Ao todo, foram consumidos R$ 13,9 bilhões para veicular comerciais estatais no período do PT
Segundo dados divulgados nesta segunda-feira pelo UOL, a Rede Globo e as cinco emissoras de sua propriedade teriam recebido R$ 6,2 bilhões em publicidade federal durante os últimos doze anos de governo petista. A segunda maior verba foi destinada à Record: R$ 2 bilhões. De 2003 a 2014, o SBT recebeu R$ 1,6 bi, a Band, R$ 1 bi e a Rede TV! ficou com R$ 408 milhões.
O montante é ainda maior quando considerados os valores pagos às emissoras filiadas do Grupo Globo. Nessa mais de uma década a RBS recebeu R$ 63,7 milhões e a Rede Bahia, teve um faturamento de R$ 50,9 milhões. Outra, de propriedade do empresário José Hawilla, envolvido no escândalo de corrupção da Fifa, é a TV Tem, que teria faturado R$ 8,5 milhões.
Lula e Dilma investiram um total de R$ 13,9 bilhões para fazer propaganda em todas as TVs do país. A parte destinada somente às emissoras da Rede Globo representa quase metade desse total. Apesar disso, a porcentagem destinada à Globo tem sido reduzida.
Ao final do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 2002, as emissoras globais detinham 49% das verbas estatais destinadas à propagada em TV aberta, chegaram a 59% durante o governo Lula e, no ano passado, a Globo ainda liderava com R$ 453,5 milhões investidos, mas do total, o valor representa 36%.
Outras plataformas
O meio Internet é o segundo que mais recebe dinheiro para publicidade estatal do governo. O maior portal do país, o UOL, que pertence ao Grupo Folha e recebeu 39,8 milhões de visitantes únicos em dezembro de 2014, teve R$ 14,7 milhões de faturamento. Já o G1 e o portal Globo.com que, somados, tiveram uma audiência de 34,1 milhões de visitantes únicos em dezembro de 2014, receberam R$ 13,5 milhões de verbas federais de publicidade nesse ano. O Terra e o R7 receberam 9 e 6 milhões de reais respectivamente.
Entre 2003 e 2014, os jornais impressos arrecadaram R$ 2,1 bilhões com propagadas de Lula e Dilma. Do total, R$ 730,3 milhões, 35%, foram destinados a apenas quatro publicações: O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Essas mesmas publicações recebiam um volume de receita proporcionalmente igual entre 2000 e 2002, mesmo com FHC na presidência.
O jornal impresso agraciado com a maior verba em 2014 foi O Globo: R$ 21,5 milhões.
A versão digital desses impressos que mais recebeu verba em 2014 foi o jornal O Estado de S. Paulo, seguido por O Globo, com R$ 2,7 mi e R$ 2,4, respectivamente. A Folha de S. Paulo recebeu R$ 2,1 +milhões e o Valor recebeu R$ 288 mil, apenas 10,5% do valor destinado ao Estadão.
Entre as revistas, a semanal Veja recebeu R$ 19,9 milhões --o ano em que recebeu mais foi 2009, quando o governo federal lhe destinou R$ 43,7 milhões. No total, a revista já recebeu R$ 370,9 mi de Dilma e Lula. Abaixo dela vem a Época, com R$ 168, 4 mi, a IstoÉ, com R$ 145,4 mi e a CartaCapital recebeu R$ 61 mi, 16,4% do destinado à Veja.
Somando as verbas da publicidade feita por empresas estatais, Veja recebeu mais de R$ 700 milhões nos governos Lula e Dilma.
No governo Fernando Henrique, CartaCapital recebeu R$ 2,9 milhões em verbas federais, contra R$ 89 milhões de Veja, R$ 45 milhões de Época e R$ 38 milhões da Istoé. 

CONCENTRAÇÃO DE RENDA

NO PASSADO, QUANDO SE FALAVA EM REDISTRIBUIÇÃO DE RENDA, SEMPRE SE ARGUMENTAVA QUE OS POBRES, COM O CRESCIMENTO DE SUA RENDA, TENDERIAM A CONSUMIR MAIS E , PORTANTO, A TAXA DE POUPANÇA CAIRIA. HOJE, O PARADOXO É QUE OS RICOS BRASILEIROS É QUE TÊM UMA ALTÍSSIMA PROPENSÃO A CONSUMIR. A RENDA NÃO SE CONCENTRA PARA AUMENTAR A TAXA DE POUPANÇA, E SIM, PARA AUMENTAR O CONSUMO DOS MAIS RICOS. É ESCANDALOSA A DISTÂNCIA, NO BRASIL, ENTRE O CONSUMIDOR POPULAR E O CONSUMIDOR MÉDIO E RICO. SEM LUGAR A DÚVIDA, ESSA DEFASAGEM É DAS MAIORES DO MUNDO. NA ÍNDIA, OS 20% MAIS RICOS TÊM EM MÉDIA UMA RENDA QUATRO VEZES MAIOR QUE A DOS 20% MAIS POBRES; NO BRASIL ESSA RELAÇÃO É DE UM PARA TRINTA E TRÊS VEZES. POR OUTRO LADO, O ABUSO DO CONSUMO CONTAMINA AS CLASSES MAIS POBRES, QUE GASTAM EM PRODUTOS NEM SEMPRE NECESSÁRIOS.
A  ALTA PROPENSÃO A CONSUMIR DECORRE DO FATO DE AS CLASSES ALTA E MÉDIA BRASILEIRAS SEGUIREM OS PADRÕES NORTE-AMERICANOS. MAS, COMO TER ESSE PADRÃO DE VIDA COM UMA RENDA DEZ VEZES MENOR? ESTE É O GRANDE PROBLEMA: POR UM FENÔMENO DE ACULTURAÇÃO, O BRASILEIRO DE RENDA ALTA ABSORVE PADRÕES DE CONSUMO E TAMBÉM DE DESPERDÍCIO, GOSTO PELO SHOW OFF, PELO GASTO OSTENTATÓRIO QUE SE CARACTERIZA.
NÓS, ECONOMISTAS, TIVEMOS CERTA RESPONSABILIDADE NISSO, AO EMBALARMOS O SONHO DO ENRICHISSEZ-VOUS, MONSIEUR, COMO SE DIZIA NA FRANÇA:"ENRIQUEÇAM E SALVAREMOS O PAÍS", POIS O COEFICIENTE DE POUPANÇA CRESCERÁ MAIS DO QUE A RENDA INDIVIDUAL E SERÁ POSSÍVEL ACELERAR O CRESCIMENTO. ERA O RACIOCÍNIO SIMPLÓRIO DOS ECONOMISTAS DE ALGUNS ANOS ATRÁS. HOJE O BRASIL TEM UMA RENDA DEZ VEZES MAIOR DO QUE TINHA QUANDO COMECEI A ESTUDAR ESSES PROBLEMAS, MAS TEM TAMBÉM MAIORES DESIGUALDADES, E OS POBRES CONTINUAM IGUALMENTE POBRES.
CABE A PERGUNTA: HOUVE DESENVOLVIMENTO? NÃO: O BRASIL NÃO SE DESENVOLVEU; MODERNIZOU-SE. O DESENVOLVIMENTO VERDADEIRO SÓ EXISTE QUANDO A POPULAÇÃO EM SEU CONJUNTO É BENEFICIADA.(EM BUSCA DE UM NOVO MODELO - CELSO FURTADO - 2002).

A EDUCAÇÃO

UM AMPLO  PROGRAMA SOCIAL DEVE DAR PRIORIDADE À HABITAÇÃO E À EDUCAÇÃO, ANTES DO INVESTIMENTO REPRODUTIVO. A EDUCAÇÃO INTERFERE NO TEMPO, E, MELHORANDO-SE A QUALIDADE DO FATOR HUMANO, MODIFICA-SE POR COMPLETO O QUADRO DO PAÍS, ABREM-SE POSSIBILIDADES DE DESENVOLVIMENTO MUITO MAIORES. NÃO HÁ PAÍS QUE  TENHA CONSEGUIDO SE  DESENVOLVER SEM INVESTIR CONSIDERAVELMENTE NA FORMAÇÃO DE GENTE. EM CRIANÇA EU JÁ OUVIA FALAR NO FENÔMENO DO JAPÃO, QUE TINHA ALFABETIZADO 100% DA POPULAÇÃO NO FIM DO SÉCULO XIX. ESSE É O MAIS IMPORTANTE INVESTIMENTO A FAZER, PARA QUE HAJA NÃO SÓ CRESCIMENTO, MAS AUTÊNTICO DESENVOLVIMENTO.(EM BUSCA DE UM NOVO MODELO - CELSO FURTADO - 2002.).

Feminismo Negro

“O racismo é uma problemática branca”, diz Grada Kilomba

A artista interdisciplinar portuguesa aborda questões como gênero, memória e racismo
por Djamila Ribeiro publicado 30/03/2016 03h58, última modificação 30/03/2016 04h29

Renata Martins
Grada Kilomba
"Como mulheres negras, feministas que descolonizam o pensamento, precisamos aprender a focar na energia certa"
A convite do Instituto Goethe, Grada Kilomba fez intervenções em São Paulo dentro do evento “Massa Revoltante". A escritora, performer e professora da Universidade Humboldt de Berlim realizou a palestra performance “Descolonizando o conhecimento”
Com origens nas ilhas São Tomé e Príncipe e Angola, a artista interdisciplinar portuguesa Grada Kilomba trabalha com os temas de gênero, raça, trauma e memória. Autora de Plantations Memories – Episodes of everyday racism, acaba de lançar sua mais nova obra chamada Performing Knowledge.
Particularmente, encontrá-la foi um momento especial porque Grada está nas referências bibliográficas da minha pesquisa de mestrado, e foi emocionante poder conhecê-la além de sua obra. Grada parece ocupar um lugar de sublimação, sua fala é otimista, acolhedora e seu trabalho, como ela mesma diz “dialoga com as vozes do futuro”. Leia trechos da entrevista a seguir:
CC: Como é possível descolonizar nosso pensamento numa sociedade que ainda não nos vê como sujeito?
GK: Parte do processo de descolonização é se fazer essas questões. É perguntar, às vezes é não ter a resposta, mas fazer novas perguntas. Quando eu trabalho, eu sou a favor de criar novas questões e não necessariamente de encontrar as respostas. Às vezes nós estamos à espera de fazer perguntas muito divinas que ninguém pode responder, fazemos perguntas que são muito absolutas a espera de uma receita, de um resposta absoluta. E isso é uma contradição do processo. Eu acho que o próprio processo de descolonização é fazer novas questões que nos ajudam a desmantelar o colonialismo.
Faz parte desse processo de descolonização aprender a fazer perguntas menores, que fragmentam. Eu acho isso muito importante. A população branca perguntou durante muito tempo se era racista. É de novo uma pergunta muito absoluta que tem uma resposta muito absoluta.
CC: Qual o papel do sujeito negro nisso?
GK: Somos pessoas diferentes, sujeitos diferentes. Há dias que me sinto forte, há dias em que sinto fraca, há dias em que não quero ver ninguém, há dias em que eu rio muito. Todo dia é diferente. Há dias em que eu faço piada, há dias em que eu choro. E isso faz parte desse processo de humanização porque o racismo não nos deixa ser humano.
O racismo nos coloca fora da condição humana e isso é muito violento. E muitas vezes nós achamos que alcançar essa humanidade se dá através da idealização. Se o racismo diz que eu não sei, eu vou dizer que sei ainda mais. E pra mim é muito importante desmistificar isso. Eu quero ser eu, não quero ser idealizada e nem inferiorizada. E eu, assim como todas as pessoas, quero dizer que há dias em que sei, e dias em que não sei. Às vezes eu choro e às vezes eu rio, às vezes eu quero e às vezes eu não quero. Quero ter essa liberdade humana de ser eu.
CC: Aqui no Brasil, durante muito tempo, se negou a existência do racismo, criou-se o mito da democracia racial, e por conta dessas construções muitas pessoas negras no não se vêem como negras. Como lidar com o racismo nessa situação?
GK: Eu nasci em Lisboa e só depois de um tempo fui morar em Berlim e em Lisboa também há toda essa hierarquização de termos como mulato, mestiço. E as pessoas usam o termo sem saber o que o termo quer dizer. São termos ligados a animais híbridos, de colocar referências do corpo negro como animal. São depreciativos. E é necessário fazer a historicidade desses termos porque muitas vezes as pessoas acham que são palavras positivas, é necessário descodificar.
Aqui temos um movimento muito assimilado, nós somos muito simpáticos, e o movimento negro que eu vivenciei na Alemanha foi muito bom pra mim porque as coisas são muito claras. Nós tivemos uma influência muito grande da maravilhosa escritora e feminista Audre Lorde, que viveu muitos anos em Berlim, o que ajudou muito uma geração anterior à minha a se auto definir, a deixar uma série de palavras para trás.
E ela vinda dos EUA, como mulher feminista, lésbica, falou muito sobre a importância de uma identidade política. Por isso que para esse evento do Goethe nós fizemos vários cartazes com a afirmação “branco não é uma cor”, porque branco não é uma cor, é uma afirmação política, assim como negro ou Black.
Representa uma história de privilégios, escravatura, colonialismo, uma realidade cotidiana. A mudança começa pela autodefinição e a importância disso. È necessário desmistificar essa hierarquia.
CC: O indivíduo branco não se racializa, geralmente se coloca como universal. Como fazer esse indivíduo perceber que ser branco é uma afirmação política?
GK: As pessoas brancas não se vêem como brancas, se vêem como pessoas. E é exatamente essa equação, “sou branca e por isso sou uma pessoa” e esse ser pessoa é a norma, que mantém a estrutura colonial e o racismo. E essa centralidade do homem branco não é marcada. E o que esses movimentos como o Critical Whitness e o que eu faço no meu trabalho, é justamente começar a marcar.
E o que quer dizer marcar? Quer dizer também falar sobre diferenças. Por exemplo, como pessoas negras, muitas vezes, somos referidos como diferentes. E eu coloco a questão: diferente de quem? Quem é diferente? Tu és diferente de mim ou eu sou diferente de ti? Pra dizer a verdade nós somos reciprocamente diferentes. Então a diferença vem de onde? Eu só me torno diferente se a pessoa branca se vê como ponto de referência, como a norma da qual eu difiro. Quando eu me coloco como a norma da qual os outros diferem de mim, aí os outros se tornam diferentes de mim. Então é preciso a desconstrução do que é diferença.
Outro mito que precisamos desconstruir é de que muitas vezes nos dizem que nós fomos discriminados, insultados, violentados porque nós somos diferentes. Esse é um mito que precisa acabar. Eu não sou discriminada porque eu sou diferente, eu me torno diferente através da discriminação. É no momento da discriminação que eu sou apontada como diferente. Desconstruir o racismo e descolonizar o conhecimento. Às vezes podem soar apenas como palavras, mas possuem uma construção teórica imensa.

CC: Por conta do aumento de pessoas negras nas universidades nos últimos anos, da própria internet, que com seus limites, permite que pessoas negras disputem narrativas, há uma reação forte por parte de algumas pessoas brancas de inverter o discurso e dizer que existe “racismo reverso”. Dizem que as pessoas negras são agressivas e não permitem o diálogo. Você vê isso como uma forma de querer barrar as narrativas das pessoas negras?
GK: Mais uma vez tem a ver com a desmistificação. Racismo tem a ver com poder, com privilégios. A população negra não tem poder historicamente. Racismo é uma problemática branca, portanto temos que começar pela desmistificação. Dentro de comunidades marginalizadas pode haver preconceito, isso é uma coisa, mas poder é a definição de racismo.
Por sermos vistos como diferentes e essa diferença ser considerada problemática, ficamos de fora das estruturas de poder, que é o racismo estrutural, institucional, acadêmico, do dia a dia, etc. Quando nós sabemos o que é o racismo, sabemos que independentemente dos conflitos entre as diferentes comunidades, não há racismo inverso. Quando um sistema está habituado a definir tudo, bloquear os espaços e as narrativas e nós, a partir de um processo de descolonização, começamos a adentrar esses espaços, começamos a narrar e trazer conhecimentos que nunca estiveram presentes nesses lugares, claro que isso é vivenciado como algo ameaçador.
Porque é necessário desistir de certos privilégios. Isso faz parte do processo que as pessoas precisam agüentar e eu não vejo isso como violência, eu vejo o racismo como uma grande violência.
É preciso não dar importância a essas vozes, precisamos focar nas nossas competências, no modo como estamos transformando as agendas e o discurso. O que me interessa são as pessoas que dialogam comigo, as outras vozes não me interessam. Como mulheres negras, feministas que descolonizam o pensamento, precisamos aprender a focar na energia certa.

DIFERENÇAS

"NO SERTÃO DA PARAIBA, ONDE NASCI,  AS DIFERENÇAS ENTRE AS HABITAÇÕES DO POVO E AS HABITAÇÕES DA CLASSE MÉDIA RURAL OU SEMI-RURAL SÃO CHOCANTES. ATENUÁ-LAS EXIGE UMA REFORMA PATRIMONIAL QUE, POR SUA VEZ, REQUER UMA POLÍTICA COM APOIO DA OPINIÃO PÚBLICA".(EM BUSCA DE UM NOVO MODELO - CELSO FURTADO - 2002).