O momento atual apenas reforça a necessidade de dar concretude ao compromisso assumido na COP28, em Dubai, quando os países concordaram, pela primeira vez em quase 30 anos de negociações climáticas, olhar para o elefante na sala e concordar que, para combater a crise climática é preciso fazer a “transição para longe dos combustíveis fósseis”. Me lembro de ter escrito, na época, que aquele era o “começo do fim dos fósseis”. O problema é que, desde então, nas COPs seguintes, ninguém quis detalhar como essa transição deve acontecer.
A Conferência de Santa Marta vem como uma resposta a esse vazio e uma oportunidade para romper com esse impasse. Talvez possa ser um novo começo do fim.
Proposta pelo governo colombiano, a conferência não tem relação com o regime formal da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC) e é uma tentativa deliberada de contornar as amarras das COPs, onde qualquer avanço depende do aval de todos os países, inclusive daqueles mais dependentes da exploração de fósseis.
Não se deve esperar, porém, um anúncio bombástico. Nem metas vinculantes.
Segundo o próprio governo colombiano, o objetivo é mais pragmático: identificar “caminhos e mecanismos” de cooperação financeira, fiscal, regulatória e internacional que possam acelerar a transição para longe do petróleo, gás e carvão. Integrantes do governo admitem que este é apenas um primeiro passo – parte de um processo que deve se desdobrar em novas reuniões nos próximos anos.
“Nunca antes houve um espaço dedicado para que países e setores falem abertamente sobre a eliminação dos combustíveis fósseis”, afirma a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez. “Acho que há uma espécie de tabu em torno desse tema precisamente porque há uma grande dependência econômica e também há um lobby petroleiro que está permanentemente incidindo nas conferências das partes das mudanças climáticas.”
A proposta, segundo ela, é fazer uma “coalizão dos dispostos” a mexer nesse vespeiro e criar um espaço honesto de discussões. Um espaço onde não apenas as soluções, mas também as contradições e os obstáculos possam ser colocados sobre a mesa. “Ninguém diz que o caminho é fácil. Ninguém tem certeza sobre a trajetória de cada um dos países e de suas economias. Mas não por isso devemos nos esconder frente à dificuldade”, diz Vélez.
A vice-ministra Luz Dary Carmona reforça que a ideia não é produzir uma declaração formal, mas promover articulação, fortalecimento e ampliação dos esforços para a transição energética no nível global. “Esta conferência não vai tentar convencer ninguém. Nela estamos aqueles já convencidos de que é urgente realizar ações de transformação para diminuir a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição”, afirma.
O esforço da conferência na Colômbia complementa outra iniciativa que corre em paralelo sob liderança da presidência brasileira da COP30. Diante da impossibilidade de incluir um “mapa do caminho” formal nos resultados da cúpula realizada em Belém em novembro passado, os coordenadores do evento se dispuseram a elaborar, de modo independente ao processo da Convenção do Clima da ONU, um mapa do caminho global. Uma espécie de roteiro com critérios que possam orientar a transição energética em todo o mundo. Também está sendo elaborado um mapa do caminho para orientar o fim do desmatamento.
A ideia, segundo o embaixador André Corrêa do Lago, é reunir elementos que ajudem países a, eventualmente, chegar a consensos sobre o processo dos mapas do caminho.
Os dois processos – o de Santa Marta e o do mapa do caminho da presidência da COP30 – caminham fora das estruturas formais, mas se complementam. O que sair da conferência colombiana pode influenciar o primeiro rascunho do roteiro global, esperado antes do próximo ciclo de negociações climáticas, em junho, na cidade de Bonn, na Alemanha – a primeira prévia antes da COP31, que será realizada na Turquia.
O coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo, também destaca a complementaridade dos dois processos: “ambos buscam lidar com a falha do multilateralismo, até agora, em alcançar consenso sobre como, e em que velocidade, vamos implementar o acordo de fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis de forma justa e ordenada”, diz.
O que ainda não saiu do papel, porém, foi a iniciativa nacional de mapa do caminho. Logo após a COP30, o presidente Lula, que se mostrou um forte defensor de uma decisão pelo roteiro global em Belém, lançou um chamado para que, internamente, o país também fizesse um estudo do seu próprio mapa do caminho a fim de reduzir a dependência brasileira dos fósseis. Lula publicou um despacho no começo de dezembro dando dois meses para seus ministros elaborarem um documento com diretrizes para esse roteiro. Já se passaram mais de quatro meses e ele ainda não foi apresentado.
Na semana passada, as principais organizações científicas brasileiras, a SBPC e a ABC enviaram uma carta ao presidente e aos ministérios envolvidos na demanda (Fazenda, Meio Ambiente e Mudança do Clima e Minas e Energia) pedindo o cumprimento da determinação.
“A urgência é real e crescente. As evidências científicas indicam que o planeta se aproxima de forma alarmante do limiar de 1,5°C de aquecimento antes de 2030 e pode ultrapassar 2°C antes de 2045, com sérias consequências para a sociedade, o meio ambiente e a economia brasileiras”, alertam os cientistas. Eles lembram que o Brasil é particularmente vulnerável.
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