Houve uma enxurrada de memes, o jingle de baixo calão zoando Flávio Bolsonaro rodou o mundo, ganhou versões em espanhol, inglês, latim e hindu – mas engana-se quem aposta no bolsonarismo como página virada.
Apenas uma semana depois das trapalhadas de Flávio, seguem vivas e robustas as tentativas de tirar Jair da prisão domiciliar: por um lado, o STF deve julgar a lei da dosimetria já aprovada pelo Congresso, caso em que poderia passar ao regime semiaberto no início de 2028; por outro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tenta articular um indulto ou anistia para o ex-presidente em troca da sua reeleição. E ainda temos o ministro Nunes Marques, que deve liberar para julgamento os pedidos de Bolsonaro para anular ou revisar sua condenação, que este ministro considera exagerada.
Soltar Jair seria, claro, a rota mais rápida para o bolsonarismo se rearranjar depois da fuga de Flávio para os EUA, onde preferiu aninhar-se próximo a André Ramagem e Paulo Figueiredo na Flórida em vez de ficar perto do irmão, que vive no Texas, a 2 mil quilômetros de distância. Mas há muitos outros caminhos.
Em que pese Flávio Bolsonaro ser um líder medíocre e questionado pelo próprio PL – difícil, portanto, que consiga de fato “liderar” a oposição a partir do calor das praias da Flórida – o bolsonarismo, movimento político-cultural, segue vivo e buscando uma liderança que o sustente. Que está vivo na sociedade, é de uma clareza solar: basta ver as correntes que vêm pregando boicotes a empresas que declararam o voto a Lula, retaliações contra profissionais e empregado e o aumento da violência contra que indígenas (foram 7 assassinatos neste ciclo eleitoral, 11 ameaças de morte e 18 agressões físicas). Aumentou o fogo na Amazônia. Uma lista de judeus progressistas passou a circular entre a própria comunidade judaica, avisando que não se deve contratá-los ou fazer negócios com eles.
Algo impensável se o desfecho fosse o oposto.
Mas, além dos ânimos bolsonaristas que perseveram na sociedade, é importante lembrar que o bolsonarismo caminhou muito na sua internacionalização. Ao que tudo indica, Eduardo Bolsonaro conseguiu convencer o governo Trump de empregar agentes em solo Argentino para facilitar a fuga do irmão, algo que tem rendido críticas enormes dentro dos EUA pelos democratas. O que se sabe é que segundo o jornal Clarín, agentes dos Estados Unidos tomaram o controle de parte do aeroporto de Porto Iguaçu para ajudar na fuga e que pelo menos três aviões privados foram coordenados pelo Departamento de Estado para servirem como opções alternativas para garantir a chegada de Flávio até Miami.
Donald Trump, presidente da maior potência mundial, repetiu algumas vezes que as eleições brasileiras foram “muito estranhas” e que “pareceu mais uma eleição fraudada”. Disse ainda que Flávio pode ficar quanto tempo quiser nos EUA. Seu governo lançou mão de um estratagema bastante questionável – a “autorização de entrada humanitária” – para permitir que Flávio entrasse nos EUA. Pularam uma fila de 32 mil pessoas que esperam o mesmo expediente. Marco Rubio pode até dizer que não atuou para levar Flávio aos EUA; está difícil de acreditar. Jason Miller, assessor de Trump desde a primeira eleição, inimigo declarado de Alexandre de Moraes, aparentemente agiu para fretar o avião; Steve Bannon, que segue influente nos círculos MAGA embora não faça parte do governo, conclamou o governo Trump a cortar relações com o Brasil.
Agora, uma reportagem do Fantástico atesta que um agente da Mossad (ou “ex-Mossad”, termo que considero questionável) esteve em uma das vans que coordenaram a operação de traslado de Flávio Bolsonaro até o aeroporto de Puerto Iguazú, de onde ele partiu para a Flórida.
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