Blog criado para informar a todos e a todas sobre os acontecimentos e temas do campo e da agricultura familiar.
terça-feira, 3 de maio de 2016
GASTO DA DÍVÍDA
NO ANO PASSADO, O GASTO COM A DIVIDA DO SETOR PÚBLICO FOI DE R$ 500 BILHÕES! OU SEJA, R$ 200 BILHÕES A MAIS DO FOI GASTO EM 2014!(POCHMANN).
ENTREVISTA MARCIO POCHMANN
NOS CASOS DOS ALIMENTOS, A RETOMADA DA REFORMA AGRÁRIA NÃO SERIA UMA MEDIDA ÓBVIA?
O TEMA DA REFORMA AGRÁRIA NÃO PODE SER VISTO APENAS COMO UMA QUESTÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE TERRAS. NA VERDADE, SEM POLÍTICA AGRÍCOLA, SEM GARANTIA DE PREÇOS, CRÉDITO, SEM COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO,SEM TECNOLOGIA, É INSUFICIENTE. A POLITICA AGRÍCOLA QUE ESTOU FALANDO OBVIAMENTE IMPLICA COORDENAR E DEMANDAR DA ESTRUTURA FUNDIÁRIA, MAS COM UMA POLÍTICA AGRÍCOLA MAIS ROBUSTA. (POCHMANN).
Editorial
O títere como convém
Será que o arguto professor Temer percebe a qualidade do seu papel?
por Mino Carta — publicado 02/05/2016 04h14
Ricardo Stuckert/PR
A rapidez de raciocínio de Michel Temer pareceu-me demonstrada na quarta-feira 20. Disse ele que a história do golpe prejudica a imagem do Brasil no exterior. Observação impecável. Prejudica muito. Além da conta.
Mundo afora, ganha substância a percepção de que o paraquedista do impeachment, arguto professor, prepara-se para assumir o comando de um governo inexoravelmente ilegítimo. A despeito de sua sagacidade, permito-me formular uma pergunta aos meus céticos botões: será que percebe sua condição de títere do momento?
Lá está porque convém ter à mão quem se habilita a conferir uma aparência ao resultado contingente do golpe de Estado ao sabor de uma falsa, irrecorrível, indisfarçável ilegalidade. Nada o garante, contudo, na perspectiva do amanhã sombrio, a galopar ao seu encontro. Títeres são facilmente intercambiáveis e um vale tanto quanto o outro.
Como diz Massimo D’Alema na entrevista que me precede, o Brasil recua várias décadas. Recua, porém, em um mundo e um país bem diferentes daqueles de 40, 50, 60 anos atrás. É como se recuasse em outra dimensão. Cheguei em São Paulo há exatos 70 anos e a cidade onde vivo até hoje tinha 1,5 milhão de habitantes, civilizada e deliciosamente provinciana, prometia ser uma das mais importantes metrópoles do mundo e o Brasil era, com méritos, o país do futuro.
Começos dos anos 60. A população paulistana chegava aos 3 milhões. No entorno crescia um parque industrial digno da contemporaneidade, capaz de produzir, algum dia quem sabe próximo, um proletariado, ou, por outra, o eleitorado cativo e consciente de um partido de esquerda. Sonhava-se com as reformas de base, enquanto a sombra de Cuba se alastrava pela América Latina. Era o caldo de cultura ideal para o conluio da casa-grande com Tio Sam.
Hoje o enredo desenrolado em novo cenário nacional e internacional, e que no caso de São Paulo apresenta uma metrópole abnorme e doente, mantém empresários e comerciantes brasileiros nas costumeiras posturas reacionárias, mas, de saída, discrepa no silêncio dos banqueiros e no comportamento exemplar da Forças Armadas diante de um golpe de feitio inusitado.
Além da previsível tibieza da Suprema Corte, há de se registrar como novidades a contribuição decisiva de um juizeco de província e de iletrados promotores, a assombrosa conivência policial e a clamorosa parvoíce de um Congresso, habitado por hipócritas e canalhas, ou simplesmente canalhas hipócritas.
A mídia nativa merece uma observação especial. No Brasil atual ela não é quarto poder, mesmo porque os demais não existem, é o primeiro, na qualidade de instrumento mais eficaz da casa-grande.
Os barões midiáticos e seus sabujos, sem exclusão de quem nos informa a respeito do belo porte físico de Michel Temer, não praticam o jornalismo e sim a propaganda, como diz Massimo D’Alema. Dispensam os fatos e desconhecem por completo a ética profissional. Isso tudo produz um espetáculo único a bem do deboche mundial.
Na sua entrevista, o líder esquerdista pronuncia em italiano duas palavras intraduzíveis: cavilloe resipiscenza. Aquela significa o truque, o engano, o ardil, destinado a justificar uma ação escusa ou criminosa.
A outra indica a atitude de quem se dispõe a repensar na situação que criou, de revê-la para se habilitar à reparação do erro. A primeira é constatação. A segunda não chega a revelar uma esperança, pois D’Alema não acredita na resipiscenza dos golpistas.
A solução, recomendável a esta altura da crise, também para o entrevistado estaria na convocação de eleições gerais o mais breve possível, como meio de repor a situação nos eixos democráticos, com a possibilidade de reformar um Parlamento hoje inconfiável. Há tempo, tal é a tese de muitos, de CartaCapital inclusive. Talvez se trate, infelizmente, de uma saída sábia demais.
Outro aspecto a ressaltar, o fato de que ser oposição de um governo ilegítimo está longe de configurar “uma situação desprezível”, conforme D’Alema. Esta poderia ser a notável oportunidade de devolver o PT às consignas traídas e de reaglutinar as forças de esquerda do Oiapoque ao Chuí. Trabalho para Lula, está claro, e com dedicação total.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
ANDANDO PELO SERTÃO
SEXTA-FEIRA PASSADA TIVEMOS UMA ATIVIDADE EM UMA COMUNIDADE DE SANTA CRUZ, COMUNIDADE DE FURNAS, COM O OBJETIVO DE FAZER UM TRABALHO COM UMA FAMILIA.
INICIALMENTE UMA CAMINHADA PELO SÍTIO E DUAS NOVIDADES: UMA PRIMEIRA, UM GRANDE PÉ DE UMBU DO SERTÃO, ATÉ AÍ TUDO BEM, MAS, A SURPRESA FOI O TAMANHO DO UMBU, POIS A CRENÇA ENTRE NÓS ERA QUE UMBU DE UM TAMANHO BOM, SOMENTE NAS SERRAS.
O OUTRO PONTO FOI UM UM GRANDE PÉ DE MANDIOCA, CHEGAMOS MAIS PARA PERTO PARA APRECIAÇÃO E NAS CONVERSAS COM O AGRICULTOR, O MESMO RELATOU QUE ERA UM PÉ DE MANDIOCA DA VARIEDADE "MANIPEBA" OUTRORA PLANTADA EM MUITOS LUGARES E QUE ESTÁ EM PROCESSO DE EXTINÇÃO, ISTO DEPOIS DE MUITO TEMPO PROCURANDO ESTA ESPECIE E ENCONTRO SEM PROCURAR, OU SEJA UMA GRANDE E BOA SURPRESA. PEGUEI UM GALHO E VOU TENTAR REPRODUZIR.
Entrevista - Daniel Vargas
"Ministros do STF arriscam jogar nitroglicerina na disputa política"
Professor da FGV critica declarações que podem ser interpretadas como "manifestações de simpatia política" e defende ideal de imparcialidade
por Débora Melo — publicado 02/05/2016 04h14
Carlos Humberto/SCO/STF

Dias Toffoli ao lado de Gilmar Mendes e Celso de Mello: "O impeachment é previsto na constituição. Não se trata de um golpe", disse ele à TV Globo
O processo de impeachment da presidentaDilma Rousseff, já autorizado pela Câmara dos Deputados e em fase de discussão no Senado, deveria seguir regras e critérios de modo que o resultado final seja considerado legítimo por todos, inclusive pelos derrotados. Essa é a opinião de Daniel Vargas, doutor em Direito pela Universidade de Harvard e professor da FGV Direito Rio.
Em entrevista a CartaCapital, Vargas critica as recentes manifestações públicas de caráter político por parte de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e afirma que o “conturbado” momento pelo qual passa o País sugere que a Corte ainda poderá intervir no processo de impeachment.
“Se nós soubermos de antemão o que vão decidir, por que acreditaríamos que esse processo foi legítimo e imparcial?”, questiona. Nas últimas semanas, os ministros Celso de Mello e Dias Toffoli deram declarações à imprensa na qual criticaram o uso do termo“golpe” pela presidenta Dilma.
Vargas, que integrou a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre 2007 e 2009 e também em 2015, diz que o Brasil ainda não desenvolveu uma “consciência de imparcialidade da Justiça” e que o fato de o Judiciário brasileiro ter sido poupado de críticas e reformas durante a transição da ditadura para a democracia ajuda a explicar o fenômeno.
Confira os principais trechos da entrevista:
Carta Capital: O senhor escreveu, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, que o Judiciário foi poupado do “juízo moral da democratização”. Como deveria ter sido a transição jurídica da ditadura para a democracia?
Daniel Vargas: Quando o País decidiu abandonar o velho regime autoritário e migrar para um regime novo, naturalmente se esperava um escrutínio público e severo de todas as instituições e de todos os poderes do regime anterior. Isso se daria com uma crítica ao Legislativo e ao Executivo, o que de fato aconteceu, mas o País também deveria ter passado por uma crítica ao Judiciário e ao Direito. Mudamos a Constituição, mas preservamos a Justiça.
É quase uma condição lógica da transição de um regime autoritário para um regime democrático que se mudem também os responsáveis por conceder a última palavra sobre o sentido da Constituição. Quando o Brasil manteve a Suprema Corte na transição democrática, acabou criando uma válvula para que a cultura, os critérios e o modo de ver do regime anterior penetrassem o novo mundo. E uma das consequências disso foi um processo de gradual desidratação da força normativa da nova Constituição.
Eu não estou dizendo que todos os nossos problemas teriam sido resolvidos se nós tivéssemos, naquela época, tomado essa decisão. Mas isso foi um erro da nossa engenharia constitucional, que gerou consequências danosas para o País.
CC: Quais consequências?
DV: A principal delas é que, ao absolver a Justiça dos desmandos do passado, nós abrimos mão de uma chance única na história de promover uma revolução no pensamento jurídico brasileiro, de finalmente libertar o Direito das amarras de um regime autoritário. Nós não fizemos isso. Nós tratamos o problema da Justiça como algo marginal, secundário, e não um elemento central do processo de democratização.
CC: O senhor acha que isso produz efeitos até hoje?
DV: Eu acho que a cultura jurídica brasileira tem traços muito similares àqueles que existiam no País antes da Constituição de 1988. A principal característica é que nossas autoridades jurídicas ora deduzem regras de princípios abstratos, ora selecionam aleatoriamente na floresta jurídica aquele ramo do Direito que parece ser mais conveniente para cada momento.
Em um momento inicial, nossa cultura jurídica era frágil porque era temerosa do Executivo autoritário. No momento seguinte, em que a cultura jurídica já não era mais subserviente, nós perdemos esse temor em relação ao Executivo, mas não desenvolvemos critérios democráticos e autônomos que constranjam a ação da Justiça.
Em uma ditadura, não há preocupação em justificar profundamente a maneira como você decide e a forma como a Justiça se comporta. Cada decisão tomada é válida. Dificilmente alguém ousa desobedecer a essa decisão, porque teme a mão forte do ditador. E a própria Justiça será temerosa em desobedecer ao Executivo, sob o risco de perder a cabeça. Foi o que aconteceu com alguns ministros do Supremo que ousaram desobedecer aos líderes militares: Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal foram aposentados compulsoriamente.
Na democracia, ao Judiciário não basta decidir e achar que automaticamente todos devem ou vão se satisfazer com aquela decisão, ainda que ela seja cumprida. Cabe à Justiça se comportar de forma imparcial e fundamentar as decisões de maneira que a sociedade possa enxergar o resultado daquela decisão como legítimo. Mas, no Brasil, nunca se desenvolveu essa consciência da imparcialidade da Justiça.
CC: É possível ter um Judiciário imparcial?
DV: A história do Estado moderno é a história da organização de um conjunto de instituições e de regras que sirvam como árbitros imparciais para a solução dos nossos problemas coletivos. Ou nós acreditamos na possibilidade de construção de um conjunto de regras e atores que têm a capacidade de pelo menos aspirar uma imparcialidade como ideal ou então nós caímos em uma luta política geral, de todos contra todos. Temos um problema quando a Justiça deixa de ver esse ideal como um limite para sua ação.
CC: Como o senhor vê a atuação de ministros do Supremo, que têm dado manifestações públicas de caráter político?
DV: Eu acho que ministro do Supremo Tribunal Federal deveria se manifestar exclusivamente nos autos do processo. Manifestações públicas que podem ser interpretadas como manifestações de simpatia política, de um lado ou de outro, apenas servirão para colocar em xeque a credibilidade da decisão tomada pela Corte no final do dia.
Eu não vejo razões para ministros da Suprema Corte darem entrevistas com opiniões, com abusos de retórica, sobre casos difíceis em andamento, cuja solução arrisca partir o País ao meio. Tudo o que pode ser utilizado para colocar em xeque a imparcialidade da Justiça deve ser evitado a qualquer custo, especialmente em um caso politicamente sensível como o impeachment de uma presidente da República.
O impeachment não é simplesmente mais um caso jurídico, nem se trata de uma disputa política em que o decisivo é aferir a vontade da maioria. O que está em jogo em um caso de impeachment é a própria legitimidade do regime democrático brasileiro. O mais importante é saber se o processo de impeachment seguiu critérios e procedimentos que, no final das contas, serão aceitáveis pela minoria derrotada. Portanto, é absolutamente central garantir as condições para que essa aceitabilidade do resultado prevaleça.
O decisivo no impeachment não é saber se o processo seguiu um conjunto de critérios formais, como se fosse o julgamento de mais um caso por um juiz, mas avaliar se a decisão produzida por esse processo conquistará a aceitação da sociedade, especialmente dos derrotados. Para o futuro da democracia brasileira, é importante que os dois lados aceitem continuar a jogar o jogo.
CC: Mas tudo leva a crer que não será aceito...
DV: Aí o regime entra em crise. Se o resultado produzido por esse regime coloca em xeque a autoridade das instituições que operam no Brasil, como nós vamos continuar a dinâmica democrática amanhã?
Ao dizer ‘o impeachment está previsto na Constituição, logo, não é golpe’, os ministros encostam sua autoridade, seu nome e seu cargo a uma argumentação vazia. O que vai definir o sucesso ou o fracasso do processo de impeachment não é uma articulação superficial deideias previstas formalmente na Constituição, mas sim um conjunto de critérios e de comportamentos que permitirão a todos, ao final do processo, olhar para o resultado que foi produzido e dizer: ‘esse resultado é aceitável, é justo, é constitucional’.
Quando os ministros do STF se manifestam publicamente durante um processo politicamente conturbado, com abusos de retórica, em vez de criarem um ambiente mais neutro e mais confiável eles arriscam jogar nitroglicerina na disputa política nacional. Em vez de intervir publicamente nessa dinâmica conturbada do processo político, o Supremo deveria se retrair e aguardar para proferir a sua decisão final.
CC: O senhor acha que caberá ao Supremo a decisão final?
DV: Temos boas razões para crer que haverá judicialização do processo de impeachment. E o Supremo será chamado a intervir. Se nós soubermos de antemão o que vão decidir nesse momento, por que acreditaríamos que esse processo foi legítimo e imparcial?
CC: Como o senhor vê a demora do STF em julgar o afastamento do Eduardo Cunha?
DV: Sobre esse ponto, eu só diria que há dois sentidos de imparcialidade: a imparcialidade subjetiva e a imparcialidade objetiva. Subjetivamente isso acontece quando uma pessoa ou um conjunto de pessoas deliberadamente escolhe um lado, e não outro.
A imparcialidade que me parece mais problemática é a objetiva. É aquela que, ainda que não haja intenção, evidentemente produz um efeito diferenciado no jogo político nacional, portanto, um efeito indesejável. E surpreende que o processo de Eduardo Cunha esteja há tanto tempo parado no Supremo aguardando julgamento enquanto outros processos avançam com celeridade.
domingo, 1 de maio de 2016
Lava Jato
Ministro da Justiça pede apuração sobre reportagem de CartaCapital
Parlamentares foram investigados sem autorização do STF e buscas foram simuladas. Contadora era agente infiltrada e provas foram vazadas à imprensa
Marcelo Camargo/ Agência Brasil/Fotos Públicas

Aragão encaminhou à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal solicitação para que seja apurado o conteúdo da reportagem de CartaCapital
O ministro da Justiça, Eugênio Aragão, encaminhou à direção da Polícia Federal e ao Ministério Público Federal uma solicitação para que seja apurado o conteúdo da reportagem de CartaCapital que revelou os bastidores daoperação Lava Jato.
A matéria "Os segredos de Meire Poza" mostra que uma busca e apreensão foi forjada, parlamentares foram investigados no início da operação sem autorização do Supremo Tribunal Federal, documentos confidenciais foram vazados à imprensa e que a contadora e ex-braço direito do doleiro Alberto Youssef foi usada como agente infiltrada.
CartaCapital obteve com exclusividade quase 200 páginas de transcrições de conversas e duas dezenas de e-mails entre a contadora e integrantes da força-tarefa. A relação entre Poza e os investigadores funcionava da seguinte maneira: a contadora encaminhava documentos e fornecia informações ainda protegidas por sigilo. A colaboração “informal” ganhou elogios de Anselmo. “Vc deveria fazer concurso pra PF”, escreveu no WhatsApp.
Em outra conversa, ela informa que uma ex-namorada de um investigado gostaria de conversar com ela, mas pessoalmente. A interlocutora diz ter receio de falar por telefone, com medo de grampos. A um dos investigadores, Meire debocha: “Eu sou o grampo kkkk”.
Em um diálogo de 16 de maio de 2014, a contadora e Anselmo citavam abertamente nomes de políticos. Por causa da prerrogativa de foro privilegiado, as investigações não poderiam ter seguido na primeira instância. Necessitavam de autorização do Supremo Tribunal Federal.
“Vixi tem muito político...”, anota ela em uma das trocas de mensagem. Poza continua: “No dia 12 ou 13 de março por exemplo ele estava a noite com o Renan Calheiros pra acertar a colocação da debenture na Postalis”.
O trabalho da informante rendia à força-tarefa informações privilegiadas, inclusive da defesa dos investigados. Em junho daquele ano, a contadora confidenciou à Polícia Federal que Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa haviam decidido fechar suas delações premiadas.
Em uma das conversas com Prado, em 25 de junho de 2014, Poza diz ter sido informada por alguém próximo aos investigados que os dois aguardavam apenas o retorno de férias do advogado do doleiro para avançar na discussão da colaboração com a justiça.
“Hmmmmmmm... Tem uma boa... A xxxxxx disse que o Beto e o Paulo Roberto estão só esperando o Adv do Beto voltar de férias pra tentarem um acordo”. Os depoimentos da cooperação judicial do ex-diretor da Petrobras foram iniciados em agosto e os de Youssef, em outubro daquele ano. A PF não quis comentar a reportagem.
ongresso
No Congresso, a escavadeira mostra seu poder
ONGs criticam as propostas para agilizar os licenciamentos ambientais
Arquivo Pessoal

Irregularidades no licenciamento da barragem foram determinantes para a tragédia
Instalada em novembro do ano passado, poucos dias após o rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco no município de Mariana, em Minas Gerais, a comissão parlamentar que acompanha os desdobramentos do maior desastre ambiental da história do País segue o curso moroso dos trabalhos legislativos, esquecidos em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.
A lentidão nos trabalhos da comissão contrasta com a celeridade na tramitação de uma proposta para agilizar a concessão de licenças ambientais. Apresentado em setembro de 2015 pelo peemedebista Romero Jucá, um dos principais entusiastas do impeachment, o texto está pronto para ser votado no plenário no Senado.
O projeto prevê a criação de um licenciamento ambiental especial para obras estratégicas de infraestrutura, ao estabelecer prazos exíguos para os estudos de campo dos órgãos de fiscalização ambiental. A proposta faz parte do pacote da Agenda Brasil, idealizada por Renan Calheiros, presidente do Senado, para retomar o crescimento econômico.
Ironicamente, a investigação do Ministério Público de Minas Gerais sobre o desastre de Mariana aponta que a pressa no licenciamento da obra da barragem foi decisiva para a tragédia. A Samarco não teria, segundo o MP, apresentado detalhes técnicos importantes para obter a licença prévia em 2007. À época, os dados foram considerados suficientes pela Fundação Estadual do Meio Ambiente. Ainda assim, a palavra de ordem no Congresso é “desburocratizar”.
O projeto de Jucá estabelece um período de 230 dias, pouco mais de sete meses, para a concessão do licenciamento especial. Atualmente, os empreendimentos no País levam dois anos em média para serem aprovados. Segundo a proposta do PMDB, os órgãos licenciadores estaduais e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente deverão analisar em até 60 dias os documentos entregues por empreendedores. Depois, terão mais dois meses para pedir novos esclarecimentos e deliberarem sobre a licença.
Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), uma das ONGs que integram o Conselho Nacional do Meio Ambiente, afirma que o prazo de dois meses para a análise do pedido de licenciamento não se adapta ao “tempo natural”. “Em locais de grande biodiversidade, é preciso acompanhar todas as estações do ano, pois as espécies se reproduzem de forma sazonal”, explica.
“Não se pode inverter e criar um sistema de gestão a partir da lógica econômica, de resultado, investimento e retorno rápidos.” Segundo Bocuhy, a atual capacidade de fiscalização da área ambiental no País é limitada e a proposta no Senado não prevê aumento da capacitação do Ibama e dos órgãos estaduais. “Se a rigidez na concessão do licenciamento ambiental diminuir, casos como o de Mariana vão se tornar mais frequentes.”
A proposta do PMDB não prevê a obrigatoriedade de consultas às populações potencialmente afetadas por um empreendimento.
No lugar das audiências, foi proposta a criação de um programa de comunicação ambiental para prestar esclarecimentos à sociedade, coordenado pelo próprio empreendedor e com duração mínima de 30 dias. A mudança preocupa os ambientalistas. “A consulta pública seria conduzida e concluída pelo empreendedor, uma verdadeira autorregulamentação das audiências”, afirma Bocuhy.
O Ministério Público Federal, com apoio do Proam e de outras ONGs de meio ambiente, tem realizado uma série de audiências públicas para debater as mudanças propostas.
O promotor de Justiça Fernando Barreto Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente, afirma que qualquer projeto capaz de causar restrições ao acesso da sociedade às informações e de dificultar a participação popular será objeto de impugnação. “Há uma significativa redução da publicidade nos processos de licenciamento ambiental, o que contraria não só a Constituição, como toda a legislação vigente que assegura a transparência dos dados ambientais.”
Além da proposta que tramita no Senado, o Conama, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, criou um grupo de trabalho para tentar agilizar a concessão de licenciamentos no País. A minuta da proposta apresentada ao conselho pela Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente prevê a criação de um licenciamento ambiental unificado, com o objetivo de avaliar em apenas uma etapa os empreendimentos que tenham menor potencial de impacto. Atualmente, a aprovação ambiental de uma obra é realizada em três fases: a licença prévia, a de instalação e a de operação.
Contrariados, o Proam e outras quatros ONGs que compõem o Conama decidiram deixar o grupo de trabalho por não concordarem com a celeridade imposta nas discussões e pela falta de critérios sobre quais empreendimentos estariam aptos a obter a licença em uma única fase de avaliação.
Assessores da área ambiental do governo concordam que a minuta carece de complementação, especialmente em relação aos critérios. Eles afirmam, porém, que a modalidade simplificada de licenciamento tem sido adotada pelos órgãos estaduais. O governo não pretende ainda limitar a realização de audiências públicas, um dos pontos mais criticados no projeto do Senado.
Segundo Bocuhy, a crise econômica vivida pelo País acaba por transformar o licenciamento ambiental na “Geni” do processo de retomada do crescimento. O caos político pode ter efeitos ainda mais nocivos. “O PT atende aos interesses econômicos, mas ao menos sabe trabalhar com a sociedade e dialogar. Se o PMDB chegar ao poder, passará como um trator sobre a área ambiental.”
*Reportagem publicada originalmente na edição 897 de CartaCapital, com o título "O poder da escavadeira"
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